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PEDRAS DO CAMINHO

O melhor legado do Professor Carneiro - Parte I

Tio Elias de Arruda, ex-prefeito de Miranda por dois mandatos: simplicidade e inteligência, heranças do pai, Professor Antonio Carneiro de Arruda...

Embora tenha escolhido Aquidauana para servir de base durante minha viagem, em dezembro de 2013, a Mato Grosso do Sul – por tudo que a cidade representa e está registrado no post anterior... – portanto, leia-o antes, por favor –, poucos parentes residem hoje no município, como minha tia Nena, esposa do finado tio Heládio de Arruda, e os filhos Elsa e Ivan (“Papai” mora em Campo Grande), e minha prima Deise de Arruda, filha do falecido tio David de Arruda, que possui duas filhas, uma das quais, Karla, reside em Catanduva. Fiquei sabendo que meu primo Robson, um dos três filhos do primeiro casamento do finado tio Adonias de Arruda moraria lá. Não o encontrei. Me desculpem outros Arrudas, diretos e indiretos, que possivelmente ainda permanecem em Aquidauana. Realmente, não tive tempo de procurá-los, para conhecê-los ou reencontrá-los. Aliás, nem mesmo os citados tive o prazer de rever! Tia Nena, por exemplo, havia viajado e Elsa não estava em casa nas tentativas que fiz para visitá-la... Quem encontrei mais de uma vez foi a prima Deise. Tive o prazer de jantar com ela na segunda noite em Aquidauana, saboreando uma deliciosa moqueca de bonito, oportunidade em que lhe presenteie com exemplar do livro “Missão dos Professores, Poemas do Professor Antonio Carneiro de Arruda” – a razão de minha viagem!

Procuro me pautar pela cronologia para relatar que cheguei a Aquidauana no início da noite de 3 de dezembro, terça-feira, em meio a um calor de 40 graus – que me perseguiria nos dias seguintes. Tão logo me acertei no hotel, fui caminhar pelas ruas da cidade, passei pela casa da tia Nena, quando fiquei sabendo de sua viagem; e, seguindo minhas lembranças, fui em direção a antiga casa de meu avô, no Bairro Alto, onde a família viveu durante muitos anos. Fiquei algum tempo parado naquela esquina, da Antonio João e Getúlio Vargas..., depois tentei localizar a casa da prima Deise, sem sucesso, e decidi voltar para o hotel. Quando passava em frente à casa de tia Nena encontrei com o primo Ivan, filho de criação dos tios Eládio e Nena, com quem sempre cultivei amizade cordial, especialmente por não ter constrangimento em contar sua versão de fatos familiares.

Embora o tenha reconhecido de pronto, Ivan demorou um pouco para saber de quem se tratava e demonstrar sincera saudade de nossos memoráveis encontros. Ao agradecer o convite para que ficasse em seu apartamento, alegando já estar hospedado, contei o propósito de minha viagem, o livro do estimado avô Carneiro, e pedi que me contasse passagens com ele. Saquei o gravador e ouvi, interrompendo aqui e ali, para conduzir relatos nos quais nos emocionamos...

Recordou história que o tio Eládio contou a ele sobre o pai, sobre o episódio de que, jovem, teria caminhado cerca de 500 quilômetros, de Surubim, em Pernambuco, a Juazeiro do Norte, Estado do Ceará, uma peregrinação de 14 dias na ida e 11 dias na volta. E, perguntado sobre a diferença de três dias na caminhada, respondeu que na volta, naturalmente, já conhecia o caminho... Nosso avô foi lá para reverenciar Padre Cícero, porque sofria de um sangramento no nariz e queria sarar. Voltou sarado. “E vingou muito tempo aqui nessa terra”, completou Ivan.

Disse que sempre considerou nosso avô um grande camarada e que, pelo que sempre ouviu falar, aprendeu a ler e escrever sem ninguém ensinar: “É um dom”. Lembrou ainda de cenas que talvez tenha presenciado: “Ele montava numa mula e ficava lá, rezando e falando. Foi uma pessoa abençoada por Deus. Ele está num lugar muito bom”.

Sobre os últimos anos de vida do Professor Carneiro, Ivan detalhou que no dia a dia ele não comia carne: “O feijão tinha que ser moído, batido no liquidificador, pois gostava do caldo”. De sua morte, acrescentou: “Um dia (meu pai estava vivo), o encontrei na porta da casa, e o Antonio Carneiro Lourenço de Arruda (sim, Ivan garante que o nome dele inclui Lourenço, o que também conta minha mãe Maria Cecília, mas não encontrei qualquer documento que grafe dessa forma...) já tinha ido a óbito. Ele morreu sentado, numa cadeira dessas de fio. Meu pai tava chorando e disse: meu pai morreu. A emoção foi minha também. Sabe como funciona, perder uma pessoa que ama, você perdeu tudo na terra. Meu pai falou assim: agora, só você. Seu amor sempre foi forte para mim...”

Ao falar do avô e do pai, meu tio Heládio de Arruda, Ivan lembrou das filhas: “Amo minhas filhas, são duas princesas. Mais tarde, quando envelhecer, vão cuidar de mim”.

O encontro com Ivan marcou meu primeiro dia em Aquidauana.

Nos despedimos e combinamos nos encontrar nos próximos dias – o que não viria a acontecer. No dia seguinte, meu plano era viajar de ônibus a Miranda, distante cerca de 75 quilômetros de Aquidauana, onde reside meu tio Elias de Arruda...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h30
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PEDRAS DO CAMINHO

O melhor legado do Professor Carneiro - Parte II

Tio Elias de Arruda: vida simples, ao lado de pessoas simples e cães amigos

Foi bastante movimentado meu segundo dia no Mato Grosso do Sul. Aproveitando que o ônibus que me levaria a Miranda sairia da rodoviária às 9h35, acordei um pouco mais cedo e aproveitei para caminhar um pouco pelas ruas do centro de Aquidauana.

Perto do hotel, como uma grande coincidência, localizei a Biblioteca Pública Municipal Francisco Alves Correa. No ato me veio a ideia de doar um exemplar do livro “Missão dos Professores, Poemas do Professor Antonio Carneiro de Arruda”. Afinal, era o melhor lugar disponibilizar ao povo de Aquidauana os conhecimentos do meu avô. Entrei e me apresentei à bibliotecária Ana Maria Cipro, que agradeceu a doação e determinou a inclusão do livro no acervo local. Naquele momento considerei a troca justa: afinal, devido a pequena tiragem do livro, algum familiar deixaria de receber seu exemplar, enquanto a população de Aquidauana teria acesso garantido à obra!

Em Miranda foi fácil achar a casa de meu tio Elias de Arruda, conforme o endereço fornecido por sua filha, minha prima Nádia. Ele não estava e fui recepcionado por Luci, sua companheira desde que se separou de tia Rute. Não demorou muito para chegar, andando com vagar, ainda se adaptando à prótese colocada no quadril.

O encontrei... sim, o encontrei, pois não foi um reencontro, já que não me lembrava de tê-lo conhecido pessoalmente. Já havia ouvido falar muito dele, afinal, liderança política matogrossense, havia sido prefeito de Miranda, e sempre era lembrado em assuntos de família. Mas, estava impressionado, pois havia se passado mais de 57 anos até conhecê-lo! Um atraso que, embora impossível, pretendia começar a resgatar desde já.

Contei o que me trazia a Mato Grosso do Sul – o livro de seu pai –, e pedi para que contasse um pouco do que se lembrava sobre a saga da família desde janeiro de 1939, quando chegou a Aquidauana. Ele sintetizou: “Essa viagem do Nordeste até aqui foi uma viagem atribulada. Andar com criança pequena, sete, oito, depois nasceu mais gente aqui... Para chegar a Iputinga, no Recife, viemos de Surubim em pau-de-arara. Depois de passar pela migração, vacinar todo mundo, embarcamos num vapor para o porto de Santos. Em seguida, a viagem de trem até Aquidauana...”. Me revelou que um dia retornou a Surubim, para rever a casa onde nasceu, citando a rua Prefeito Padre de Lima, no Centro.

E foram tantas histórias, lembranças, saudades, reconhecimento do grande legado do pai, as lições de honestidade, simplicidade... Li trechos do livro do Professor Carneiro e, entre muitas conversas, como cidadão que acompanha o noticiário regional e nacional, não poderia deixar de manifestar opiniões sobre política e as conversas com o povo de Miranda, na rua. “Quando alguém me pergunta se quero voltar a ser prefeito, digo assim, abertamente: só tem vaga para ladrão”, afirma, indagando: “Como vamos viver num país onde o Chefe dá o mau exemplo?”.

Com orgulho, complementa: “Conheço todo mundo em Miranda e quando saio na rua, um fala, lá vai o prefeito honesto. Mas tem outro, que diz, lá vai o trouxa, que não soube roubar. Não roubei porque tinha minha consciência e usei para deixar para os meus filhos. Um é médico (Elton) e a mais nova é advogada (Nádia). Este é o prazer que tenho”.

Sobre o legado da simplicidade do pai, tio Elias declara: “Ele sempre repetia aquela famosa frase de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

E enfatiza: “Nós vivemos numa época onde primava o direito, a honestidade. Era um prazer ver o dr. Carneiro falar, ele era um tribuno, também. Eu também fui. Aqui em Miranda fui prefeito por 10 anos e arrastava multidões. Tinha prazer de falar. Fazia o povo rir e fazia o povo chorar. Hoje não tenho atuação...”.

Tio Elias foi prefeito de 1967 a 1970, e 1976 a 1982: “Fiz o diabo por esse povo. Vamos almoçar”.

Após o farto almoço, preparado por Luci, a dedicada companheira de meu tio, anunciei a necessidade de partir, devido ao horário do ônibus de volta, e outros compromissos em Aquidauana. De pronto, ganhei carona na moto de Kenio, o filho de Luci. Despedidas, promessas de breve reencontro. Ao sentar na garupa, pedi a Kenio para, antes, me levar até ao Centro Referencial da Cultura Terena, na entrada da cidade, um espaço que divulga a etnia Terena e comercializa artesanato autêntico; e carece de mais incentivo pelo Poder Público...

No caminho de volta, prevendo chegar por volta das 15 horas a Aquidauana, contabilizava o conhecimento adquirido e ia programando as atividades seguintes...

Da rodoviária segui para o cemitério, com a pretensão de encontrar o túmulo de meus avós e tios. Achei que seria fácil, mas a rápida conversa com o casal de coveiros me deu a certeza de que a missão era quase impossível. Afinal, conforme me revelaram, não há registro dos sepultamentos, que acontecem de forma aleatória aqui e ali, sem qualquer critério. Ou a família guarda a localização ou nunca mais saberá onde seu ente querido foi sepultado! Ou seja, alguém da família teria que me informar.

Entre as opções de familiares na cidade, considerando que tia Nena viajara, só me restava a Deise. Se na noite anterior não havia localizado sua casa, quem sabe agora, de dia, não seria mais fácil. Pesando assim, ao sair do cemitério, passei mais uma vez pela casa onde viveu meu avô e família a maior parte de sua existência e, em vez de voltar para o Centro, decidi caminhar em direção ao quartel do 9º Batalhão de Engenharia de Combate “Carlos Camisão” (BE Cmb). Perguntei a pessoas que andavam pela rua e olhei casa por casa, até que identifiquei numa garagem o “fusca” que poderia ser de minha prima. E era. Entrei no terreno, em cuja entrada havia obras, e para uma jovem, que logo identifiquei ser a filha mais nova de Deise, ou minha prima de segundo grau, perguntou por minha prima. Tive a confirmação de que estaria em Campo Grande – como aliás já havia me informado, na noite anterior, minha prima Nádia, filha do tio Elias, que mora em Campo Grande... Deixei meu telefone e pedi que, aparecendo, entrasse em contato – o que realmente aconteceria horas depois.

Continuei caminhando em direção ao quartel, pois havia sido informado que abrigava um pequeno museu dedicado à gloriosa Força Expedicionária Brasileira (FEB) e, quem sabe, poderia ter alguma referência sobre meu pai, cabo Ormínio Toledo Ferraz (cujo nome de registro é Ulmindo...), ex-combatente da 2ª Guerra Mundial. Me identifiquei, solicitei uma visita guiada ao Museu Marechal José Machado Lopes e, ao conferir todos os nomes no memorial existente no pátio, constatei que não havia referência ao meu pai.

A surpresa não foi tão grande, pois sempre soube que meu herói, identificado no meio militar com o registro 9G-33.029, serviu no Teatro de Operações da Itália no período de 5 de outubro de 1944 a 4 de setembro de 1945, incorporado ao 11º Regimento de Infantaria, de São João Del Rey, em Minas Gerais – apesar de que (e isso só viria a saber no dia seguinte, ao falar com o primo Rui Alves, em Nioaque...) meu pai, antes da guerra, já seguia a carreira militar e havia sido promovido a cabo no 9º BE Cmb!

Até hoje não consegui ter a certeza sobre as informações do primo Rui, sabendo apenas, por meio de pesquisas em documentos oficiais, que atuando na Companhia de Obuses do 11º RI, sob o comando do Coronel Delmiro Pereira de Andrade (que alcançou o posto de General do Exército Brasileiro), Cabo Ferraz participou da conquista de Montese, na campanha da Itália. Entre as homenagens militares, recebeu “Diploma da Medalha de Campanha”, criada pelo Decreto-Lei nº 6.795, de 17 de agosto de 1944.

O museu dedicado à FEB em Aquidauana destaca em seu acervo uma bandeira nazista, “troféu” capturado em 1942 pelos heróis do 9º BE Cmb.

Ainda era meio da tarde e segui para o cartório de registro civil. Lá, contando com a paciência de diligentes funcionárias, tive acesso a diversos documentos, que fotografei e, em alguns casos, requeri cópia. Caso, por exemplo, do registro de nascimento de minha mãe Maria Cecília. Ainda na esperança de um dia obter o primeiro registro..., conto hoje com o declarado por ela própria, em 19 de setembro de 1945, de que teria nascido em 25 de abril de 1927, às 16 horas, em Surubim, no Estado de Pernambuco – uma data que não estaria correta, pois, diz ela, seria dois anos mais nova, ou seja, teria nascido em 1929...

Um erro desse registro, com base nas informações da declarante, está na citação dos avós. Com relação aos paternos, tudo certo: José Barbosa de Arruda e Paulina Carneiro de Moura, falecidos – são os mesmo citados no atestado de óbito de meu avô. Agora, com relação aos maternos, Luiz Gonçalves da Costa e Francisca Maria Arruda, falecidos, o atestado de óbito de minha avó Cecília Maria informa que teriam sido Luiz Gonçalo da Costa e Francisca Maria da Conceição.

Depois do cartório fui até a praça onde está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, admitindo os prédios históricos do entorno, um dos quais serviu de sede aos Missionários da Congressão Redentorista, que atua em Aquidauana desde janeiro de 1930, e outro, que foi a escola onde minha mãe e irmãs estudaram, e que hoje abriga o Centro Pastotal Santo Afonso, dos Missionários Redentoristas.

Desta vez não entraria na catedral, que estava fechada.

Continuei caminhando e cheguei às barrancas do Rio Aquidauana. Desci junto ao leito do rio... Depois passei pela ponte Roldão de Oliveira, conhecida como Ponte Velha, ou Ponte da Amizade, ainda em uso, que liga o município a Anastácio.

À noite, encontrei-me com minha querida prima Deise, para presenteá-la com exemplar do livro “Missão dos Professores”, saborear uma apetitosa moqueca de bonito e, entre tantas saudades, revelações e confissões, saber a localização no cemitério do túmulo dos meus queridos avós...


Luci, a companheira do Tio Elias, com a nora, que acabara de ter bebê, e os dois filhos: pequenos terenas


Recepção calorosa de um dos cães de Tio Elias. Um deles, pois o outro...


Hoje, a antiga escola do Professor Carneiro, ao lado da casa onde viveu a maior parte de sua vida em Aquidauana

Bibliotecária Ana Maria Cipro, diretora da Biblioteca Pública Municipal Francisco Alves Correa, em Aquidauana, e Lillson Souza, chefe do setor Biblioteca Virtual, receberam em doação o livro “Missão dos Professores, Poemas do Professor Antonio Carneiro de Arruda”.


Bandeira nazista: “troféu” capturado em 1942 pelos heróis do 9º BE Cmb.


Registro de nascimento de minha mãe Maria Cecília, feito pela própria...


 

Prima Deise, filha do finado tio David: boas recordações do avô e mestre, Professor Carneiro, temperadas com deliciosa moqueca de pintado.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h25
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