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PEDRAS DO CAMINHO

Mais um Caminho a Santiago!

Reprodução Google


De Assis a Santiago: seguindo os passos de Francisco em 1214

A cada dia aumenta minha convicção que a travessia que eu e minha amada Sandra estamos prestes a fazer, em junho, de Assis, na Itália, a Santiago de Compostela, na Espanha, é algo surpreendentemente inédito e, ao mesmo tempo, mais um entre os Caminhos de Santiago já existentes. Ouvi pessoas, peregrinos e também franciscanos, em Santos e em Santiago, e também pesquisei na internet, e posso afirmar com alguma segurança que não há, ou não encontrei, qualquer registro sobre uma eventual rota de peregrinação pelos cerca de 2.500 quilômetros que separam, ou unem, Assis a Santiago.

Nem mesmo neste ano em que se comemora o 8º centenário da peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago, parece ter surgido alguém ou alguma organização, religiosa ou não, com a motivação de traçar ou mesmo realizar a fantástica peregrinação, tal qual o jovem Francisco e seus seguidores teriam feito em 1214. Afinal, se é possível celebrar que Francisco esteve em Santiago de Compostela há 800 anos, é natural que para isso tenha percorrido, muito provavelmente a pé, uma rota de Assis, onde vivia, até Santiago, onde desde 829 o mundo cristão reconhece a existência das relíquias do apóstolo de Cristo, hoje guardadas na cripta da Catedral.

A questão é: qual teria sido este trajeto?

Se a tradição em Espanha admite, como está relatado no trabalho de frei Juan Natalio Saludes Martinez, de 2006, intitulado “Francisco de Asís en las piedras del camino”, que Francisco (5 de julho de 1182 - 3 de outubro de 1226), com cerca de 32 anos, peregrinou e pregou o Evangelho em terras espanholas, neste momento não se sabe, ou pelo menos não há – ou ainda não encontrei – registros de sua passagem por Itália e França a caminho de Santiago. Ou seja, como teria feito o trecho de Assis a Somport ou de Assis a Saint Jean Pied de Port – as duas travessias dos Pirineus por onde Francisco deve ter entrado na Espanha.

Fixo-me nos trechos de Itália e França, pois, como demonstra o trabalho de Frei Natalio (leia abaixo o post de 10 de março passado), a tradição é poderosa em apontar a presença de Francisco em diferentes pueblos de Espanha ao longo e em rotas tangenciais do que se convencionou chamar de Caminho Francês (de forma emblemática iniciado em Saint Jean Pied de Port) e de Caminho Aragonês, que compreende o percurso entre Somport a Obanos, pouco antes de Puente la Reina, quando este se encontra com o Caminho Francês e juntos seguem a Santiago.

Meu maior desafio, portanto, foi ponderar o que poderia ter sido uma rota viável naquele início de século XIII, por terras de Itália e França, especial de Assis a Somport, pois aceito a tradição que Francisco esteve nos pueblos de Undués de Lerda e Sangüesa no Caminho Aragonês, o que reforça a tese de sua entrada em Espanha por Somport e não por Saint Jean Pied de Port. Ademais, deve ser considerada a importância política e religiosa de Jaca àquela época, capital do Reino de Aragão entre 1077 e 1096, e a existência do Monastério de San Juan de la Peña (na rota tangencial do Caminho Aragonês), cuja construção do claustro teria sido finalizada no começo do século XII e que carrega a tradição de ter abrigado o Santo Graal.

Embora possa assegurar que hoje já me sinta no Caminho, acompanhado de minha Sandra e tendo Santiago a nos guiar, o embarque para Roma, com escala em Madri, acontecerá efetivamente a menos de um mês, já contando os dias, em 3 de junho. Da capital italiana, seguiremos para Assis, localizada no lado ocidental do Monte Subásio, uma montanha da cadeia dos Apeninos, na região da Úmbria, Província de Perúgia, onde permaneceremos duas noites.

Afinal, foi em Assis que Francisco nasceu em 5 de julho de 1182, filho de burgueses, o comerciante Pietro di Bernadone dei Moriconi, casado com Pica Bourlemont, cuja família tinha raízes francesas. Embora tenha se notabilizado como Francisco, foi batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone (João, em homenagem a São João Batista), na hoje Catedral de Assis, dedicada a São Rufino – aliás, a mesma igreja onde em 1193 foi batizada Santa Clara. A origem do nome “Francesco” é incerto, mas talvez seja em referência a “francês”, como era chamado pelo pai.

Há muito a ver, conhecer e aprender em Assis, onde Francisco viveu intensamente e, em 3 de outubro de 1226, veio a falecer. Suas relíquias estão guardadas nesta cidade, na cripta da Basílica de São Francisco.

Como dito inicialmente, o percurso de Assis a Santiago de Compostela soma cerca de 2.500 quilômetros. Para compatilizar a travessia com o tempo que temos disponível em junho traçei um roteiro com 14 etapas, utilizando trem em sua maior parte, mas prevendo alguns trechos a pé – não só para reafirmar minha fé na peregrinação a Santiago, mas também com a pretensão de iniciar Sandra na mística do Caminho. Se projetasse realizar uma peregrinação a pé, na acepção correta da palavra, seriam necessários de 90 a 100 dias; isto se fosse possível manter uma média de 27 a 25 quilômetros por dia. Talvez o tempo que Francisco levou para concluir sua peregrinação. De carro, hoje é possível realizar a rota em 26 horas!

Nossa primeira etapa será de Assis a Chiusi Della Verna, na Província de Arezzo – onde muito próximo está localizado o Santuário do Monte Alverne, pertencente à Ordem Franciscana, onde, segundo a tradição, Francisco recebeu os estigmas, as chagas de Cristo em seu corpo, em 17 de setembro de 1224. Este trecho tem 114 quilômetros.

Como uma peregrinação, em cada cidade permaneceremos apenas uma noite, retomando o Caminho na manhã seguinte – com exceção do magnífico Santuário de Lourdes, onde ficaremos duas noites.

De Chiusi Della Verna seguiremos para Livorno, 205 quilômetros.

De Livorno a Gênova, 177 quilômetros.

De Gênova a Mônaco, 182 quilômetros.

De Mônaco a Marselha, 228 quilômetros.

Marselha a Toulouse – o trecho mais longo de toda a travessia –, 403 quilômetros.

Toulouse a Lourdes, 173 quilômetros.

Após duas noites em Lourdes seguiremos para Jaca, 128 quilômetros.

Jaca a Undués de Lerda, 118 quilômetros.

Undués de Lerda a Puente la Reina, 67 quilômetros.

Puente la Reina a Burgos, 177 quilômetros.

Burgos a León, 177 quilômetros.

León a O Cebreiro, 157 quilômetros.

O Cebreiro a Santiago, 161 quilômetros.

Ao final, com base nas quilometragens informadas pelo Google, teremos percorrido 2.467 quilômetros.

No papel, a travessia apresenta-se perfeitamente viável e é bem provável que também seja possível a pé, o que somente poderia ser confirmado no dia a dia por quem se dispor a fazê-la – ou por quem já a fez, se surgir alguém que diga já ter feito este Caminho...

Ao longo dessas 14 etapas poderemos até coletar informaçoes sobre a viabilidade da peregrinação a pé, mas com certeza nosso foco principal, entre tantos que a travessia será capaz de proporcionar, é pesquisar e documentar a marca ou a tradição local da presença de Francisco, seja efetivamente em 1214 ou alguma referência anterior ou posterior a este ano. E não só pesquisar e documentar, mas também compartilhar e intercambiar informações.

Com este ânimo, teremos grande satisfação em tê-lo em nossa companhia, seja neste blog, seja no Facebook.

Passa na frente, Santiago!



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h09
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