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PEDRAS DO CAMINHO

A Embaixada do Brasil em Castrojeriz

 

Bandeira brasileira na fachada do La Taberna

 

Com o casal Toño e Maria de Jesus: atrás, foto dele...

Notas de dinheiro brasileiro decoram a parede: 100 reais original

Já falei, e não foi uma vez, do amor dos espanhóis pelos brasileiros; mas assim é demais.

O casal José Antonio, ou simplesmente Toño, e Maria de Jesus, é fanático. Eles conhecem o Brasil mais do que muitos brasileiros. Já visitaram o país várias vezes e pretendem voltar qualquer hora dessas... No Sul, estiveram em Porto Alegre, cidades da Serra Gaúcha, como Gramado e Canela (“uma avenida de hortências...”, lembra Maria de Jesus), Foz de Iguaçu, conheceram Salvador (contam que estão até hoje esperam uma caipirinha, zombando da lerdeza do baiano...), Porto de Galinhas, Fortaleza, Natal...

Eles são donos do bar La Taberna, em Castrojeriz, e, você não vai acreditar: eles têm a bandeira do Brasil na fachada do estabelecimento!

O La Taberna funciona na rua principal da medieval Castrojeriz e é passagem obrigatória de todos os peregrinos do Caminho de Santiago. Não tem como não ver; não tem como não ter vontade de entrar e conhecer o que tem lá dentro.

E mais surpresas. O casal coleciona notas de dinheiro brasileiro, de várias épocas, que decoram a parede do bar, atrás do balcão – inclusive uma de 100 reais, que Tonho garante que é original.

Em outras paredes também têm bandeiras do Brasil, recortes de reportagens em publicações brasileiras que já focaram esse amor e fotos de brasileiros – o mais famoso, o hit do Caminho, ele mesmo, e quem mais?, Paulo Coelho! Que, aliás, já esteve lá mais de uma vez, a última delas com uma italiana..., confidenciou Maria de Jesus.

Uma história que sensibiliza o casal é o cachorro que tinham e faleceu há alguns anos. O pastor alemão Bernie tinha o espírito peregrino. Tonho conta as inúmeras vezes que o perro acompanhava os peregrinos até a cidade seguinte e depois retornava. Quando morreu foi tema de reportagem na imprensa espanhola, conforme atestam os recortes guardados. Até hoje o casal sente a falta do animal...

Foi no La Taberna que instalei o escritório peregrino da Titan Comunicação durante minha passagem em Castrojeriz. Afinal, é um dos poucos, senão o único lugar da cidade que possui wifi. Além disso, o menu peregrino oferece a opção de uma sopa de lentilhas com morcilla...

Tanta cordialidade, contratei o bocadilho de jamón e queijo para o dia seguinte. “Vais comer o melhor bocadilho da Espanha”, exagerava Toño enquanto derrubava a garrafa de azeite sobre o sanduíche.

O La Taberna já se intitula a Embaixada do Brasil em Castrojeriz. Mas Toño e Maria de Jesus querem o título oficial.

Eles têm o meu voto. Eles merecem!

 

Toño prepara o bocadilho: o melhor da Espanha



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h42
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PEDRAS DO CAMINHO

Sobre hospitaleiros

 

Jesus, de Sto. Domingo: muito bem no ranking dos hospitaleiros

 

Equipe de Roncesvalles

 

Hospitaleiros em Pamplona: atendendo peregrino suiço

 

Equipe do Albergue de Agrés: particular, e muito aconchegante

 

Sem considerar a infraestrutura do albergue, que é extremamente variável, especialmente se é mantido pela igreja, ou por alguma associação de amigos de peregrinos, comumente mediante parceria com o poder público, ou particular, uma figura fundamental no funcionamento do albergue é o hospitaleiro.

É ele, ou eles, dependendo do tamanho do albergue – enquanto o de Roncesvalles adota uma equipe de quatro por período o de Tardajos tem apenas um 24 horas! –, que marca o ritmo da, digamos assim, hospitalidade do local. Desde a recepção aos peregrinos, com a explicação das regras, especialmente para controlar os abusados, o carimbo na credencial, e o atendimento a qualquer necessidade.

E quando se diz qualquer necessidade é qualquer mesmo, pois será a ele que sempre o peregrino irá se dirigir.

Por isso não é fácil ser hospitaleiro. Para facilitar – e ser um facilitador faz parte da hospitalidade –, não basta que fale apenas o castelhano – embora a grande maioria dos peregrinos seja espanhol. Circulam pelo Caminho pessoas de diferentes nacionalidades, o que exige do hospitaleiro conhecimentos básicos de outras línguas, principalmente, francês, inglês, alemão, português – e não devido a brasileiros, cujo trânsito é incipiente –, mas dos irmãos de Portugal.

Por isso, entre as equipes de hospitaleiros que se revezam, no caso de serem voluntários (sim, porque no caso de serem empregados, serão sempre os mesmos...), há homens e mulheres de várias nacionalidades.

Mas, se além da língua pátria, arranha outra, ponto para o hospitaleiro! Será mais solicitado e terá a oportunidade de mais facilitar.

Somando um ponto aqui, descontando outro ali, é que, naturalmente, vai se formando um ranking entre os hospitaleiros do Caminho. Claro que neste momento, percorrido um terço do Caminho Francês, pode parecer prematuro arriscar um 10, por exemplo, numa classificação de 0 a 10 – faltando, como se deduz, dois terços do trajeto.

Mas Jesus, sim Jesus – o segundo que já encontrei no Caminho – está muito perto da nota máxima. Ele é hospitaleiro no Albergue mantido pela Confradia de Sto. Domingo de la Calzada, em Sto. Domingo de la Calzada, onde fiquei de 14 para 15 de junho, mediante a doação 3 euros.

Sempre bem disposto, me atendeu e acompanhei o atendimento a outros peregrinos com muita dedicação, dando quase sempre retorno às solicitações, sugerindo dicas e procurando colaborar. Foi ele que me recepcionou; e que se despediu de mim, às 6h30 da manhã, ainda com cara de sono...

Os outros da equipe também foram gentis, mas Jesus superou.

Claro que com a super infraestrutura existente no albergue – o que indica que é bem provável que seja funcionário... – fica tudo mais fácil. Talvez seja o único albergue dotado inclusive de elevador, com acesso para dois pisos. Tudo é novo, os estofados são de couro, o sistema hidráulico inteligente, muito limpo... Sua recente reforma foi inaugurada no início do ano e contou inclusive com a presença do governador da Província La Rioja.

Outros que estão com muitos pontos no meu ranking parcial são as equipes que me atenderam nos albergue de Pamplona e em Roscesvalles. Atenciosos, objetivos, prestativos... mas não um Jesus!

Na lanterna do ranking, pelo menos até agora, está o hospitaleiro do Albergue de Logroño. Comigo, de cara, foi duro quando pedi para substituir o número ímpar, que indica a cama de cima do beliche, por um par. “Peregrino não pede”, avisou. De cara, descontei alguns pontos. Como não protestei, minutos depois, talvez arrependido, me deu o número par.

Ficou com minha credencial. Avisou que só iria dar no dia seguinte, após às 6h30! Achei, como todos acharam, esquisito. A credencial é do peregrino, não tem essa de retê-la. Carimba, anota o que tiver que anotar no livro de registro, e devolve. Além disso, e seu quiser sair antes das 6h30 – o que muitos fazem para evitar o sol forte do dia...

Assim, em meio a regras arbitrárias, talvez nem culpa do hospitaleiro, mas da forma como ela as impõe – talvez culpa sim, como aceita tais regras?!?!?!? –, no dia seguinte pela manhã aconteceu a maior confusão exatamente por causa de um catalão (sempre eles...) que queria sua credencial para sair mais cedo. Houve troca de insultos (“ditadura, ditadura!”, dizia o catalão) e o clima quase esquentou. No final das contas, o catalão ficou de castigo e foi o último a receber a credencial...

 

Jorge, de Tardajos: vinho e gasosa, por ser brasileiro

 

Levanto minha própria suspeição, contudo, para falar de alguns hospitaleiros. Afinal, há algumas pessoas – e já comentei isso antes – que é só falar que é do Brasil que se derretem. Foi o caso do hospitaleiro voluntário Jorge, de Tardajos. O albergue é mantido por uma associação de amigos do Caminho, com sede em Madri. Adotou parceria com a Prefeitura local e instalou o albergue numa antiga casa de professores.

Como em Tardajos o único estabelecimento comercial próximo só abre às 17 horas, o que me impediu de fazer compras, estava eu no mesão em frente ao albergue, comendo frutas e o que restou do bocadilho da peregrinação, quando fui observado pelo Jorge. Bem humorado fui à sua sala e me trouxe uma garrafa de vinho e uma gasosa, sugerindo a mistura para acompanhar o meu bocadilho...

Sentou-se comigo e contou uma situação em que estava no Caminho, meio desolado, quando um religioso brasileiro se aproximou e disse palavras que levantaram seu astral. Um momento que mudou seu dia e nunca mais se esqueceu. Ajudar um brasileiro, pois, no caso eu, foi uma forma de retribuir. Só por ser brasileiro! Tomei quase tudo o que ele me deu – e, depois, quando abriu o comércio, comprei uma garrafa de vinho e o presenteei.

 

Pepe e Jesus: ceia com os hospitaleiros de Castrojeriz

 

Ah! E o que falar do terceiro Jesus do Caminho e seu amigo Pepe. Nesse caso, eu sou suspeitíssimo. No dia 18, os dois estavam como hospitaleiros voluntários do Refúgio de Castrojeriz, mantido pela Asociación de Amigos de los Refugios del Camino de Santiago.

Fui lá para conhecer o albergue onde o santista José Roberto Lisbôa Júnior, o Juca, é hospitaleiro diplomado – e em julho cumprirá sua escala anual. Ou seja, já estava super indicado!

A mordomia foi total. Primeiro, Jesus me levou para conhecer sala por sala do albergue e explicar o seu funcionamento. Ao mostrar o espaço dos hospitaleiros, fez questão de mostrar onde Juca dorme, onde Juca se senta – e até a janela onde Juca se pendura para fumar, após a ceia e do café...

Depois, ele recepcionou jovens da comunidade, para dar aulas de reforço em Matemática, Inglês e Francês, e aproveitei para conhecer um pouco a cidade.

Voltei por volta da 21h30 – o albergue fecha as portas às 22 horas – e cumprimentei Jesus e Pepe e fui me preparar para dormir. O dia havia sido duro, já havia feito minha refeição principal do dia, por volta das 15 horas, na La Taberna (depois eu explico o que é a La Taberna...) e ia dormir daquele jeito...

Ia, pois já estava deitado, quando Jesus veio me buscar: “Vamos, Luiz, vamos cear...”. O quê?!?!?! Subimos no refeitório e lá já estava Pepe, que havia preparado uma salada caprichada, com aspargos, azeitonas, atum, tomate, alface, que foi acompanhada de queijo, tortilla etc. e, claro, vinho, com iogurte de sobremesa.

Pois é, comi como um hospitaleiro! Fiz questão de lavar os pratos...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h30
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PEDRAS DO CAMINHO

Santos, igrejas, milagres...

 

Em Zubiri: abertura da celebração de Corpus Christi

  

Santo Domingo: procissão de Corpus Christi 

 

Mais procissão em Santo Domingo

 

Catedral de Santo Domingo

 

A presença católica marca as cidades do Caminho de Santiago com seus templos e edificações, alguns mais simples, outros majestosos – e culminará na Catedral de Santiago de Compostela. Dedicada ao apóstolo Santiago, ela data de 1128 e tem estilo românico, com elementos posteriores renascentistas e barrocos.

É a nova igreja em homenagem a Santiago, pois a primeira, do século IX, foi construída pelo rei Alfonso II, o Casto de Astúrias, e o bispo Teodomiro. Depois, no final do mesmo século, Alfonso III, o Grande, construiu uma basílica muito mais bela, destruída em 997 por Mohammed ben Abdelah Abuamie, o Almansor, vizir muçulmano de Al-Andalus.

Após Fernando III vencer os muçulmanos em 1236, a catedral fui reconstruída por Alfonso V. Uma parte da igreja foi consagrada em 1105 e o restante em 1211...

Não que a presença católica seja uma novidade, muito pelo contrário, pois é o grande mote do Caminho e serve para consolidar a fé como forte elemento de motivação à grande maioria dos peregrinos.

Tal presença, pois – ao lado das belas paisagens, povo alegre e peregrinos bem dispostos – é a grande característica do Caminho, pelo menos até agora, neste domingo 15, dia de Corpus Christi, ao chegar a Santo Domingo de la Calzada, Província de La Rioja, e completar minha nona etapa, desde que sai sábado passado, 7/06, de Saint Jean Pied de Port, na França – acumulando 209,1 quilômetros a pé...

Já no domingo passado, ao chegar a Zubiri (completando a segunda etapa, vindo de Ronscevalles), fui surpreendido com uma procissão que anunciava a semana de Corpus Christi na pequena comunidade navarra. A saída foi da praça da cidade, tendo à frente meninas vestidas de branco angelical, jogando pétalas de rosas, seguidas pelo padre e séquito de fiéis.

Já em Santo Domingo de la Calzada, em alguns trechos das ruas apertadas da cidade foram confeccionados tapetes de pétalas de rosa, entre outros elementos, destacando os 900 anos de história da cidade – de 1109 a 2009 – e já projetando, em banners distribuídos em pontos estratégicos, as comemorações do ano jubilar em 2010. Ou seja, quando o dia do apóstolo Tiago, 25 de junho, cai no domingo, e a Igreja Católica espera levar algo em torno de 6 milhões de fiéis à Santiago de Compostela – muitos deles, certamente, peregrinos!

Às 12 horas teve início a missa festiva com a catedral lotada, mas nenhum fiel deixou de ver a celebração, fosse diretamente, ou por meio de telas de LCD espalhadas pelo templo.

O edifício é exemplo de transição entre o românico e o gótico e teve sua condição de catedral celebrada em 1232, quando a cidade foi nomeada sede episcopal.

Conforme divulgado oficialmente, a igreja românica começou a ser construída em 1158 e atualmente conserva grande parte da antiga planta. No século XVI, parte do cruzeiro sofreu importante reforma com a ampliação do lado esquerdo para abrigar o sepulcro de Santo Domingo.

O sepulcro foi desenhado por Vigarny e realizado em 1513 por Juan de Rasines, com vários estilos: românico, gótico e pós-gótico. A igreja está organizada como uma típica igreja de peregrinação (como a maioria dos modelos ao longo do Caminho), com várias capelas e a existência de passagem próxima ao altar, o que permite a circulação.

Entre outros detalhes, destaca um nicho em lembrança ao peregrino enforcado injustamente e mantém vivos numa gaiola um galo e uma galinha para celebrar a tradição e o milagre de que “ressuscitaram” para manifestar a inocência do peregrino.

Conta-se que a filha do dono da hospedaria enamorou-se de um peregrino alemão, que estava acompanhado dos pais. Porém, como ele a desprezou, a jovem mentiu ao corregedor, acusando-o de furtar um cálice de prata. O peregrino foi condenado e enforcado. Santiago o teria suspenso para não morrer sufocado. Ao ver o filho, os pais constataram que ele estava vivo, o que se devia à pronta ajuda do famoso hospitaleiro do lugar Domingos, que cuidava de peregrinos. Os pais foram então ao corregedor contar a novidade e a autoridade, que estava numa mesa saboreando penosas assadas, zombou, dizendo que o peregrino estava tão vivo quanto elas. Não é que, embora assadas, as galinhas voltaram à vida!!!

Pois é esse milagre, ou mera lenda, que a cidade propaga com seriedade e o utiliza para atrair fiéis, turistas e peregrinos. A marca do santo com a galinha e o galo está no artesanato, na divulgação oficial etc. Além disso, é muito curioso ouvir o galo cantar dentro da igreja, especialmente durante as missas.

No domingo, logo após a celebração de Corpus Christi, houve uma concorrida procissão, tendo à frente crianças, meninos e meninas, senhores e senhores da sociedade calceatense e o pároco, que num determinado ponto da rua, sobre um dos tapetes, fez uma homilia.

Além de seus 900 anos de história, com riquíssimo patrimônio arquitetônico preservado e ainda a preservar, Santo Domingo de la Calzada explora com toda fé possível o santo de seu nome.

Nesse caldeirão de religiosidade católica e valioso patrimônio arquitetônico, lamenta-se a inexistência de vestígios dos 800 anos de dominação árabe na Península Ibérica, no caso específico na Espanha... Pelo menos até agora não vi restos de mesquitas ou sinais da arquitetura árabe, como se observa, por exemplo, em Veneza... Em Léon, onde foi muito forte a força árabe, encontrarei e registrarei, já que a maioria das igrejas e catedrais de hoje teriam sido erguidas sobre templos muçulmanos destruídos...

 

900 anos de história: galo, galinha e peregrino (ao fundo) enfocado

 

Ano jubilar calceatense

 

Na catedral, a gaiola com o galo e a galinha

 

Doces deliciosos e milagrosos



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 12h32
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