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PEDRAS DO CAMINHO

Templários em Ponferrada

Entrada do Castillo de los Templarios

O Tau, divisa adotada no castelo por Conde de Lemos

Muralha preservada da primeira fase do castelo

Muralha principal da fortificação: século XIV

Detalhe de uma câmara da artilharia

Torre de Malvecino: unida à muralha principal por uma passarela

Vista da Basílica de la Encina (séculos XVI-XVIII)

Da torre mais alta do castelo, o Rio Sil

 

Saindo de Molinaseca, depois 4,4 quilômetros de caminhada se passa por Campo e mais 3,6 quilômetros se chega a Ponferrada, considerada a última grande concentração urbana antes de Santiago de Compostela.

Ponferrada, entre outras construções seculares (*), tem como destaque o Castillo de los Templarios, cujas obras de sua primeira fase teriam sido concluídas em 1282, apesar de que o castelo foi habitado pelos monges guerreiros desde 1178 até o fim da organização em 1312. Desse período, restou apenas uma muralha – todo o restante do castelo atual foi construído nos séculos XIV e XV, após ter sido confiscado e, em seguida, ocupado por Pedro Fernández de Castro. Este senhor levantou o castelo hoje existente num extremo, denominado Castillo Viejo. Durante o século XV, informa o Ayuntamiento de Ponferrada, pertenceu ao duque de Arjona, a sua irmã Beatriz de Castro e seu esposo Pedro Álvarez de Osorio, Conde de Lemos, que realizou inúmeros obras e transformou o lugar num luxuoso palácio, que passou a se chamar Castillo Nuevo.

A fortaleza, que é considerada o principal resquício de construção templária no Caminho, está no centro de Ponferrada e ocupa cerca de 8.000 metros quadrados de área.

As visitas aos sábados, contudo, só tem início às 11 horas... Ou seja, desde que sai de Molinaseca fiquei enrolando no café da manhã fora do albergue, fui para frente da biblioteca municipal, onde o wifi continuava funcionando apesar de não haver expediente, e fiz o trajeto de 8 quilômetros em passo de tartaruga...

Um fato inusitado é que em Campo cruzei com cinco peregrinos que fazem o Caminho a cavalo. O comum é a pé e de bicicleta; a cavalo foram os primeiros. Cumprimentei o grupo e fiz fotos. Gostaria de ter podido conversar, saber de onde saíram, se vão direto etc. – afinal nos finais de semana e principalmente nos finais de semana aparece de tudo no Caminho –, mas passaram lotado...

Permaneci no Godivah, um espaço gourmet em frente ao castelo que tem folheados deliciosos. Consegui me conectar numa rede e adiantar o texto... Antes, fiz fotos externas. Aguardei a abertura da bilheteria do castelo e mediante 3 euros pude fazer fotos internas, que acompanham essa cebolada...

E sobre os cavaleiros famosos, vale lembrar que a Ordem dos Templários, de cunho religioso e militar, foi criada em 1118, por Hugues de Payens, Geoffrey de Saint Ademar e outros cavaleiros. Seguindo regras de castidade, pobreza e obediência, o objetivo era proteger os lugares santos da Palestina e os peregrinos, inclusive os de Santiago de Compostela.

Consta que lideraram os exércitos das Cruzadas. Com o tempo, conquistando poder e dinheiro, construíram fortalezas, igrejas, estradas e pontes. Até que o Papa Clemente V determinou a extinção da Ordem e confiscou seus bens...

O último Grão Mestre dos Templários foi Jaques Demolay, queimado em praça pública. Sua morte, contudo, não seria o fim dos princípios da Ordem, pois consta que muitos dos seus integrantes foram abrigados na Maçonaria, colaborando para fortalecer os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

(*) Basílica de Nossa Senhora La Encina, do século XVI; Igreja “mozárabe” Santo Tomás de Las Ollas, dos séculos X a XIII; Igreja “românica” Santa Maria Vizbayo-Otero, do século XVI; e Real Cárcel, do século XVI, onde funciona o Museu Del Bierzo.

Peregrinos cavaleiros



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h58
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PEDRAS DO CAMINHO

O ponto mais alto... Isto é real!

 

La Cruz de Hierro: ponto mais alto do Caminho

 

Hoje, ao peregrinar a minha etapa 21 do Caminho – de Santa Catalina de Somoza até Molinaseca, algo em torno de 35,8 quilômetros... – passei de manhã em La Cruz de Hierro.

Trata-se do ponto mais alto do Caminho Francês, com quase 1.500 metros de altitude, marcado por uma solitária cruz de ferro sobre um mastro de madeira de 5 metros. Diz a lenda que o peregrino deve trazer uma pedra de seu lugar de origem e deixá-la na base, para se livrar de suas cargas e culpas e ter proteção na viagem...

Como sabia dessa necessidade, trouxe do Brasil uma pedra na minha mochila e lancei-a no monte. Vai que...

Ao cruzar por La Cruz de Hierro passei pelo penúltimo maior obstáculo do Caminho – afinal você parte de altitude de 900 e poucos metros, em Santa Catalina de Somoza, atinge os quase 1.500 metros, e desce para Molinaseca, a menos de 600 metros do nível do mar...

Penúltimo, porque o último, conforme apontam os guias que me auxiliam, dentro de uns dias estarei chegando a O Cebreiro, a pouco mais de 1.300 metros de altitude... se bem que alguns dias depois tem o Alto de Riocabo, a 900 metros...

Mas não adianta se preocupar por antecipação, pois tudo depende das condições do solo, da meteorologia e, claro, de como eu estiver no momento. Hoje, por exemplo, estava muito bem. Só isso para justificar uma caminhada de quase uma maratona.

Aliás, nesse momento de projeções e balanços, acabo de constatar que para o guia El País/Aguilar Molinaseca estou 214,5 quilômetros distante de Santiago de Compostela. Ou seja, já teria percorrido exatos 584,5 – considerando os 799 quilômetros do Caminho Francês.

Já para o guia Rother, faltariam 220 quilômetros até Santiago e eu já teria peregrinado 579 quilômetros...

Contudo, considerando as minhas contas, eu teria somado 554,1 quilômetros e restariam 244,9 quilômetros.

Com certeza um dos três, ou os três fizeram contas erradas...

Sinceramente, as contas de El País/Aguilar me são mais favoráveis, pois só 214,5 quilômetros me separam de Santiago de Compostela!

 

Chegando a Astorga...

 

... a chegada ao pueblo marca a rotina do peregrino

 

Casal de franceses: peregrinação desde Le Puy

 

Viana: primeiro sinal da cidade é a cruz da igreja

 

"Buen camino, pelegrino" é a saudação popular

 

Mas, afinal...

– O Neguinho não tinha mais o que fazer? – perguntou meu irmão quando minha mãe lhe contou que eu estava peregrinando o Caminho de Santiago de Compostela...

Assim, como a incredulidade do Batata, as reações são as mais inusitadas ao se saber por onde ando, especialmente se o interlocutor já ouviu falar, leu ou teve algum amigo que fez o Caminho – especialmente se foi a pé. Afinal são cerca de 799 quilômetros, em condições nem sempre ideais para uma caminhada, como a que se faz diariamente na orla de Santos...

Gerson diz que nem de carro...

Macarrão garante que vai acompanhar sentadinho em frente ao micro...

Léa parabeniza e... não se fala mais nisso!

O apoio, só pra não contrariar, vem da família, Sandra, dona Maria, Flávia, Juliana, Lady (meio chateada...).

O entusiasmo chega de todos os loucos, Lisbôa, Glauco, Guerato, Lociks, Campos, Thomas, Denys, Zé Cássio, Zilli, El Diablo, Hugo, Joaquim, Miriam, Antonio Maria, Arnaldo, Marcão, Braga, Bunitão, Edu, Ariomar, Marinho, Maratona, Angela, Jacuí, Oscarzinho, Di Renzo, Oscar, Soto, Filetti, Valmir e Kelly, Felipe, (o afilhado Mateus deve ter pensado...), Caio, Ibrahim (e outros que não tiveram a oportunidade de se manifestar...).

Batata, na gozação, acha que é coisa de quem tem tempo sobrando; está a fim de procurar pelo em ovo, chifre em cabeça de burro... ou de quem, a contrario sensu, já teria feito tudo o que era para ser feito. O que, convenhamos, seria um grande exagero para quem ainda tem mais uma idade e alguns anos pela frente.

Legal que todos os que acham a iniciativa interessante pensam também um dia concretizá-la. Não sei o que estão esperando! Se programem para o próximo Verão; ainda mais considerando que 2010 é ano jubilar, quando o perdão divino é garantido a todos os pecadores que chegarem a Santiago...

A todos vocês digo que é possível qualquer um, ainda que com a fragilidade da idade e o costume do conforto, tirar de letra os quase 800 quilômetros do Caminho.

Como já contei, até este momento (*) topei com situações quase impossíveis, caso da americana de 84 anos. Ela também começou em Saint Jean Pied de Port e faz as etapas conforme sua condição. Dias atrás, num restaurante em Reliegos, conheci a brasileira Eudóxia, 74 anos. Ela mora na Zona Norte de São Paulo e, na base de 10 a 15 quilômetros por dia, está fazendo o Caminho desde 25 de maio.

Quer mais: em 25 de junho, em Murias de Rechivaldo, quando fazia o trecho entre Hospital de Órbidos e Santa Catalina de Somoza, encontrei um casal da terceira idade que faz o Caminho não de Saint Jean, mas de Le Puy, também na França, o que acrescenta mais 750 quilômetros à caminhada – totalizando algum em torno de 1.549 quilômetros. Ela carrega uma mochila e ele uma mala com rodinhas. Falei com ele, que se identificou como Francis, e contou que haviam saído de Le Puy no domingo de Páscoa... Fiz fotos e dei votos de ânimo! Mas tem gente que anda muito mais, vem de outros pontos da França, da Holanda, da Alemanha...

Ou seja, não tem limite, muito menos de idade para aceitar o desafio. Desafio?

A verdadeira motivação para desembarcar em Saint Jean Pied de Port, na França, para dar o primeiro passo, acredito, será para mim sempre uma incógnita, por mais que pense e tenha, na ponta da língua, mais de 1.001 motivos para expor.

Da mesma forma, ignoro a origem da disposição para acordar diariamente às 6 horas para andar, andar e andar, sozinho – em parte, pois você passa e é passado por outros peregrinos, a pé ou de bicicleta, ou cruza com a gente dos pueblos (sempre com o cumprimento “Buen Camino, Pelegrino”) ah! e os inúmeros bichos que fazem parte do Caminho, como lesmas, de vários tipos, sapos, pássaros (ouvir o cuco é demais...), ovelhas, bois, cavalos, salamandras, formigas, lagartos, cães, gatos... um tal de chinche, que é uma praga, mas, sinceramente, não vi nenhum...

 

Sem medo do peregrino...

 

O som de pássaros, de várias espécies, é uma constante

 

A lesma, que vira prato fino, é companheira no Caminho

 

Rebanho de ovelhas: curiosas

 

Mais pássaros, "que não gorjeiam como lá..."

 

Nos últimos dias penso e me preparo para enfrentar o encontro com Santiago de Compostela. Afinal, acredito que tudo, absolutamente tudo, desde a mordida do mosquito, até a preparação, o primeiro passo, o dia a dia, as coincidências..., enfim, a própria existência... todo esse quebra-cabeça dos últimos dias possivelmente se cristalizará no momento mágico em que avistar a torre da catedral de Santiago de Compostela...

A torre da igreja, via de regra, é a primeira coisa que se vê quando se está chegando ao povoado ou à cidade. Durante o Caminho esta é uma expectativa presente a cada passo; uma sensação de conforto... não tanto pela religiosidade, ou inconscientemente sim, sei lá, mas principalmente pela perspectiva de ver o pueblo; para parar e se livrar um pouco da mochila, descansar, comer ou beber alguma coisa... Consumir?

Este é um dos efeitos Santiago de Compostela! O tempo disponível te dá a oportunidade de avaliar cada movimento, cada olhar, sob vários aspectos, e são tantos que se somam, que, ao final, será a conjugação deles que poderá te aproximar um pouquinho mais e com melhor clareza daquilo que é real...

(*) Até 26 de junho, quando cheguei a Molinaseca já teria percorrido 554,1 km, ou 584,5 km, ou 579 km...

 

Torre da Igreja Santa María de Los Arcos, em Los Arcos



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 13h37
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PEDRAS DO CAMINHO

Imagens da rota jacobea (*)

 

Clicando uma média de 100 fotos por dia, é um prazer preparar uma seleção de imagens, ainda mais nesta altura da peregrinação, quando muita coisa já passou, mas muita coisa ainda falta passar... Em todo caso, estão são algumas que posso dizer que gosto, tanto pelo que mostram, mas principalmente pelo que significam...

 

A primeira bolha a gente não esquece!

 

Catedral de Burgos guarda o túmulo de El Cid

 

Pra não esquecer os muitos cães do Caminho...

 

Ninhos de cegonha na Igreja de Santa María, em Belorado

 

Crianças brincam no jardim de uma creche em León

 

Ruínas do antigo hospital de peregrinos San Juan de Acre, Navarrete

 

Igreja templária de Torres del Río: cúpula com influência árabe

 

A seta amarela garante que você está no Caminho

 

As cores dos campos do Caminho

 

As torres da Catedral de León: harmonia gótica 

 

Depois do pasto, levando o rebanho de ovelhas para descansar

 

Há momentos em que é o Caminho, você e sua sombra...

 

A lua ainda teima em permanecer na paisagem

 

Esculturas de pedras: momentos de reflexão do peregrino

 

Tosa das ovelhas não dói: elas balem porque são manhosas!

 

No chão de Navarrete, a vieira e a espada indicam a direção

 

Imagem da ponte gótica de la Rabia, sobre o rio Arga, em Zubiri

 

(*) Uma questão que me intriga sobre o Caminho é o fato de os textos, em guias e na Internet, sempre se referirem à rota jacobea. Afinal, qual seria o motivo, se o santo é Tiago, o Maior, ou Santiago, o apóstolo cujo sepulcro foi encontrado na região hoje denominada Compostela – outro termo cuja explicação é divergente.

Entre as explicações para a palavra “jacobea” designar o Caminho de Santiago é considerado, em primeiro lugar, que Santiago em inglês é Saint James. E James, segundo o dicionário American Heritage Dictionary of the English Language, vem do latim antigo Iacomus, que é uma variante de Iacobus, que vem do hebreu Yaakov. Assim, de Iacomus surgiu (Sant) Iago e de Iacabus surgiu Jacobo y Jacob.

Outra palavra polêmica no âmbito do Caminho é Compostela. Há quem considere que derive de “campus stellae”, que significa “campo da estrela”, devido à lenda que um monge viu uma estrela bailando no céu antes de cair e indicar a tumba do apóstolo. Há especialistas, contudo, que afirmam que o termo vem de “compositum tellum”, que significa “sepulcro bem cuidado”, pois esta era a situação em que se encontrava a tumba de Santiago no momento em que foi encontrada.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 12h22
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PEDRAS DO CAMINHO

O business do “Camino”

 

 

Além de albergues, outras opções de hospedagem mais caras

 

Em alguns trechos, o Caminho oficial muda para favorecer interesses

 

Peregrina ou turista: cadê a mochila? E daí? Afinal...

 

... o Caminho é Itinerário Cultural Europeu...

 

... e a economia agradece a presença de turistas/peregrinos

 

A peregrinação deixa marcas no peregrino, não só aquelas mais profundas – n’alma, por exemplo, pois como se diz ele nunca mais será o mesmo! –, mas tantas outras pelo corpo, que acabam sendo compartilhadas pelos que estão no Caminho.

Os pés são os que mais sofrem – e os joelhos, as ombros, as costas... também, devido ao peso da mochila. Mas, as bolhas nos pés são inevitáveis e aparecem mesmo que o calçado seja o mais adequado e o peregrino dos novos tempos tenha tido a oportunidade de planejar o uso diário das botas antes de pôr o pé na estrada.

O piso irregular em que os passos são dados, quase sempre de cascalho e pedra, mesclado com subidas e descidas, determinam uma pisada que ora força a ponta dos pés – e aí as bolhas surgem dos dedos para a planta –, ora o calcanhar, formando bolhas exatamente nessa parte do pé.

Com bolhas nos pés fica muito difícil caminhar.

Uma forma de prevenir o surgimento de bolhas logo no primeiro dia é evitar andar com as meias úmidas. O ideal, assim que o suor ensopou os pés, é trocar as meias.

Ah! E menos mal se forem só as bolhas, pois há casos em que o pé, o tornozelo, o calcanhar ou o joelho incham, talvez resultado de algum processo inflamatório, e andar fica quase impossível!

Eu mesmo acompanhei o sofrimento de um peregrino durante dois dias seguidos, desde que chegou Frómista. A comoção era geral, pois todos ouviam seus gritos. No dia seguinte, achando até que havia abandonado o Caminho, o encontrei na rua seguindo em frente. À noite, chegou gemendo a Calzadilla de la Cueza, depois de percorrer 36,4 quilômetros! Eu mesmo, embora sabendo que não deveria, ofereci comprimido de aceclofenaco, que levei para minhas dores na coluna, mas ele não aceitou. Ainda bem. Vai que tem alergia...

O sofrimento, nesses casos, desencadeia um fenômeno solidário, desde o colega peregrino ao hospitaleiro, que é o responsável pela acolhida do doente.

A dor, portanto, faz, sempre fez e fará parte do Caminho. Imagine os muitos casos de dor em todos esses séculos de peregrinação... Antigamente, a maioria dos peregrinos, provavelmente descalça, fazendo a rota jacobea com motivações muito diferentes das de hoje, quase que absolutamente sob a pressão da Igreja, com o objetivo de buscar a indulgência e se livrar do pecado.

Afinal, em 1119, o papa Calixto II concedeu ao peregrino de Santiago durante o ano jubilar, como será 2010 (*), quando o Dia de São Tiago o Maior, 25 de julho, cai num domingo, o perdão a todos os seus pecados. Então, peregrinar nos demais anos não conta? Deve contar, ora! E, claro, quem tinha dinheiro pagava a chave celeste...

Nos cascos, aquilo sim é que era sofrimento – daí terem proliferado tanto hospitais e albergues de peregrinos no Caminho, até muito mais e maiores do que nos dias de hoje, conforme relatos dos guias medievais. Aliás, em 1332, o papa João XXII concedeu indulgência às pessoas que ajudassem os peregrinos com hospedagens ou com esmolas, o que fez ampliar essa estrutura...

Por isso, foi com uma estupefação que a hospitaleira Carmen, do Albergue Municipal de Peregrinos de Frómista, numa manhã de junho, atendeu um motorista de táxi. Em 21 anos de hospitalaria ela nunca havia presenciado tal cena.

O taxista trazia duas mochilas, devidamente identificadas, e colocou aos seus pés.

– São de dois peregrinos.

– Dois o quê? – não acreditou Carmen.

Pois é, os peregrinos haviam contratado o táxi para levar as mochilas para o Albergue Municipal. Fariam a peregrinação tal como peregrinos, ou seja, fantasiados com roupas tradicionais, tecido leve, cor caqui, botas solado resistente, cajadinho básico de alumínio, e uma pochetezinha na cintura, com dinheiro para o menu ou o bocadilho num dos muitos bares existentes no Caminho, credencial de peregrino adquirida em alguma das associações de amigos e quando chegassem...

Pois é, quando chegaram, pediram para ver o albergue, não gostaram e foram para o hotel ao lado.

– Não recebo mais mochila aqui –, vacinou-se Carmen – Este não é o espírito do Caminho.

Eis a questão, qual o espírito do Caminho?

Ao longo dos últimos anos o Caminho de Santiago de Compostela mudou muito. Não só para os que o fazem, mas também para os que trabalham nele, incluindo aí a Igreja, poder público (local e estadual) e empresariado e os que vêem nele a oportunidade de ganhar dinheiro e muito – caso dele, sim, ele mesmo, o próprio, Paulo Coelho.

A começar pela rota, que a cada dia muda, com o surgimento de um novo negócio ou interesse, do empresário ou mesmo do poder público – como aliás me confidenciou um dono de restaurante em Carrión de Los Condes. Nessa que é uma das últimas cidades importantes da Província de Palencia, antes de o Caminho entrar em León, a rota original foi alterada para fazer com que os peregrinos passem por ruas onde funcionam negócios dos apadrinhados do poder...

Hoje, o Caminho de Santiago é importante para a própria sobrevivência da Espanha. Não somente como polo de difusão cultural, pelo rico patrimônio histórico, arquitetônico, arqueológico e o escambau, mas especialmente como atração turística.

Peregrinar o Caminho nos dias atuais, além das muitas motivações que o próprio peregrino enumera ao justificar sua presença na rota, virou turismo – e turismo barato, para a família inteira, de um dia, uma semana, ou uma quinzena, fácil de fazer, principalmente em meio à crise que se abateu nas principais economias do mundo, notadamente na Europa.

Peregrino virou turista!

Ou melhor:

Turista virou peregrino!

Ou seja, estabeleceu-se a maior confusão na terceira maior rota de caminhantes do mundo – depois da Palestina, a primeira, e do Vaticano, os chamados romeiros.

A questão, como demonstra o episódio dos peregrinos que mandaram as mochilas pelo taxista, já alcança a questão ética, e o turista não se faz de rogado (não no caso, cujos protagonistas preferiram o hotel...) em utilizar a estrutura mantida para atender o verdadeiro peregrino.

Ou isso é uma bobagem? Talvez seja, coisa de purista – e nesses tempos bicudos de crise, há de ser pragmático.

Afinal, turismo movimenta o comércio, o serviço, faz a riqueza circular! O próprio ayjuntamiento, o equivalente à municipalidade, não se preocupa em dar uma orientação clara no caso do atendimento prestado ao peregrino no albergue municipal – que geralmente é bem equipado, recebe recursos do governo da Província e mesmo assim ainda cobra.

Mas, enquanto um municipal cobra 4 euros, por exemplo, caso do albergue municipal Cluny, de Sahagún, um particular pode cobrar 10 euros, caso do El Pajar, de Agés.

Além de tudo, a solidariedade faz parte do Caminho, e mesmo que o hospitaleiro, ainda que de um albergue municipal, de associação ou da igreja, perceba que está diante de uma fraude, será improvável que não aceite o turista... digo, peregrino. Ainda mais se estiver portando uma credencial. E tem também aquela bula papal...

A situação vai recrudescer nessas férias de Verão, a primeira depois da crise, e que terá seu pico nos meses de julho e agosto. Por enquanto, os albergues estão vazios, ou com muito espaço vago. No domingo passado, 21 de junho, em Sahagún, por exemplo, das 64 camas disponíveis, somente 10 estavam ocupadas.

Apesar disso, enquanto degustava um menu peregrino, com direito a coelho no segundo prato!, chegaram uns 10 peregrinos (ou seriam turistas?, não importa!), que movimentaram o restaurante. Eles haviam caminhado cerca de 15 km e estavam sedentos e famintos. Falei com alguns deles e, para provocar, perguntei se eram turistas.

O líder não se ofendeu e corrigiu:

– Somos peregrinos de final de semana! – inovou.

Pois é, esse é espírito. Se fazem o Caminho, são peregrinos. No caso, o grupo se reúne uma vez por... mês, num domingo, e fazem um trecho. Assim, pretendem um dia chegar a Santiago de Compostela. Mas, pela condição, dormem de sábado para domingo num hotel e quando terminam a etapa se confraternizam e retornam numa van de apoio aos seus lares.

O que deve ser considerado, finalmente, é que essas adequações do Caminho de Santiago são sinais do tempo. Conversando com empresários do setor de serviços sobre o assunto, de modo geral, eles estão tranquilos. No fundo sabem que há mercado para as várias faixas de renda e, no caso de uma classe ser incrementada, naturalmente a outra terá benefícios.

César, de Calzadilla de la Cueza, está otimista com as perspectivas deste Verão. O pequeno povoado está estrategicamente localizado a 17,2 quilômetros de Carrión de Los Condes, após uma planície fatigante! Se quiser evitá-lo, o melhor é que durma em Carrión e o atravesse em direção a Lédigos (6,2 quilômetros após) ou Terradillos de Templarios (mais 3,3 quilômetros).

Agora, se você vem de Frómista, parar em Carrión, depois de 19,2 quilômetros é pouco; e inevitavelmente você terá que dormir em Calzadilla de la Cueza.

Lá, a única opção é o César. Ou você vai para o Hostal dele, o Camino Real, na faixa dos 20 euros em quarto individual, ou fica no albergue, também dele, a 6 euros – e terá como hospitaleiro o baiano Sidney, que veio para estudar na Espanha e foi ficando, ficando, ficando, e diz que nunca mais voltará ao Brasil...

Negócios do Caminho...

 

(*) Após 2010, os próximos anos jubilares são 2021, 2027, 2032, 2038, 2049, 2055, 2060, 2066, 2077, 2083, 2088, 2094…

 

A espanhola Inés: apenas um trecho do Caminho, até León

 

O casal de portugueses também faz um trecho a cada ano

 

Após a longa planície, o albergue que tem um baiano hospitaleiro

 

Advertência aos peregrinos: sem danos, especialmente ambientais



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 07h39
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