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PEDRAS DO CAMINHO

Ah! A história dos meus avós - Parte I

Primo Rui, em frente ao 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque

Se me é motivo de orgulho pertencer a uma família – por parte de minha mãe – que seja migrante, procedente de Pernambuco, pioneira na ocupação e desenvolvimento de Mato Grosso (na porção que acabou se tornando Mato Grosso do Sul), também me enche de júbilo a história de minha família, assim dita, da parte de meu pai. A geração imediata não era de migrantes, uma certeza que ainda busco, mas tem indícios no documento que registra a morte do bebê Galdino Toledo Ferraz, com 2 meses e 5 dias, em 6 de julho de 1944, que deve ter sido o irmão mais novo de meu pai. Tal documento obtive em Aquidauana e informa, ao qualificar o pai do menino, enfim, o pai de meu pai – o meu avô Resquim Alves Ferraz – como “natural do Território de Ponta Porã”.

Ora, se a informação está correta, meu avô teria nascido no final do século XIX, talvez em 1894, na região de Ponta Porã, cidade fundada em 25 de março de 1892 e que hoje possui área conurbada internacional com a cidade de Pedro Juan Caballero, capital do departamento de Amambay, no Paraguai. Pouco antes dessa época, contudo, antes mesmo da Guerra do Paraguai (que se estendeu de dezembro de 1864 a março de 1870), Ponta Porã era uma região deserta no interior do Paraguai, habitada por algumas tribos de índios, como os Nhandevas e os Caiuás, descendentes do povo Guarani... Ou seja, os pais de meu avô, os meus bisavôs Augusto Nunes Ferraz e Vergínia Alves Ferraz (em solteira, Vergínia Alves da Cunha), teriam sido o que hoje se convencionou chamar de “brasilguaios”, uma mescla de brasileiro, paraguaio, indígena, espanhol..., uma miscigenação que se observa na pele, nos costumes, nos nomes, o que considero algo fantástico! Não e à toa que o apelido de meu pai era “Gringo” e o do seu irmão mais novo, “Alemão”!

Como disse no post anterior, fui a Mato Grosso do Sul para tornar público aos familiares da parte de minha mãe o livro de poesias do patriarca, meu avô Antonio Carneiro de Arruda (que, como já se falou, pode ter sido Antonio Lourenço Carneiro de Arruda...), que se estabeleceu em Aquidauana a partir de janeiro de 1939. E, estando em Aquidauana, não poderia deixar de vasculhar informações sobre a origem da família de meu pai, natural de Nioaque, localizada a pouco mais de 100 quilômetros de distância – ânimo que deixei claro no post de 19 de janeiro passado, quando relatei o contato mantido com o 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque, oportunidade em que falei com o responsável, Rui Alves de Lima, que descobri ser primo de pai, meu primo de segundo grau. Aliás, foi desde esse primeiro contato que fiquei sabendo que meu pai, nascido em 11 de novembro de 1921, em Nioaque, foi registrado como Ulmindo Toledo Ferraz e não Ormínio Toledo Ferraz, com quem minha mãe se casou, como sempre o conheci e, como, enfim, está grafado em todos os seus documentos... Ops, nem todos, pois no Diário Oficial da União, de 1º de abril de 1946, que relaciona os heróis da 2ª Guerra Mundial contemplados com a Medalha de Campanha, o nome do cabo está grafado Ormindo – nem Ulmindo, nem Ormínio!

Diário Oficial da União que divulga os heróis da 2ª Guerra Mundial contemplados com a Medalha de Campanha: cabo Ormindo, não Ormínio, muito menos Ulmindo...

Retomando a cronologia de minha viagem a Mato Grosso do Sul, na infinita busca de meus antepassados, reservei a quinta-feira 5 de dezembro de 2013 para ir de Aquidauana a Nioaque me encontrar com o primo Rui.

Peguei o ônibus das 6 horas e cheguei por volta das 9. Logo ao desembarcar constatei junto à agência da empresa rodoviária que a viagem de volta só seria possível ao final da tarde. Ou seja, como já havia programado diversas atividades em Aquidauana, teria que arrumar outra forma de retornar. Desde então passei a avaliar a possibilidade de voltar de táxi os cerca de 110 quilômetros que separam as duas cidades – solução que efetivamente viria a adotar.

Mas, havia acabado de chegar a Nioaque (fundada em 22 de maio de 1848, portanto, antes de Ponta Porã...), cuja grafia antiga é Nioac, conforme detectei em vários documentos da época, e também havia constatado que estava na rua do 1º Serviço Notarial e Registral. Era só caminhar alguns quarteirões... e caminhei. A área urbana é muito pequena. Encontrei primo Rui na porta do estabelecimento, e pela alegria dele e a minha parecia que estávamos nos reencontrando, que éramos amigos há muito tempo. Bem disposto, brincando, falando algumas frases em guarani..., ia me contando passagens da família, do meu avô, ou seu tio, pois Resquim era irmão de sua mãe Maria Alves Lima – que passou a usar o Lima ao se casar –, recordações de seu primo, meu pai, das amizades do meu pai, dos gostos do meu pai, do fato dele ser do signo de escorpião, o mesmo de um de seus irmãos..., exibindo muito orgulho da família, que possuiu fazendas em Nioaque e residia na mais aparelhada delas, denominada Triunfo, onde nasceu meu pai e todos os irmãos – um patrimônio que se perdeu ao longo das décadas, talvez negócios mal gerenciados; enfim, a vida.

Seus pais permaneceram em Nioaque, enquanto os tios Resquim e Leonídia, não se sabe exatamente em que época, foram com os filhos para Aquidauana, onde passaram a morar numa chácara na margem esquerda do Rio Aquidauana, ou seja, em Anastácio. Aliás, me lembro desta propriedade, que conheci numa viagem a Aquidauana, no final da década de 60. Meu avô já havia falecido, o que ocorreu em 24 de março de 1962, e lá tive o único encontro com minha avó Leonídia – pele morena, olhos indígenas, cabelos negros, sangue miscigenado... –, que viria a falecer em 4 de julho de 1973.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h08
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PEDRAS DO CAMINHO

Ah! A história dos meus avós - Parte II

Registro de casamento de meus avós Resquim, 25 anos, e Leonídia, de 16

A história dos meus avós paternos está documentada a partir de 14 de janeiro de 1919, às 16 horas da tarde, no lugar denominado Morrinho, em Aquidauana, na residência de Theodoro Francisco de Toledo – presente o coronel Alfredo Cesar Velasco, juiz de direito da comarca, e Francisco Serra, oficial do Registro –, quando se receberam em matrimônio Resquim Alves Ferraz e Leonídia Xavier de Toledo, que passou a chamar-se Leonídia Toledo Ferraz. Ele, viúvo, natural do Estado de Mato Grosso (é como está, sem referência a Ponta Porã...), com 25 anos de idade (iria fazer 26, não sei a data exata de seu nascimento, possivelmente até junho...), criador, residente em Nioaque, filho de Augusto Nunes Ferraz e Vergínia Alves Ferraz (em solteira, Vergínia Alves da Cunha), ambos do Estado de Mato Grosso, e residentes em Nioaque, e ela natural desse Estado, com 16 anos de idade, filha de Theodoro Francisco de Toledo e Alexandrina Xavier de Toledo.

Estas informações não eram do conhecimento do meu primo Rui Alves de Lima, de Nioaque, pois as obtive apenas na tarde daquela quinta-feira 5 de dezembro, no cartório de Aquidauana, ainda refletindo sobre alguns detalhes dos registros de Nioaque: afinal, se Resquim era viúvo e registrara os filhos citando Leonídia como esposa, pois transferia aos descendentes o sobrenome da mulher, Toledo, por que o 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque não possuía o registro desse segundo casamento? Bingo! É que meu avô Resquim casou a segunda vez em Aquidauana, na casa dos pais de minha avó, conforme os registros que obtive e fotografei e citei acima.

No 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque consta que Resquim se casou pela primeira vez em 23 de junho de 1916, então com 23 anos, com Valentina de Lemes Furtado, de 15 anos. Ela faleceu, não há registro da data, “talvez no parto”, sugere primo Rui. E não teriam tido filhos.

Primo Rui me contou que nasceu em 1931, portanto, 10 anos antes que meu pai. Filho de Maria Alves de Lima, irmã de Resquim Alves Ferraz, sempre morou em Nioaque, mas, devido ao trabalho, ia com frequência a Aquidauana, sede da antiga Comarca, oportunidade em que reencontrava os primos e ficava sabendo as novidades. No cartório, também, chegavam novidades, eis que um ou outro, por este ou aquele motivo, acaba entrando em contato por necessitar da cópia original do registro de nascimento. Não deve ter sido o que sucedeu com meu pai, que, em vez de buscar o registro oficial – no qual, com certeza, acabaria se encontrando com Ulmindo, acabou realizando um novo registro, não sei ainda onde, passando a ser chamado Ormínio. Isto porque acredito que Ormindo, registrado no Ministério da Guerra, tenha sido fruto de eventual erro de digitação. Ou o contrário...

O diligente primo Rui confessou que também se interessa pelos antepassados e que realizou levantamento desde 1916 de todas as certidões em nome de Resquim. Encontrou a do primeiro casamento e o registro dos filhos, já adotando o sobrenome da segunda esposa em todos os descendentes. Este é um fato curioso, pois minha mãe Maria Cecília Arruda Ferraz teima em dizer que a primeira filha registrada do casal, denominada Catulina, ou simplesmente Catu, seria filha do primeiro casamento...

Bem, vamos ao que está registrado...

Os filhos de Resquim e Leonídia foram registrados de uma vez em 29 de junho de 1931, “nos termos do artigo 2º nº 11 do Decreto do Governo Provisório, relativo à obrigatoriedade do registro de nascimento no território nacional”. Até aquele momento, havia 8 filhos, todos nascidos em Nioaque, na Fazenda Triunfo. Não é possível confiar que o dia e o horário são verdadeiros, depois de passados tantos anos de cada nascimento. Mas é o que está registrado!

A primeira, Catulina de Toledo Ferraz, em 15 de julho de 1920, às 8 horas da noite – que minha mãe diz ser do primeiro casamento...

Ulmindo de Toledo Ferraz, em 11 de novembro de 1921, às 2 horas da madrugada. Faleceu em Santos em 16 de janeiro de 1984. Deixou dois filhos, um deles, eu!

Astúrio de Toledo Ferraz, em 25 de agosto de 1923, às 7 horas da noite.

Antonio de Toledo Ferraz, em 13 de junho de 1925, às 8 horas da manhã. Faleceu em Aquidauana, em 2008. Deixou um casal de filhos.

Adelina de Toledo Ferraz, em 25 de junho de 1927, às 8 horas da manhã.

Albano de Toledo Ferraz, em 26 de setembro de 1928, às 9 horas da manhã. Faleceu no Rio de Janeiro, não se sabe a data, sem filhos.

Acássio de Toledo Ferraz, em 29 de setembro de 1929. Falecido em Aquidauana em acidente ferroviário, não se sabe a data. Deixou filhou.

Néris de Toledo Ferraz, o Alemão, o mais novo nascido em Nioaque, em 26 de maio de 1931, às 2 horas da tarde. Faleceu em Aquidauana, em 25 de junho de 1987.

“Creio que hoje todos são falecidos”, diz primo Rui. Deve estar certo, embora apenas a certidão de nascimento de Néris possua essa anotação.

Embora primo Rui não demonstrasse saber da morte de Galdino – que teria sido o caçula!, conforme registro em Aquidauana e já citado acima -, ele recorda que Resquim havia enterrado outros 4 filhos, vítimas de varíola: “Enterrou dois, quando voltou de uma viagem, tinha mais dois mortos”. Se bem que na certidão de óbito de Galdino conste como causa mortis disenteria bacilar – toxicose.

Rui diz que o convívio com os primos foi mais em Aquidauana. “Nós estudávamos juntos. Jogávamos futebol. Eu ia na casa do tio Resquim, tomava banho no rio, na prainha que tinha na chácara. Primo Albano afundava e atravessava o rio num mergulho, que tinha uns 100 metros de largura. Seu pai nadava bem. Afinal, se criou na beira do rio”.

Resquim teria tido sete irmãos: Gastão, o mais velho, Maria Alves Ferraz, outro Gastão Alves Ferraz, Brasilina Alves Ferraz, Rômulo Alves Ferraz, Nércia Alves Ferraz, Narcisa Alves Ferraz...

Ao lembrar dos tios, Rui fala de sua família: “Papai Fabriciano Teixeira de Lima teve 10 filhos. Seu casamento foi em 1913, aqui em Nioaque. Ele veio do Rio Grande do Sul, casou com Maria Alves Ferraz, irmã de Resquim. Eu vou fazer 60 anos de casado (em abril próximo), com Diva, filha única. Ela é meu favo de mel. Seu pai conheceu meu sogro, que foi juiz de Direito em Aquidauana, Corumbá, Cuiabá, e morreu como desembargador. Hoje sou pai de 9 filhos, 20 netos e 12 bisnetos. Sempre fazemos festas, me sinto orgulhoso, fraternalmente, com a união da minha família”.

Ao saber da morte de meu pai, vítima de enfarto fulminante, comentou: “Que morte boa, quero morrer assim. Sou espírita, estou preparado para morrer. O que tinha para fazer já fiz”.

Peço para que me conte o que se lembra sobre meu pai. E ele dispara:

“O Gringo quando era solteiro não saia de minha casa. Eu tinha um irmão, Maurício, que era de 6 de novembro, e o Gringo de 11 de novembro. Gringo era cabo do Exército. O primo Maurício era civil. A vida naquela época, quem mantinha os filhos eram os pais. Seu pai estava servindo, tinha o soldo, mas os demais filhos, quem mantinha era o Resquim, fazendeiro. Precisava de dinheiro, pedia para papai”.

Fala de minha avó: “Sua avó Leonídia não era índia, era morena clara, mas de origem negra, com cabelo liso, tinha cruza de bugre. Toledo é de origem paraguaia. Já tio Resquim era branco”.

E volta ao primo:

“Gringo era dançarino na última. *nheiro. Juntava com Maurício, meu irmão mais velho, morenão, era muita afinidade. Os dois eram do mesmo signo de escorpião, que é beberrão. Pinga, conhaque, kinado, é um vinho muito gostoso. Tinha um kinado rabo de galo, pinga com kinado, bebida muito boa. Em 39, antes da guerra, já eram unidos. E depois da guerra continuaram unidos”.

Continua: “Gringo serviu exército em Aquidauana. Ele já era militar em 44, quando foi para a Guerra. Ele estava há 3, 4 anos como militar. Fez curso, passou a cabo. Ele foi para a guerra como cabo. Junto com ele foi para a Guerra o marido da Catulina (Bandinelli), foi um primo meu, foi um tio da minha senhora, o Waldemar Serpa, de Nioaque, e o Urbano Serpa. Uns 3 ou 4 nioaquenses estavam juntos. O último deles morreu no ano passado, muito meu amigo, morava em Jardim, tinha fazenda no município, Oswaldo de Carvalho. Interessante que não tem um irmão para contar a história. Convivi com o Gringo até 47, 48, quando casou-se em Aquidauana, com a filha do sr. Antonio, a irmã do Elias.”

Lembra da minha mãe, Maria Cecília Arruda Ferraz: “Ela estudou comigo. A família do Professor Carneiro era muito católica, o seu avô era impecável na missa. Cabelo penteado de lado. Me dava demais com seu avô e também com o seu tio Elias. Lembro do irmão caçula, Luis, que está em Cuiabá. Lembro de todos eles...”

Primo Rui me convidou para almoçar em sua casa. Mas havia tanto a fazer em Aquidauana que agradeci e fui embora. Voltarei. Já em Aquidauana, após o almoço, passei mais uma vez na casa da tia Nena, viúva do tio Heládio, e como não a encontrei fui na casa vizinha, do seu irmão Pereira, com quem deixei um exemplar do livro “Missão dos Professores”. Depois fui ao cemitério, com a pretensão de seguir as indicações da prima Deise, que havia me passado na noite anterior. Encontrei não só os túmulos de meus avós maternos como também do tio Heládio. Depois fui até a rua Cecília Maria de Arruda, que presta homenagem a minha avó. De lá, fui ao Cartório do 2º Ofício de Aquidauana, onde acessei os registros da morte do meu tio Galdino, conforme detalhei no início, e dos avós paternos:

Resquim Alves Ferraz faleceu em 24 de março de 1962, vítima de carcinoma intestinal, com 78 anos, casado, filho de Augusto Nunes Ferraz e Dona Vergínia Alves da Cunha (deveria ser Vergínia Alves Ferraz, nome de casada). Quem informou foi o filho Antonio Toledo Ferraz. O documento diz que deixou viúva Leonide (grafia incorreta) de Toledo Ferraz e 8 filhos e que deixou bens a inventariar.

Leonídia Toledo Ferraz faleceu em 4 de julho de 1973, às 4 horas, em A.A.A. Hospitalar, em Aquidauana, vítima de hemorragia cerebral devido a hipertensão, com 70 anos, viúva, filha de Theodoro Francisco Toledo e de Alexandrina Xavier Toledo, deixando 7 filhos maiores (de 1962 a 1973 faleceu Acássio, em acidente ferroviário), sem deixar bens a inventariar. Foi declarante Celso Balbuena Rojas. Segundo me informa Jaci Ferreira da Silva, uma amiga da família, de Aquidauana, Celso trabalhava na Funasa, antiga Sucan, e faleceu há cerca de cinco anos, em Dourados.

Tenho que voltar a Mato Grosso do Sul. Minhas raízes passam por lá...


Pereira, irmão da tia Nena: deixei com ele o exemplar do livro de meu avô, “Missão dos Professores”


Rua Cecília Maria de Arruda: homenagem a minha avó


Túmulo do tio Heládio


Túmulo dos meus avós: lá descansam também os tios José e David


Certidão de obtido do meu avô Resquim


Certidão de obtido de minha avó Leonídia



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h05
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