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PEDRAS DO CAMINHO

A casa que respira “Os Cem”...

 

Soto: memória da ultramaratona tem espaço privilegiado em sua casa

 

Soto e a esposa Luz Mary: no Farol de Santander

 

Soto Conde e a namorada Maria Angeles: campeão, como o pai

 

Leo: o gato de estimação da família

 

José Manuel Abascal, bronze nos 1.500, Olimpíadas 1984, e Soto

 

Cidade agitada em dia de competição de vela

 

Balneário La Magdalena: areia limpa e água gelada

 

Sede do Banco Santander

 

Farol: o ponto mais alto da Cidade

 

Monumento aos "Caídos": opositores a Franco jogados nas pedras

 

José Antonio Soto Rojas é um mito do esporte em seu país. Corredor desde os 14 anos, apaixonado pelas provas de fundo, em 1975 disputou a Maratona Internacional de Boston, nos Estados Unidos, e iniciou um proveitoso intercâmbio com dirigentes e praticantes de ultramaratona – toda prova acima dos 42.195 metros da maratona tradicional.

Quatro anos depois, em 1979, inaugurou a modalidade na Espanha, com a primeira edição da I Prova Pedestre Internacional 100 Km de Cantrábia... Soto conseguiu a proeza em Santander, capital da comunidade autônoma da Cantábria, cidade com forte tradição em esportes... náuticos.

A evolução da modalidade ele mostra em números: enquanto em 1978 apenas três atletas figuravam no ranking espanhol de ultramaratona – além dele, Toro e Sodupe –, atualmente, mais de mil estão no ranking do país e cerca de 120 no da Contábria...

Atleta regular, Soto participou de mais de 700 provas, em pista e rua, e colecionou títulos, entre os quais o de campeão dos 100 quilômetros de Nova York, em 1985. E organizou outras tantas, inclusive em Santos, numa parceria com o Grupo Altstut.

Os últimos meses tem sido de muito trabalho para Soto. É que em 26 de setembro ele realizará em Santa Cruz de Bezana, ao lado de Santander, a edição número 30 dos 100 km de Cantábria – uma prova que é referência na Europa e coroa a dedicação de toda uma vida ao esporte...

Foi na casa de Soto que descansei por alguns dias, após peregrinar o Caminho de Santiago de Compostela, compartilhando sua família, que respira “Os Cem”: a esposa Luz Mary agiliza a comunicação com dirigentes e atletas; o filho Soto Conde segue o caminho do pai e, da mesma forma, coleciona títulos em ultramaratona; e o gato Leo... bem, o gato Leo observa tudo...

Depois de 29 dias no Camino era tudo o que eu precisava para equilibrar meu estado emocional, rir muito, descontrair... Muchas gracias!

Neste esforço de incentivar o esporte, recepcionar estrangeiros de todo mundo, especialmente do Brasil, é rotina na família de Soto. O pioneiro sempre abrigou, por exemplo, o santista Valmir Nunes, bi-campeão mundial dos 100 quilômetros e detentor da terceira marca mundial da modalidade, com o espetacular tempo de 6 horas, 18 minutos e 9 segundos...

Além do ambiente familiar que desfrutei, o descanso na casa de Soto facilitou a consulta que fiz num hospital local. Falar com uma médica serviu para me tranquilizar, eis que o desconforto e o inchaço nas pernas seriam consequencia normal do esforço feito no Caminho, e a dor no joelho direito (nada constatado na radiografia...), seria decorrência de uma pisada errada... nas pedras do Caminho... o que deverá melhorar com alguns dias de antiinflamatórios.

Nas ruas de Santander o movimento é intenso nas férias do primeiro Verão da crise. Trata-se de um dos balneários preferidos de espanhóis e vizinhos da Europa e a programação inclui competição de vela, exposições, restaurantes e... claro, escândalos políticos. Num deles, o presidente de Cantábria, Miguel Ángel Revilla, se contorce para explicar, em cadeia nacional, que seriam “institucionais” os “regalos” dados a autoridades governamentais (como o primeiro-ministro José Luís Rodriguez Zapatero...), uma prática proibida pelo artigo 426 do Código Penal. O tipo penal é o “cohecho”, ou suborno a funcionário público...

Que tipo de presente? Latas de enchovas, uma iguaria que é marca da gastronomia de Santander... Alardear as enchovas, aliás, foi a reposta do presidente de Valência, Francisco Camps, do Partido Popular, que além de também sempre receber as anchovas institucionais de Revilla, foi flagrado recebendo outros regalos de empresários, como ternos de grife...

Aproveitando um pouco essas férias espanholas, me preparo para retornar a Santos...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 18h44
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PEDRAS DO CAMINHO

Meus caros peregrinos...

 

Hoover, Jutta e Stephan: cordialidade alemã

 

Amigos espanhóis: Pedro e o sobrinho Juan José, ou Juanjo

 

Da Coréia do Sul, Kim e esposa

 

Os italianos Andréa e Roger: na bagagem, um violão

 

Do Japão, sofreu muito com dores nos pés... falei sobre ele...

 

Duas francesas: ? e Jackeline, desde Le Puy

 

Espanhol, boas informações históricas sobre o Caminho

 

Mais espanholas: por etapas, um delas é a Pilar...

 

Casal espanhol: nos encontramos em várias etapas

 

Sempre disse que o melhor do Caminho são os peregrinos. Digo e repito. O melhor e o... pior. Sim, porque muito do que acontece de ruim, de difícil, de atrapalhado, de errado no Caminho, se deve a um determinado tipo de peregrino.

Um tipo que, ao contrário de impor uma força positiva, que pode ser ou não a maioria, personifica o mal, o demônio, aquilo que admiti ser um dos focos de enfrentamento durante a peregrinação...

Esse peregrino nocivo – ao inverso do outro – é sua sombra, a outra face da mesma moeda. Ele aparece em todos os momentos e lugares e, caso você não tenha uma artimanha para derrotá-lo, poderá ser vencido por algum tipo de vicio propagado por ele e ser levado a erro, atrasar, perder o rumo, a vaga no albergue, a hora da comida, o ingresso no museu... ou até, quem sabe, sofrer dor... seja ela física, mental, ou mesmo espiritual...

Eis que portar-se como um guerreiro é fundamental para vencer esse tipo de peregrino... A espada, no caso, poderá ser substituída pelo cajado...

Em relação ao bom peregrino, que abunda no Caminho, você tem apenas que estar vigilante, para agradecer e celebrar quando surge, pois com ele vem a alegria, a paz, o ânimo, a amizade, todas as virtudes, enfim.

É para esse peregrino, que nem sempre recordo o nome, que presto uma singela homenagem com as fotos que acompanham esse texto – além de outros, cujas fotos já foram publicadas em textos anteriores e que não vejo necessidade de repetir...

Os que eu lembrar, porque anotei, porque tenho e-mail, porque considero meus amigos do Caminho, serão citados nominalmente. Os que estiverem sem nome, me desculpem a falha, mas da mesma forma guardo por vocês gratidão pelo fato de, em algum momento do Caminho, ter me proporcionado conforto, facilidade, me dirigido o olhar ou uma palavra, e ter me dado a confiança de que o bem sempre prevalecerá...

Naturalmente, fazem jus à homenagem inúmeras pessoas e animais que encontrei no Caminho, especialmente os cachorros, os muitos cachorros, que em vez de ter medo se aproximaram de mim, para me dar ou receber um carinho, com uma sensibilidade absurdamente inexplicável!

 

Micael: brasileiro gaúcho, hospitaleiro em Hospital de Órbigos

 

Ceia conjunta em albergue de Agés

 

Senhora espanhola me presenteou com fruta...

 

Encontrei este indiano em várias etapas...

 

Me coça que eu gosto...

 

Apesar do tamanho, uma tranquilidade...

 

Monge Agostin: de León, política não!

 

Casal brasileiro: ? e Graciliano...

 

Vários encontros: tocador de flauta em Santiago

 

Cegonhas...

 

Atendimento gentil da espanhola: na parede o blogcomcebola...

 

Casal japonês muito animado...

 

Espanhol: informações preciosas facilitaram a caminhada

 

Espanhol Germán Ayuso: não vi no final em Santiago?!? (*)

(*) Fez o trecho Saint Jean até Burgos. Em 2008 havia feito de

Burgos até Santiago... me contou depois, por e-mail...

 

Peregrinação em etapas e com apoio: Caminho suave...

 

Sem medo do peregrino... 

 

Elas balem... mas é manha: será?

 

Carlos: monitor de estudantes de Madrid

 

Num pueblo, a jovem com um filhote de perro...

 

Pombos... muitos pombos... 

 

Este cãe me seguiu por um trecho do Caminho...

 

Pasto calmo das ovelhas...

 

Não lembro os nomes: mas que espanhol gentil!

 

Três fox paulistinhas: saudades da minha Lady...

 

Descanso dos gatos...

 

Lesma estranha: será que esta também se come

 

Êta saúde...

 

Na Cruz de Ferro conheci outro ciclista Pedro, espanhol...

 

Levando as ovelhas para passear...

 

Cão na hora da sesta: espanhol, naturalmente



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h38
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PEDRAS DO CAMINHO

Apenas... mais um em mim

 

Nas pedras, roupas queimadas: não as minhas...

 

Farol de Finisterre: alerta aos navegantes

 

Caminho ao farol: peregrino vai a pé

 

Cruzeiro para orações e... pedras do Caminho

 

 Cidade do fim do mundo quer ser o marco zero do Caminho

 

 

Som das gaivotas dão o ritmo ao pueblo litorâneo

 

Turismo aposta na Costa da Morte

 

– Você voltará outro!

Nunca compartilhei a ideia de que a peregrinação a Santiago de Compostela seja capaz de me mudar. Quem me conhece a mais tempo pode até achar essa necessidade. Eu não. Estou bem. Tenho ao meu lado pessoas que me amam do jeito que sou, inclusive uma cadela que me obedece e abana o toco de seu rabo quando me vê... exerço atividades profissionais proativas que, além de me manter e a minha família, me dão a oportunidade de ajudar inúmeras pessoas (e se não ajudo tanto quanto gostaria, pelo menos não prejudico...).

Por isso, pelo menos da minha parte, selo o compromisso de que não vou, ou pelo menos não quero e não pretendo mudar. Vou continuar o mesmo, com todas as qualidades e defeitos... apenas, é claro, enriquecido com a experiência de ter feito uma caminhada – que muitos julgam maluca (“gastando sola”, resumiu o Macarrão no blog do Jornal da Orla) – de 800 quilômetros sobre solo europeu, a maior parte na Espanha. Um país que passei a compreender melhor e amar seu povo, tanto quanto muitos dos espanhóis que conheci amam o povo brasileiro.

Portanto, sem essa de mudar, mas de agregar, somar: a partir de agora sou apenas... mais um em mim!

Afinal, escrita em latim e assinada por Jenaro Fabrício F., Canonicus Deputatus pro Peregrinis, a Compostelana que recebi num anexo da Catedral de Santiago de Compostela me assegura outra identidade. Agora, além de Cebola, Cê, Luiz Carlos Ferraz, Lú, Neguinho, entre outras variações, sou o Dnum. Aloisium Carolum Ferraz.

Aloisium, tudo bem. Mas, para quem nunca teve vocação para ser coroinha, ainda não me acostumei com esse tal de Carolum no meio do nome, do qual Carlos teria derivado. O Ferraz se manteve. O Dnum... equivale a senhor...

Depois de um dia emocionante em Santiago de Compostela, a cidade repleta de peregrinos e turistas, a grande Feira Medieval ocupando as ruas do Centro Histórico, domingo 5 logo cedo peguei o ônibus que me levou a Finisterre, na Costa da Morte...

Não é a primeira vez que chego ao fim do mundo. A primeira foi no início dos anos 90, quando conheci Ushuaia, na Terra do Fogo, Patagônia Argentina, que também se intitula a cidade do fim do mundo – por ser a mais austral, a mais perto da Antártida.

Na ocasião estava com o colega Lauro, do jornal A Tribuna. Éramos convidados do empresário Pepe Altstut, idealizador da Memorial Necrópole Ecumênica, “a mais alta do mundo”, para apresentar a cidade argentina que estava firmando um convênio de irmanação com Santos...

Aliás, secretária Wânia, de Turismo, como está esse intercâmbio?

Foi uma experiência muito interessante, conheci a neve, andei de snow cat, entrevistei políticos, empresários do segmento turístico e cientistas – na época, um dos focos avançados de estudos era, como deve ser ainda hoje, a destruição da camada de ozônio pelos gases do efeito estufa, especialmente o CO2...

Meus textos foram publicados no Perspectiva, claro (hoje em www.jornalperspectiva.com.br), e no Jornal da Orla. Naquela época o fax era uma revolução e a internet um sonho... Fosse agora, talvez tivesse colocado tudo num blog.

Nesta segunda vez, o contexto é outro... Finisterre por um longo período foi tida efetivamente como a cidade do fim do mundo – afinal, para os romanos, que acreditavam que ali acabava a terra, o Atlântico era referido como Mare Tenebrosum...

Hoje, Finisterre reflete sobre o passado e investe no segmento turismo, em especial buscando recepcionar a legião de peregrinos que cada vez mais chega de Santiago de Compostela. Para isso, recorre a referências sobre a peregrinação na Idade Média aliada à rituais de purificação e de celebração do sol e da fertilidade...

E só!

Afinal, segundo se conta, após pregar pelos pueblos da Espanha, Santiago regressou à Palestina e foi decapitado por ordem do Rei Herodes (41-44 d.C). Seu corpo foi colocado num barco de pedra e, milagrosamente, viajou da Palestina à Galícia, chegando à costa em Iria Flavia, atual Padrón... ou seja, nem foi em Finisterre...

O corpo foi enterrado e mais tarde encontrado e declarando autêntico pelo bispo Teodomiro, da então Iria Flavia. Nesse local, por determinação de Alfonso II, Rei de Asturias e León, foi construída uma igreja, dando origem à cidade de Santiago de Compostela.

Em meio a lendas e contradições, Finisterre é simpática. É como um pueblo espanhol tradicional, só que no litoral e, também por isso, atrai turistas de toda a Europa. O som das gaivotas, ininterrupto, garante o ritmo do lugar. De seu pequeno centro, com hotéis, pensões, albergues e restaurantes, a rota do peregrino determina que vá a pé ao farol do cabo.

O local está distante cerca de 4 quilômetros e é aberto à visitação, com exposição de fotos e informações turísticas. Ao redor, em meio às pedras, o peregrino fará seu ritual de queima de roupas... visando a renovação e a purificação... de preferência, ao pôr do sol...

Num mastro de madeira, em quatro línguas, a mensagem: “Que a paz prevaleça na Terra”.

Como estou com as roupas contadas, duas bermudas, três camisetas, três cuecas, três pares de meia... e ainda vou permanecer alguns dias na Espanha, queimar algo, ainda que fosse uma cueca, é um risco. El Diablo sugere queimar as botas... Passei essa parte...

Fui ao farol, a pé, conferi o visual, me emocionei – é difícil não se emocionar depois de tudo que aconteceu... – e voltei para tomar sopa de mariscos, comer uma paella e descansar num piso, apartamento, para peregrinos que se dispõem a pagar um pouco mais...

Sem as pés no Caminho, sigo de ônibus – dotado de wifi, onde concluo esse post – para a casa do amigo Soto Rojas, em Santander, que me convidou para passar alguns dias e... continuar descansando...

 

 

Como num espelho: apenas mais um em mim

 



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 08h01
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