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PEDRAS DO CAMINHO

História e lenda de Francisco no Caminho de Santiago - Parte I

Frei Natalio: inspiração ao fazer o Caminho Francês...

Frei Juan Natalio Saludes Martinez, da Ordem dos Frades Menores (OFM) de Santiago de Compostela, é um estudioso da instituição e incentivador da celebração do 8º Centenário da peregrinação de Francisco de Assis a Santiago de Compostela, ocorrida em 1214. Estou certo que ele não é uma unanimidade, pois tive a oportunidade de falar com mais de um frei franciscano sobre a famosa peregrinação, e estes, talvez mais “pragmáticos”, não estão certos de que ela tenha acontecido. Um deles me disse que a peregrinação seria um dos famosos “Fioretti di San Francesco”, ou Florilégio de São Francisco – escritos do século XIV sobre passagens relatadas por discípulos do Santo, que mesclam lendas e fatos verídicos. Ou seja, é acreditar... ou acreditar, exigindo para isso uma boa dose de fé.

Frei Natalio, pela qualidade da pesquisa que realiza há alguns anos – sintetizada num minucioso artigo de 2006, o qual tive acesso, intitulado “Francisco de Asís en las piedras del camino” –, acredita sim que Francisco (5 de julho de 1182 - 3 de outubro de 1226), com cerca de 32 anos, peregrinou em 1214 o Caminho de Santiago de Compostela, tenha sido para pregar o Evangelho e manifestar sua disposição de “reconstruir a Igreja”, divulgar os princípios da OFM, enfim, celebrar as relíquias de Apóstolo Santiago!

“O objetivo deste trabalho é mais um grito de socorro que uma apresentação de resultados”, afirmou frei Natalio, na abertura do artigo, ao revelar que foi levado à pesquisa quando peregrinava o Caminho Francês, em 2005. Em sua passagem por Santo Domingo de la Calzada encontrou uma placa de madeira com a inscrição: "São Francisco esteve aqui”.

Foi uma inspiração: “Eu, que achava que eram tradições esquecidas, provou-se ser tradição viva, transmitida pelo povo de cada lugar. Nesta busca sigo agora, pedindo ajuda para conseguir identificar o itinerário que Francisco teria feito, em 1214, de Assis a Compostela”.

De mim, tudo que apurei em minhas pesquisas, aprofundadas em Santiago de Compostela quando terminei a peregrinação pelo Caminho Sanabrês, em junho de 2013, está relatado neste blog, em posts de 26 de junho de 2013, “Qual a rota de Francisco a Santiago?”; 30 de junho de 2013, “Francisco e o Caminho Aragonês!”; e em 29 de julho de 2013, “Viagem a Assis inicia celebrações”. Aliás, muitas das informações que obtive, copiando os painéis que decoram a Igreja de São Francisco em Santiago, hoje sei que foram retiradas da pesquisa do frei Natalio.

Pela qualidade deste trabalho, passei a adotá-la como guia para elaborar o meu projeto do que teria sido o itinerário de Francisco de Assis a Santiago de Compostela. Uma viagem que farei não totalmente a pé, pois são mais de 2.200 quilômetros de distância!, mas utilizando ônibus, trem, carro e minhas pernas..., em junho próximo, junto com minha esposa Sandra. Enviei o plano de nossa viagem ao frei Natalio e fiquei encantado com seu entusiasmo:

“Hola hermano! Te felicito! Cuanta envidia poder ir a hacer este camino! Yo añadiría el Cebreiro y Samos, como puntos donde seguramente San Francisco se refugió. Si son puntos donde vs a hacer una crónica y nos conectaras tu diario para seguir caminando contigo. Te aprece? Tenme informado! Lo pondré como noticia a mis hermanos en nuestra web! Mil graciaaaaaaaaaaaaaaas”.

Comemorei os votos com Sandra e ambos estamos felizes em poder contar com o olhar de frei Natalio – e, claro, de todos os familiares e amigos, brasileiros e de países irmãos, peregrinos de coração, que estarão nos acompanhando neste blog e pelo Face.

Neste post minha pretensão é apresentar alguns trechos do trabalho do amigo franciscano, para, por meio do compartilhamento, ajudá-lo em seu objetivo de aprimorar, cada vez mais, qual teria sido a rota de Francisco no início do século XIII – considerando as dificuldades de transporte daquela época e o fato de que muitas cidades talvez hoje tenham sido extintas, enquanto outras, agora centros urbanos, sequer existissem...

Diz o autor: “O objetivo do meu trabalho, talvez sempre germinando, apesar de levar vários anos com ele, é estudar provas documentais e iconográficas dos passos de São Francisco de Assis pela Espanha, que dão origem a várias tradições locais, sem julgar a veracidade de todas elas, mas considerando que cada uma delas é transmissora de algum fato realmente acontecido”.

Frei Natalio cita autores que elaboraram trabalhos anteriormente, dos quais utilizou dados: Frei Atanasio López, que investigou o assunto por ocasião do sétimo centenário da vinda de Francisco a Espanha, em 1914; Frei Manuel Castro, que continuou o estudo histórico sobre a Província Franciscana de Santiago; Frei José García Oro, que centraliza e situa o tema na historicidade das origens franciscanas na Espanha; Frei Victorino Facchinetti, que estudou o tema aplicado à arte.

Frei Natalio apresenta o contexto histórico da peregrinação de Francisco, frisando que a reconquista cristã da Península Ibérica era um tema conhecido e muito falado na Itália. Ele recorda que os reis da Espanha, liderados por Alfonso VIII, de Castela, se dirigiram ao Papa Inocêncio III para pedir sua bênção em uma cruzada contra o emir Muhámmad Al-Nasir, conhecido pelos cristãos como “Miramamolín” (Amir Al Mu'minin, Príncipe da Crentes), quarto califa da dinastia almóada de Marrocos. Os cristãos venceram a batalha de Las Navas de Tolosa em 16 de julho de 1212. Muhámmad Al-Nasir se exilou em Rabat, abdicando a seu filho Yusuf-Al-Mustansir.

Em 1212 o arcebispo de Toledo, Ximénez de Rada, foi a Roma pedir ao Papa a aprovação de uma Cruzada no Ocidente contra os almóadas, para os quais ele mesmo pregou na Itália, França e Alemanha. A presença almóada na Espanha foi exposta na Europa como uma ameaça para toda a Cristandade. Os contemporâneos compararam a Cruzada do Oriente com a do Ocidente, exortando os cruzados europeus a virem para a Espanha, “antes que seja tarde”.

O Papa Inocêncio III estimulou, mediante uma bula, aos Reis de Espanha para que se unissem para a Cruzada, concedendo indulgências a quantos europeus acudissem a Espanha para esta Cruzada, e ameaçando com excomunhão quem quebrar a trégua com Castela causando brigas entre os reinos cristãos, fazendo fracassar a unidade contra os almóadas. As Ordens de Calatrava, de Santiago, do Templo e de São João também se envolveram nesta cruzada. Em torno de Pentecostes, em 1212, o Papa Inocêncio III, impôs em Roma um jejum de três dias para rezar pela vitória dos cristãos na Espanha.

Francisco, portanto, conhecia esta empresa cristã, tanto quanto as Cruzadas de Oriente e planejou sua visita pacífica ao califa Miramamolín, com a mesma convicção com que uns meses antes queria partir para a Síria e, depois do Capítulo de 1219, foi finalmente até os muçulmanos, neste caso para visitar o Sultão do Egito, Melek el Kamel, neto de Saladino, durante a Quinta Cruzada.

Frisa o autor: Se prestarmos atenção à tradição dos lugares que alegam ter contado com sua presença, Francisco pode ter se dirigido a Espanha, em direção a Sevilha, passando por Soria, Ayllón, Ciudad Rodrigo e, em algum lugar deste itinerário, compreendeu a impossibilidade de levar a cabo seu projeto. Os documentos dizem que uma doença o impediu. Francisco, de Ciudad Rodrigo – desde 1175 o bispado sufragânea de Santiago de Compostela –, teria se encaminhado a Compostela por devoção a Santiago, como afirmam os documentos do século XIV, para tomar o caminho conhecido da cristandade. A fama de santidade que Francisco havia ganho durante a sua presença nos reinos cristãos teria permitido contar, em sua passagem pelo Caminho de Santiago, com a recepção favorável das populações, mosteiros e governantes.

Em Vida I, de Celano, datada de 1228, biografia com a data mais próxima da morte do Santo (1226), sem a emoção que o tempo faz com os santos, conta que Francisco viajou para a Espanha, cujos objetivos não alcança devido à doença. Diz ele: "Pouco depois (de fracassar em seu propósito de ir à Síria para pregar o Evangelho aos muçulmanos), ele foi para o Marrocos para pregar o Evangelho a Miramamolín e seus correligionários. Tal era a veemência do desejo que o movia, que por vezes deixava para trás seu companheiro de viagem e não afrouxava, ébrio de espírito, até cumprir seu desejo. Mas louvado seja o bom Deus, que era bom e por sua bondade, uma vez na Espanha, para evitar que continuasse adiante, lhe mandou uma doença que o fez voltar seu caminho”.

A lenda maior de São Buenaventura, biografia quer é a oficial e definitiva sobre São Francisco, submetida ao Capítulo Geral da Ordem em Paris, em 1266, mais institucional do que objetivamente histórica, amplia os dados sobre esta viagem: Francisco caminha para Compostela, acompanhado de Bernardo de Quintevalle, seu primeiro companheiro a abandonar riquezas e honras por uma vida de pobreza e busca de Deus. Como Celano, nos diz que Francisco não chegou a terra dos sarracenos por causa de uma doença.

O Tratado dos Milagres, escrito entre 1250-1253, fornece evidências da presença de São Francisco na Espanha e conta certos milagres. São milagres ocorridos em "seu retorno da Espanha" fazendo o regresso do Caminho de Santiago

São os documentos posteriores ao século XIII – Actus Beati Francisci, os Fiorettis e a Crônica da XXIV Generais – que abundam em ecos históricos sobre a passagem de Francisco por terras catalãs e navarras. Documentos que apresentam a estadia de Francisco em Santiago como o momento em que se converte em fundador, recebendo de Deus o conhecimento de que sua Ordem há de se instalar em conventos estáveis.

O que dificulta a credibilidade é o fato de que os historiadores do século XIII, que narram outras missões dos primeiros franciscanos, não mencionam a viagem de Francisco a Espanha, tais como Jordán de Giano, Thomás de Ecleston, Juan de Piancarpino e Salimbene de Parma.

Atanásio Lopez situa a viagem de Francisco depois da Páscoa de 1213, quando ele recebe a doação de Monte Alverne, e novembro de 1215, data em que participou do IV Concílio de Latrão. García Oro a restringe aos meses de maio a outubro de 1214, o que tornaria muito difícil aceitar uma grande viagem missionária ou fundadora de Francisco de Assis por todos os lugares que afirmam hoje haver contado com a sua presença.

Enfatiza o frei Natalio que deve ser considerado que a peregrinação jacobea foi um projeto da primeira geração franciscana em seu programa de expansão e do programa do Governo da igreja, que necessitava de homens fiéis e santos para combater as heresias. Também Santa Clara, de acordo com o testemunho de Bonna de Guelfuccio em seu processo de canonização, encarregou-a de visitar a Igreja de Santiago.

O próprio Francisco incentivou entre seus primeiros irmãos a peregrinação jacobea como itinerário de expansão. Desde o primeiro momento a Ordem programa missões e irmãos para tomar esta direção. Uma primeira expedição teria sido em 1217, sobre o comando de Bernardo de Quintavalle. Webster diz que houve grupos de monges, antes da fundação dos mosteiros mais importantes, que se estabeleceram na Catalunha e em outros lugares, ou se somaram às fundações que estavam ocorrendo.

Em 1219 Juan Parente lidera uma expedição de 100 frades, conforme encomendado por um Capítulo Geral celebrado neste ano e presidido por Francisco de Assis. Frei Juan Parente é o primeiro Provincial de Espanha e mais tarde Ministro Geral em 1227. A partir da década de 1220 surge, em primeiro lugar, toda uma rede de mosteiros localizados em locais estratégicos do Caminho de Santiago, e mais tarde em outras cidades. O que a princípio tinha sido uma presença missionária, motivado pelo zelo franciscano de converter os muçulmanos e os albigenses e promover entre os cristãos uma vida simples e uma fé verdadeira, em breve começará a ser uma presença estável em torno de aldeias urbanas, que requer dos protocolos canônicos autorização das autoridades, mediante apresentando as credenciais apropriadas; e com apoio e incentivo do Sumo Pontífice.

Diz Frei Natalio: No início da fundação da Ordem, quando ainda eram poucos os irmãos e os conventos não haviam se estabelecido, São Francisco foi, por devoção, a Santiago de Galícia, levando consigo alguns irmãos. Chegando lá, se falavam durante a noite em oração na igreja de Santiago, quando foi revelado por Deus a Francisco que teria que fundar muitos mosteiros em todo o mundo, uma vez que a Ordem havia de se expandir e crescer com uma grande multidão de irmãos. Esta revelação moveu Francisco a fundar conventos naquelas terras.

Outro tom muito mais firme tomará o discurso a partir da certeza da presença de Francisco, em vários lugares que dizem "San Francisco de Asís estuvo aquí". É, sem dúvida, uma tradição tão forte merece ser levado muito a sério.

 

Leia abaixo a Parte II.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h58
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PEDRAS DO CAMINHO

História e lenda de Francisco no Caminho de Santiago - Parte II

Marco no início do Caminho Aragonês, em Somport, Pirineus: por aqui Francisco teria entrado na Espanha

Explica frei Natalio que a linha que une os lugares cujas tradições poderiam ser consideradas mais fundamentais forma uma viagem de ida e volta, que entraria por Navarra ou pelo Caminho Aragonês e terminaria em Barcelona. Abaixo os pontos onde há vestígios dos passos de Francisco no Caminho de Santiago de Compostela.

Undués de Lerda

Neste lugar do Caminho Aragonês a população conversa na memória que São Francisco se hospedou numa casa na esquina Noroeste de um cruzamento de caminhos, saindo para Sangüesa.

Rocaforte – Sangüesa

A presença de São Francisco em Rocaforte, no Caminho Aragonês, é estudada pelos Capuchinhos de Sangüesa, conforme trabalho do frei Lucio Aranguren. Rocaforte foi a “Civitas Sancosa” dos romanos. Em 1057 o rei Sancho IV, de Peñalén, doou a seu tio Ramiro, rei de Aragão, a vila de Sangüesa la Vieja junto com as vilas de Lerda y Undués. Entre os edifícios notáveis de Sangüesa la Vieja estão a Igreja Paroquial de Santa Maria, reconstruída no século XVI, a ermida de São Miguel e a capela dedicada a São Bartolomeu, que foi convento franciscano.

A tradição local diz que São Francisco chegou à capela de São Bartolomeu, onde falou de paz ao povo desta cidade envolvido em conflitos internos e inimizade, tal como se conta em Pamplona, onde se celebra a festa da pacificação dos Burgos, graças à intervenção de São Francisco. E ao lado desta capela fundaria Francisco de Assis, ou seus irmãos, o primeiro convento franciscano em Espanha, onde viveram os freis durante 50 anos, até que em 1266 Teobaldo II fundou uma igreja franciscana em Sangüesa, onde hoje habitam os franciscanos capuchinhos. O que hoje resta do edifício de São Bartolomeu e do mosteiro franciscano está em ruínas e abandonado.

Entramos no terreno da lenda, quando se diz que uma amoreira no jardim do convento botou da vara de Francisco peregrino. Waddingo, no início do século XVII, recorre também à tradição desta amoreira plantada por São Francisco em Rocaforte e outros cronistas falam de uma fonte e uma pedra chamada "del descanso de San Francisco" por seu amor a ela.

Rocaforte seria, segundo Gonzaga, o lugar onde Francisco, a Caminho de Santiago, pediu a Bernardo de Quintavalle para ali ficar cuidando de um doente, como conta o autor de “Actus B. Francisci et sociorum”, obra composta no século XIV, antes de 1328, embora tomando fragmentos e notícias escritas no século XIII.

Já Aranguiz faz menção em sua obra de uma casa em Sangüesa onde Francisco se hospedou estando doente.

Olite

Esta localidade está próxima ao Caminho Aragonês tradicional. A igreja de Santa María la Real de Olite que data do século XIII tem uma grande fachada gótica-românico, que consiste em um rosetón e um portal de 8 arcos, que abrigam um tímpano com cenas da infância de Jesus. Estas esculturas estão relacionadas com o portal Norte da Catedral de Notre Dame de Paris. Erguida junto ao palácio, nunca foi a capela real, apesar de ter sido usada por monarcas navarros nas grandes festividades e atos solenes. O convento franciscano de Olite também data do século XIII, embora não seja sua construção atual.

Dos capitéis laterais que sustentam as arquivoltas quatro estão historiados. Estão neles representados três franciscanos, um deles é identificado mediante um talismã em suas mãos, onde se lê: "Franciscus Penitens”. Não necessariamente estão dizendo que Francisco passou por aqui. Poderia tratar-se de uma admiração pessoal do pedreiro sobre um Francisco de Assis que conheceu ou dele teve boas recomendações.

Cañas

As freiras cistercienses de Cañas, pueblo próximo ao Caminho Francês tradicional, guardavam entre suas tradições orais o lugar onde se achava o túmulo da abadesa Urraca López de Haro, que morreu com “perfume” de santidade em 1262 com 92 anos. E outra tradição oral não escrita em nenhum lugar era a que São Francisco em sua passagem por este lugar a caminho de Santiago ficou no mosteiro e iniciou uma grande amizade com esta mulher.

Em 1898 foi realizada escavação para localizar a referida sepultura e seu corpo foi encontrado incorrupto, no lugar descrito pela tradição. O túmulo tem uma grande riqueza escultural, que narra os assistentes no funeral da abadesa.

Entre as histórias contadas, no túmulo de pedra está o cortejo fúnebre com todos os presentes. Entre eles, dois freis franciscanos que, segundo a tradição local, seriam franciscanos que viajavam com Francisco a Santiago de Compostela, deixados por ele para participarem do funeral desta mulher em atenção à amizade surgida entre eles.

Santo Domingo de la Calzada

O Parador de Santo Domingo de la Calzada, no Caminho Francês, ocupa um antigo hospital do século XII, ao lado da Catedral, construída por Santo Domingo para acolher os peregrinos que viajavam pelo Caminho de Santiago. Entrando nele se encontra uma placa com a inscrição: "São Francisco esteve aqui”.

Burgos

Gil González Dávila, cronista dos reinos de Castela e das Índias em torno de 1600, oferece uma escritura do século XIII em que Bernardo, Ministro Provincial dos Trinitários de Burgos doa a Francisco e seus companheiros um terreno na cidade de Burgos, no Caminho Francês. Este nome de Bernardo está atestado na documentação mantida no Arquivo Histórico Nacional.

Conta Gonzaga que aqui Francisco se retirou a uma capela chamada São Miguel. E que teve a oportunidade de estar com o rei de Castela, a quem apresentou à Regra da sua Ordem. Este encontro de Francisco com o rei Fernando III, o Santo, e sua esposa Dona Beatriz teria sido gravado no grupo escultórico na porta da Coronería. Diante de Francisco estão Santo Domingo e o bispo D. Mauricio, este encarregado de apresentar ambos ao rei.

O mestre deste portal mostra muitos pontos em comum com o responsável pelo portal do Juízo no pórtico ocidental da Catedral de León. O modelo vem da Catedral de Reims.

Um dos personagens é, de acordo com a tradição local, São Francisco de Assis, identificado pelo cordão.

Nas mãos leva o que parece ser uma oferenda, uma credencial que pode sugerir, como disse Atanásio Lopez, que a escultura está representando Juan Parente, que veio em 1219 apresentando suas credenciais como Ministro Provincial a bispos e governantes.

Poderia evocar a tradição, tantas vezes repetida, de que Francisco aceita um terreno para a sua fundação, e para mostrar que não toma simplesmente a propriedade, carrega uma oferenda ao doador como locação.

León

Com idêntica estrutura decorativa se repete na Catedral de León, no Caminho Francês, a cena do juízo final, no portal central do Ocidente, também conhecida como a Virgem Branca. Curiosamente mudam, com relação ao portal da Catedral de Burgos, a posição de Maria e João, ajoelhados, agora como os dois anjos que acompanham Cristo.

A representação escultórica mostra um franciscano, que a tradição diz ser San Francisco, com a capucha fechada e conversando com o Rei San Fernando III. Entre eles está uma mulher que Sánchez Cantón alega representar Santa Clara.

Ambos conjuntos escultóricos de León e Burgos provam a força da nova presença mendicante no Reino de Castela e, talvez, a alta estima e a proteção que o rei de Castela, San Fernando III, dispensou a ambas Ordens – mas não necessariamente a presença de São Francisco nestas cidades.

Villafranca del Bierzo

No convento das freiras de La Anunciata, em Villafranca del Bierzo, no Caminho Francês, é preservada, segundo o testemunho de Atanásio López, um manuscrito de 1606, onde se lê: “É tradição antiga que a casa onde vivem os Padres Vicarios foi a primeira que teve São Francisco neste lugar, e que pousou nela quando passou a Santiago e tem por coisa certa".

Segundo Jacobo de Castro, São Francisco passou por este lugar a Caminho de Compostela. Se havia hospedado no hospital do senhor Santiago, hoje convento de Clarissas, junto ao qual a cidade cedeu terreno para instalar uma ermida em que ficaram dois freis. A história do lugar diz que o primeiro mosteiro foi doado pela rainha Dona Urraca em 1213.

Em Villafranca Atanásio López situa o milagre do leproso que, apesar de amaldiçoar Deus pela sua infelicidade, foi tratado por Francisco e, por sua caridade, o doente recuperou a paz interior e o perdão de Deus.

Santiago de Compostela

Diz Frei Natalio: “José García Oro já fixou o que esta tradição tem de história documentada e o que tem de lenda. Então, eu apenas resumo o seu trabalho”.

Monastério de San Martín Pinario de Santiago

A tradição conta que este mosteiro beneditino deu a Francisco um solar no lugar Valdedeus, para a construção do seu convento. Em troca Francisco se comprometeu a que seus irmãos pagassem uma cesta de peixes a cada ano como aluguel. Este contrato e relato é cópia do que foi feito entre Francisco com os beneditinos de Subasio, para a concessão da capela de Santa Maria dos Anjos, ou Porciúncula. O escrito contando esta história foi apresentado em 1554 ao príncipe Felipe II, em sua passagem a Inglaterra. A Crônica dos XXIV Gerais, do século XIV, narra que em 1217 Francisco enviou Bernardo de Quintavalle e outros frades para receber os lugares adquiridos na Província de Santiago.

Um cidadão chamado Cotolay

A lenda oral – e escrita em suporte de pedra, do século XVI, preservado no convento de Francisco em Santiago –, diz que Cotolay era humilde carvoeiro, que morava no Monte Pedroso, ao lado da capela românica de San Paio. Cotolay havia acolhido Francisco em sua casa e na capela. É uma tradição consolidada no final do século XVI, coletada pelo historiador Gonzaga.

“Viniendo Nuestro Padre San Francisco a visitar al Apóstol Santiago, hospedole un pobre carbonero llamado Cotolay, cuya casa estaba junto a la ermita de San Paio en la falda del monte Pedroso. De allí salía el Santo al monte a pasar las noches en oración. Allí le reveló Dios era su voluntad la edificación de un convento en el sitio donde está, llamado Val de Dios y Val del Infierno, y sabiendo el Santo era del monasterio de San Martín, pidióselo al Padre Abad por amor de Dios y ofreció ser su forero y pagar en cada año un cestito de peces. Aceptó el padre abad y de ello se hizo foro firmando el Santo, del cual dan fe los ancianos de San Martín han visto y leído. Habido el sitio dijo el Santo a Cotolay: “Dios quiere que me edifiques un convento de mi orden”. Respondió Cotolay que cómo podía un pobre carbonero – “Vete a aquella fuente” - dijo el Santo - que allí te dará Dios con qué. Obedeció Cotolay y halló un gran tesoro con el que edificó este monasterio. Bendijo Dios a la casa de Cotolay; casó notablemente. Fue regidor de esta ciudad y edificó los muros de ella que ahora van junto a San Francisco y antes iban por la Azabachería. Su mujer está enterrada en la Quintana y Cotolay, fundador de esta casa, en este lucilo que para sí escogió. Falleció santamente el año del Señor de 1238”. Esta inscrição está esculpida em pedra na entrada do convento, que data do século XVI.

Buen Camino!

 

Frei Juan Natalio Saludes Martinez pode ser contatado pelo e-mail juannataliosm@yahoo.es, site http://kmtau.org



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h55
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