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PEDRAS DO CAMINHO Agora, ao fim do mundo... 
Catedral de Santiago de Compostela: fim da peregrinação? 
Monumento à visita do Papa João Paulo II, no Monte do Gozo 
Nas ruas de Santiago de Compostela: a caminho da missa... 
... de longe, as torres da Catedral 
Após conquistar a Compostelana, em frente à Catedral... 
Onde conferi a tumba do Apóstolo... 
Passei por trás do altar para abraçar e beijar a imagem... 
E assisti ao espetáculo inesquecível do botafumeiro Engana-se quem acredita que a peregrinação à Santiago de Compostela termina na Catedral, após a missa das 12 horas, com aquele espetáculo do botafumeiro – inesquecível! –, a visita à tumba do apóstolo, o abraço e o beijo à imagem atrás do altar, a conquista da Compostelana... Cada vez mais, os peregrinos continuam o Caminho a Finisterre, no galego Fisterra, no latim Finis Terrae, ou seja ao “fim do mundo”... É para lá que estou indo – depois da festa deste sábado em Santiago de Compostela, com o reencontro de inúmeros peregrinos que topei no Caminho, ora na Catedral ora nas ruas, onde estava montada uma feira medieval, com barracas vendendo quinquilharias alusivas ao período, a Santiago, ao Caminho... Finisterre é um cabo, um acidente geográfico, que avança no Oceano Atlântico como um dedo, e que foi considerado um lugar místico para os celtas, fenícios e romanos, que celebravam ritos solares e de fertilidade... Diz-se que o mar é violento em Finisterre, tanto que o Noroeste da Galícia é também conhecido como Costa da Morte, em alusão aos naufrágios registrados – como o do petroleiro Prestige, em 2002, que causou o derramamento de mais de 70.000 toneladas de petróleo, com prejuízos ambientais que atingiram também Portugal e França. Assim, da mesma forma que Finisterre representou ritos de fertilidade e início, é considerado marco para o reinício da vida renovada, após a peregrinação, visando o retorno. Tanto que se tornou famoso o ritual do peregrino queimar suas roupas, após devolver sua concha ao mar, e, pelado, mergulhar na água fria e ver o pôr do Sol... Pronto, está renascido. Vou com calma, naturalmente... Afinal, são lendas, e lendas... são lendas. Tanto que, enquanto dizem que o peregrino deve seguir a Finisterre a pé, acrescentando mais 87,2 quilômetros à caminhada – o que pode ser feito em mais três etapas... – eu vou de ônibus, ou de trem, ainda decido... Por ora, minha peregrinação no Caminho Francês, saindo de Saint Jean Pied de Port, na França, somou 798,9 quilômetros. Isso, pelo menos, é o que garante o guia Rother – diferente de outras fontes, que divergem e divulgam quilometragens diferentes, ora para mais, ora para menos. Mas essa é apenas uma questão numérica, pois o Caminho é feito por cada um, considerando as muitas opções de parada, de acordo com a condição física e o interesse, seja ele arquitetônico, artístico, religioso etc. Para os cálculos do meu Caminho adotei o guia alemão, que é objetivo e me parece mais organizado que o espanhol, editado por El País/Aguilar. Fiz o meu Caminho em 29 etapas e as respectivas distâncias estão baseadas no Rother. A mais pedreira foi a 21, que cumpri no dia 26 de junho, de Santa Catalina de Somoza até Molinaseca, e que somou 39,9 km! – ou seja, quase uma maratona, que tem 42.195 metros. Já a mais leve foi a etapa 9, feita no dia 14 de junho, de Nájera até Santo Domingo de la Calzada: só 20,6 km... É um roteiro possível, eis que consegui realizá-lo, bastando apenas um pouco de disciplina, antes de dar o primeiro passo e, principalmente, durante o Caminho... Confira: Etapa 01 – 06/06 – Saint Jean Pied de Port (FR) até Roncesvalles (ES) – 24,8 km Etapa 02 – 07/06 – Roncesvalles até Zubiri – 21,2 km (46 km) Etapa 03 – 08/06 – Zubiri até Pamplona – 21,1 km (67,1 km) Etapa 04 – 09/06 – Pamplona até Puente la Reina – 23,1 km (91,2 km) Etapa 05 – 10/06 – Puente la Reina até Estella – 24 km (114,2 km) Etapa 06 – 11/06 – Estella / Los Arcos – 21,3 km (135,5 km) Etapa 07 – 12/06 – Los Arcos até Logroño – 28,7 km (164,2 km) Etapa 08 – 13/06 – Logroño até Nájera – 30,7 km (194,9 km) Etapa 09 – 14/06 – Nájera até Sto. Domingo de la Calzada – 20,6 km (215,5 km) Etapa 10 – 15/06 – Sto. Domingo de la Calzada até Belorado – 23,5 km (239 km) Etapa 11 – 16/06 – Belorado até Agés – 27,9 km (266,9 km) Etapa 12 – 17/06 – Agés até Tardajos – 34,7 km (301,6 km) Etapa 13 – 18/06 – Tardajos até Castrojeriz – 32,0 km (333,6 km) Etapa 14 – 19/06 – Castrojeriz até Frómista – 25,9 km (359,5 km) Etapa 15 – 20/06 – Frómista até Calzadilla de la Cueza – 37,3 km (396,8 km) Etapa 16 – 21/06 – Calzadilla de la Cueza até Sahagún – 22,8 km (419,6 km) Etapa 17 – 22/06 – Sahagún até Reliegos – 30,7 km (450,3 km) Etapa 18 – 23/06 – Reliegos até La Virgen del Camino – 32,5 km (482,8 km) Etapa 19 – 24/06 – La Virgen del Camino até Hospital de Órbigo – 28,7 km (511,5 km) Etapa 20 – 25/06 – Hospital de Órbigo até Santa Catalina de Somoza – 26,6 km (538,1 km) Etapa 21 – 26/06 – Santa Catalina de Somoza até Molinaseca – 39,9 km (578 km) Etapa 22 – 27/06 – Molinaseca a Cacabelos – 25,1 km (603,1 km) Etapa 23 – 28/06 – Cacabelos a O Cebreiro – 36 km (639,1 km) Etapa 24 – 29/06 – O Cebreiro a Samos – 28,5 km (667,6 km) Etapa 25 – 30/06 – Samos a Portomarín – 33,7 km (701,3 km) Etapa 26 – 01/07 – Portomarín a Palas de Rei – 24,5 km (725,8 km) Etapa 27 – 02/07 – Palas de Rei a Arzúa – 30,5 km (756,3 km) Etapa 28 – 03/07 – Arzúa a Pedrouzo – 21,3 km (777,6 km) Etapa 29 – 04/07 – Pedrouzo a Santiago de Compostela – 21,3 km (798,9)
Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h35
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PEDRAS DO CAMINHO Estou pronto. Estou pronto? 
Eu, por mim mesmo: ceticismo, sempre Se eu tivesse trazido o... terno preto, certamente o usaria... Hoje, depois da caminhada matinal, entre 6h50 e 11h15, de Arzúa até Pedrouzo, tirei o dia para me preparar para estar junto à tumba do apóstolo Santiago, irmão do apóstolo São João, na Catedral de Santiago de Compostela. Diz-se que a peregrinação só estará completa depois de o peregrino subir a escada que existe atrás do altar maior, abraçar e beijar a imagem de Santiago. Se tudo estiver favorável e conseguir manter o ritmo de hoje, para uma distância semelhante de 21,3 quilômetros, vou chegar a tempo de participar da missa do meio dia e cumprir esse ritual. A celebração do meio dia é famosa, especial para peregrinos, quando, alegre (sim, ele deve ficar alegre...), o botafumeiro é a grande atração. Banhado em prata, pesando 50 quilos, o gigantesco incensário balança na nave durante a missa, por meio de uma corda de 35 metros de comprimento, e, entre outras funções, ameniza o odor das roupas dos peregrinos... Não das minhas, claro, pois, como disse, dediquei a sexta-feira para me preparar – o que incluiu, naturalmente, a raspagem dos pelos da cabeça e da face, um banho reforçado, lavagem com sabonete da bermuda, camiseta, cueca e das três meias (o pé direito exige o uso diário de duas...) E as botas? Ontem, depois de pisar num atoleiro no bosque, já as havia lavado... Foi um descuido, sem maiores consequências, mas um bom teste para conferir se eram mesmo waterproof, como dizia o fabricante. Estarei pronto!? 
Despedida dos habitantes do bosque: das árvores... 
... das pessoas dos pueblos a pé... 
... ou em tratores... 
... dos animais, como esse filhote de... lagarto... 
... dos que mantém o Caminho... 
... ainda que com o sacrifício do verde... 
Despedida dos peregrinos e turistas... 
... que são, enfim, os principais personagens do Caminho 
... e que Caminho... 
... que, nos quilômetros finais, tem marcos a cada 500 metros Hoje, de volta ao bosque da Galícia, o clima foi de despedida... Cruzei com pessoas dos pueblos, a pé e em tratores... vi muitos bichos... pessoal da manutenção do Caminho... Aproveitei para agradecer e saudar especialmente todos os que nele habitam, o que incluiu um grande abraço na maior das árvores que encontrei... Afinal, segundo o guia do Caminho já alerta, a paisagem vai mudando na medida em que se vai chegando a Santiago. “A beleza, nesta etapa, estará no interior...”, avisa. É que a cidade avança, o Caminho se mistura com a rodovia... Hoje, como no dia anterior, quando o etapa foi de Palas de Rei e Arzúa, o bosque estava iluminado... e cheiroso. Você é capaz de sentir o cheiro do bosque da Galícia? Tente. Feche os olhos, respire fundo, o frescor da mata, pássaros cantando, a vida em tudo, pulsando, em movimento... pense nos Jardins do Éden... Minha Sandra associou as fotos que viu a sua infância, em Santa Catarina. Veja o que ela escreveu... “O caminho que fazia na infância era assim... havia árvores, animais, estrada estreita de terra ou cascalho, frutinhas, florzinhas, lavouras, plantações, rios, riachos, casas antigas, pessoas de todo tipo, mas sempre tudo muito simples. Penso que estás me vendo em todos os lugares por onde tens passado, pois tenha certeza, isso que estás vivendo fez parte da vida que vivi no Riozinho, every day, lembra? E por isso estou imensamente feliz por essa sua rica experimentação, que é o verdadeiro sentido do principio da nossa criação. Em todas as árvores, em todas as coisas, como Deus nos criou. Eu e você...” Pois é... O amigo Ibrahim também deixou uma mensagem interessante no post de ontem... Aliás, agradeço a todos os amigos que se emocionam, e me emocionam com suas mensagens, alegres, profundas, de ânimo, sentimentos que fazem parte do espírito do Caminho... Desta vez fui eu, deixei marcas – como pedras que coloquei em vários pontos e setas que construí para auxiliar futuros peregrinos... –, e em breve vocês estarão fazendo o Caminho, que milhões de pessoas já fizeram ao longo de séculos... Mudaremos alguma coisa? É possível que sim. Lembrando o ensinamento do monge beneditino, não devemos nos privar do bom exemplo. Devemos exercê-lo. Sempre. Ele tem força, uma força silenciosa e que a história já mostrou que é capaz de gerar transformações colossais... O movimento é lento. Sim, e daí? Mas quem está com pressa? Eu tenho (?) pressa! Eu tenho mais é que controlar a pressa, a ansiedade, a intolerância... Hoje, também preparei a minha credencial de peregrino para receber o último selo na Catedral de Santiago de Compostela. Será o selo número 30, considerando que o primeiro foi colocado em Saint Jean Pied de Port, no dia 5 de junho – um dia antes de iniciar a peregrinação. Os outros 28 selos foram de lugares onde descansei e me recuperei para no dia seguinte continuar no Caminho. Agradeço a todos os que colaboraram com o meu descanso e continuam me ajudando... Agora mesmo, enquanto escrevia, uma peregrina espanhola (ela contou, enquanto lavávamos roupas, que iniciou o Caminho no ano passado, em Saint Jean, e foi até León. Este ano, o retomou de León e amanhã certamente chegará a Santiago com o marido, que a acompanha...) veio me alertar que estava chuviscando e que minhas roupas... subi as escadas, rápido, até o varal onde as havia estendido e... surpresa... alguém já as havia transferido para um lugar coberto... Teria sido ela? Ou... Com o selo da Catedral terei direito a receber a Compostelana, o diploma oficial que confirmará minha peregrinação... 
Minha credencial de peregrino... 
Depois de 29 selos, incluindo o primeiro, em Saint Jean... 
... receberá o selo 30, na Catedral de Santiago de Compostela
Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h14
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PEDRAS DO CAMINHO Sábado, com Santiago... 
Bosques da Galícia... 
...preparando o encontro com Santiago 
No bosque, o encontro com rebanho de vacas 
O verdadeiro “espírito” do Caminho: você pega e deposita o valor 
Hórreo galego: para armazenar produtos e evitar roedores Os bosques da Galícia oferecem paisagens que deve haver no paraíso. Elas são um convite à contemplação, reflexão, oração... e tem tudo a ver com os momentos cruciais que antecedem o encontro com Santiago! Com Santiago? E você? Pois é, aquele reencontro comigo, que cheguei a cogitar no início do Caminho, estou tendo diariamente. Acho que até acostumei kkkkkkkk A cada dia que acordo, me preparo, dou os primeiros passos no Caminho e me sinto renovado. É uma experiência curiosa que vale a pena sentir. O amigo Moita comparou a peregrinação à Santiago de Compostela a uma nova iniciação! Concordo, pois ao raiar o dia no Caminho você vê a luz... do novo dia... e as projeções do que você faz da sua vida o leva a passear no passado, presente e, claro, no futuro..., incerto, mas tão simples, palpável... que a única vontade que você tem é agradecer: estou vivo! O resto você já sabe... Uma iniciação diária, Moita, o começo do recomeço, a espiral infinita da vida... Este é o Caminho! O encontro com Santiago estou prevendo para sábado. Ontem à noite, quarta, 1 de julho, ao traçar a estratégia deste momento da peregrinação, decidi completá-la em três etapas. Primeiro, diante de inúmeras contradições quanto à quilometragem da rota, resolvi adotar o guia Rother para definir o roteiro. E constatei que até então estavam restando 73,1 quilômetros até Santiago... Combinei comigo fazer hoje 30,5 quilômetros, de Palas de Rei a Arzúa. Uma pernada que deu certo. Cheguei bem, consegui somar 756,3 quilômetros, e me instalei num albergue da Red de Albergues, muito bem localizado em Arzúa. Dica do Acácio, que é secretário da Red. Agora, restam 42,6 quilômetros! Para amanhã, sexta 3, programei a etapa 28, de Arzúa a Pedrouzo, cujo percurso é exatamente a metade, 21,3 quilômetros. E no sábado 4, de Pedrouzo a Santiago de Compostela, completando os 798 quilômetros, de Saint Jean Pied de Port a Santiago, conforme o guia alemão. Friso o guia Rother pois o site www.caminodesantiago.consumer.es diz que o trecho de Arzúa até Santiago tem 39 quilômetros, sugerindo fazê-lo de uma só vez. Não. 
Site diz que trecho Arzúa/Santiago tem 39 km e sugere uma etapa
Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h24
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PEDRAS DO CAMINHO Arrepios a cada metro... 
Km 66, Palas de Rei: chegando a Santiago Não posso negar: os pés doem ao chegar a Palas de Rei, após deixar Portomarín e completar a etapa 26 com mais 25,1 quilômetros. Considero normal, ou inevitável. Afinal, depois de peregrinar cerca de 733 quilômetros, em 26 dias – uma média de 28 quilômetros por dia! – o corpo há de sentir. Só o corpo? Muito mais! Vai levar um tempo para assimilar a dimensão dos sentimentos. Esses quilômetros finais me arrepiam a cada metro... 
A partir de agora... de tudo no Caminho 
Ele tem oito e a irmã 12: caminham com os pais Ôba, ôba, ôba! "Vacaciones" (*) no Caminho... 
O nome é claro: Albergue de Peregrinos de Portomarín... 
... mas, além de peregrinos, está lotado de turistas... 
... que continuam chegando e vão lotar a rota jacobea neste verão 
50 estudantes de Madrid: trecho de Sarria a Santiago 
Albergue com turistas: peregrinos dormem em cama improvisada! A Europa está em férias escolares e isso é fácil constatar no movimento dos últimos dias no Caminho de Santiago de Compostela, especialmente nos albergues de peregrinos da rota jacobea. Mas, o que tem a ver a ocupação dos equipamentos da peregrinação com as vacaciones espanholas – de resto dos demais países da Comunidade Européia? Tudo – apesar do desconforto que essa invasão gera ao verdadeiro peregrino. Frise-se verdadeiro, pois o turista, ora em grupos de adolescentes, ora acompanhados de pais, avós..., também se considera peregrino, embora seja uma fraude... Comentando o assunto com um monge beneditino, que não tem qualquer dúvida sobre o “espírito do Caminho”, além de possuir uma histórica experiência no atendimento a peregrinos, ele concorda que se trata de um desvirtuamento. Em cita dois tipos que interferem com o peregrino: o turista, que como se observa – e em seguida darei exemplos – ocupa o espaço do peregrino; e o ladrão, que se infiltra no albergue para furtar, naturalmente, o peregrino... Sobre furtos, o monge me contou um caso – um único, talvez o mais recente, mas “inadmissível!”, e eu lhe contei outro, absurdo. Quem me relatou foi a própria vítima, o brasileiro Ricardo, que conheci em Samos, e que teve furtadas as botas no albergue paroquial em Hospital de Órbigo. Teve que comprar outras em Astorga. O prejuízo não fica só pela despesa, pois se soma o risco de usar botas sem o necessário amaciamento... Sobre a superlotação provocada pelo turista, no sábado 27, por volta das 16 horas, ingressei no Albergue Municipal de Peregrinos (ô mania de enfatizar o “espírito” do Caminho... só 6 euros), em Cacabelos, chegando de Molinaseca – depois de 23,3 quilômetros de peregrinação. Percebi crianças com duas famílias, respectivos pais, avós. Cheguei a conversar com o grupo e um pai me disse que sua filha tinha 12 anos e estava sim peregrinando, mas em “tramos”, ou seja, em trechos. E só nos finais de semana! Nesse dia fui um dos últimos a chegar, número 49, para 56 vagas. Sai para cear etc. e tal, quando retornei, já na hora de fechar as portas, percebi que um casal de peregrinos, autênticos (pois já o tinha visto em várias etapas), estava dormindo em colchões improvisados em cima de bancos... Dia seguinte, domingo 28, fiz o trajeto de Cacabelos até O Cebreiro, camelando 36,5 quilômetros, e fiquei no Albergue Municipal (outra vez... só 3 euros) mantido pela Xunta de Galícia. O Cebreiro é uma cidade turística, estava fervendo. A vista de lá é fenomenal, lembra a nossa serra gaúcha. O albergue dispõe de 104 vagas, um mostro, mas muito bem cuidado e preparado para receber peregrinos (?). Depois de 36,5 quilômetros de peregrinação, mesmo tendo iniciado às 6h30 da manhã, cheguei por volta das 16 horas. Fui o 93! Como havia passado vários peregrinos, inclusive alguns que conheço desde Saint Jean Pied de Port... como os italianos Andréa e Roger... sabia que logo iria lotar. E é o único albergue do local; o resto é hostal. Eles conseguiram entrar, tudo bem e logo a hospitaleira (?) colocou o aviso: não há mais vagas. Estava pendurando roupas que acabara de lavar quando um casal espanhol de peregrinos chegou de bicicleta perguntando sobre o acesso à secretaria. Era por volta das 17h15 e embora soubesse que não tinha mais vagas indiquei a entrada. Foi a maior confusão, porque queriam a todo custo ficar e a funcionária do albergue não tinha onde colocá-los. Ou seja, tiveram que pedalar pelo menos mais 10 quilômetros em busca do albergue mais próximo. E se estivessem a pé... Na segunda, fiz o trecho de O Cebreiro até Samos (30,6 quilômetros) – onde tem um precioso monastério beneditino (mil histórias para contar, participei de uma visita guiada, fiquei mais de meia hora falando com um monge, sobre tudo, de Paulo Coelho e “espírito do Caminho”, menos política...) – e no albergue mantido pela Ordem, muito simples, mas limpo (sem taxa, só doação...), teve espaço para todo mundo. Afinal, Samos tem estrutura hospitaleira, não só para peregrino como para turista... Ontem, terça, completei minha etapa 25 de Samos a Portomarín (33,7 quilômetros...). Entrei num albergue da Xunta de Galícia (novamente... só 3 euros...) e, apesar de ter capacidade para 110 pessoas (além de estar apto a ocupar uma escola localizada em frente...), ao ir até a biblioteca blogar, não havia mais vaga. Lotado de turistas e alguns peregrinos – que enfrentam fila para tomar banho, disputam espaço para uma mesa para o lanche, tropeçam em turistas e ainda são repreendidos quando, às 6 horas, começam a fazer barulho para se preparar para a peregrinação e a turistada quer mesmo é dormir... Falei com a hospitaleira... hospitaleira nada, a gerente do estabelecimento, e ela me confirmou que é só pagar os 3 euros que o acesso é liberado – para menor, inclusive. Basta estar com pai ou monitor. “Aqui não é só para peregrino”, fez questão de frisar, embora na entrada o nome do lugar deixe claro que se trata de um albergue de peregrinos... Mas como esse pessoal está pagando e consome, e muito, usufruindo um turismo barato para uma Espanha em crise (?), o que tem demais tomar emprestado a estrutura construída ao longo dos anos – anos o cacete, séculos! – para dar suporte aos que, por algum motivo, acreditam no poder de transformação do Caminho Santo? Outro exemplo dessa lotação encontrei em Sarria (primeira parada, ontem, após Samos...). Me deparei com um grupo de 50 estudantes de Madri entrando na rota jacobea. Falei com um dos monitores, Carlos, que contou que se tratava de uma atividade desportiva extracurricular... Como Sarria está distante cerca de 120 quilômetros de Santiago de Compostela, ele contou que nos próximos dias o grupo fará etapas em torno de 20 quilômetros. Em seis dias voltam para casa... Engasgou para lembrar onde o grupo iria parar ao final do dia; mas, possivelmente, iriam ocupar um espaço que, se houvesse necessidade, seria do peregrino... Como se disse, essa agitação tem o seu lado bom, porque movimenta a economia. E como!!! Por duas bananas cheguei a pagar 1 euro e 20 centavos, ou seja, cada banana o equivalente a 1,80 real!!! Por um sabonete desembolsei 3 euros e 60 centavos!!! Mas, só isso? Para o monge beneditino que concordou em conversar comigo, não, decididamente, não. Além de acreditar na importância de se praticar o bom exemplo – até para intimidar o ladrão de botas... – ele pondera que, ao fazer a rota por turismo, pode acontecer o momento mágico do encontro com Deus... e aí ele dá o exemplo de uma jovem que, ao passar férias na rota jacobea, decidiu fazer seus votos religiosos... (*) Vacaciones, em espanhol no plural, é o período do ano em que as pessoas que trabalham ou estudam têm um descanso total pelo paralisação de sua atividade. 
Basílica de San Julián: o destaque do Monastério de Samos 
Antigo projeto prevê a inclusão de torres 
Fachada de igreja barroca, sem torres 
Detalhe da Cruz Asturiana 
Altar da Basílica: missa com cantos gregorianos 
Interior do Monastério: estátua de Feijoo, da comunidade samonense 
Afrescos no claustro gótico las Nereidas: passagens de São Bento 
Capela do Ciprés: mozárabe, integra Abadia Beneditina de San Julián 
Monastério de San Julián de Samos: ora et labora
Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 08h40
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PEDRAS DO CAMINHO Com os pés na Galícia 
Castelo de los Marqueses, Villafranca del Bierzo, indo para a Galícia 
Monastério de San Nicolás el Real, barroco, século XVII 
Ponte de Villafranca del Bierzo: em direção à Galícia 
Marco oficial de ingresso na Galícia 
O Cebreiro, a cidade de pedra 
Vista magnífica de O Cebreiro Desde que iniciei a peregrinação, cruzando a Espanha de Leste a Oeste, passei pelas Províncias de Navarra, La Rioja, Burgos, Palencia e León y Castilla. Neste domingo 28 de junho, às 15 e 40, ao entrar no povoado de O Cebreiro, dei o primeiro passo na Galícia (que é um conjunto de províncias), cuja capital é Santiago de Compostela. A cidade de pedra, como O Cebreiro é conhecida, está a cerca de 1.300 metros de altitude e oferece uma paisagem impressionante, de uma sequência de morros forrados de plantações... Mas até Santiago, que está a 250 metros acima do nível do mar, haverá ainda muitas subidas e descidas, a mais alta delas em Alto de Riocabo, a 900 metros... No sábado, quando sai de Molinaseca e me detive no Castelo dos Templários, em Ponferrada, terminei a etapa em Cacabelos, somando mais 23,3 quilômetros à peregrinação – o que está dentro de uma média razoável... No domingo, para compensar, e como o objetivo estava na chegada, em O Cebreiro, fiz 36,6 quilômetros (o maior percurso num dia!!!). Apenas para dar uma pontuada, pelas minhas contas já caminhei 613,9 quilômetros – o que significa que de O Cebreiro 185,1 quilômetros me separam de Santiago de Compostela. Essas são as minhas contas... pois o guia Rother informa que desse ponto faltam 159,8 quilômetros, enquanto para o El País/Aguilar seriam apenas (!) 154,7 quilômetros. Mas, e a Galícia? O que se diz é que se trata de uma região misteriosa, onde é muito forte uma tradição pré-cristã, com destaque para a cultura megalítica (4000 anos a.C.) e símbolos da Idade do Bronze (1800 a.C.). Diz-se que os celtas habitaram as terras da Galícia desde os anos 700 a.C., até a invasão dos romanos, em 135 a.C., e que aos celtas se deve o nome “galaicos”...
Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h15
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