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DESCULPE... Esta é minha última postagem!

Por uma falha inominável deste blog da UOL não consigo mais inserir fotos junto com o texto, sendo informado que não há mais espaço... Liguei uma dezena de vezes para o suporte técnico UOL e o atendimento merece ser inspecionado pelo Procon, tantas são as falhas. A sugestão mais estúpida foi para que eu apagasse os posts anteriores..., claro, sem a convicção de que voltaria a funcionar! Acabei desistindo e, numa última tentativa, resolvi publicar só o texto pretendido, em duas partes, sob o título "As opções de Francisco na França" - nas quais comento qual teria sido a rota de Francisco em sua célebre peregrinação, em 1214, de Assis a Santiago de Compostela. A inserção da Parte II, sem fotos, obteve êxito. Vou inserir abaixo a Parte I e, desde já, anuncio aos amigos que me acompanham neste blog desde 2009 - quando iniciei minhas peregrinações pelos Caminhos de Santiago - que estou me despedindo. Não postarei os textos programados sobre o trajeto de Francisco em Espanha, de Jaca até chegar a Santiago de Compostela. Eles permanecerão inéditos. Quem sabe um dia serão revelados em outro blog, ou quem sabe em novo livro - após encerrar a trilogia Pedras do Caminho, dos quais o terceiro e último livro tem lançamento programado para o primeiro semestre de 2015. Buen Camino!

PEDRAS DO CAMINHO

As opções de Francisco na França - Parte I

Adotamos a mesma logística utilizada na Itália e a travessia da França em nosso Caminho de Assis a Santiago de Compostela – perseguindo os passos de Francisco na célebre peregrinação em 1214 – foi feita optando pelas principais cidades da região no século XIII e que, pela lógica, podem ter influenciado nas escolhas do famoso peregrino.

Nossa estratégia não é difícil de sustentar, considerando que levamos em consideração, além da geografia e a importância histórica das cidades, nosso tempo disponível, a facilidade de acesso e a existência de transporte rodoviário ou ferroviário...

Assim, ao deixarmos o Principado de Mônaco em direção a Espanha realizamos nosso trajeto francês passando por Marselha, Toulouse e Lourdes. Depois, a partir do magnífico Santuário Mariano, atravessamos os Pirineus contornando por Oloron Sainte-Marie e ingressando na Espanha por Somport, tendo Jaca como primeira parada espanhola.

Marselha é a mais antiga cidade francesa, tendo sido povoada pelos gregos no século VII a.C. e passado ao domínio romano em 49 a.C. Toulouse registra evidências arqueológicas da presença humana já no século VIII a.C.; e, além disso, passa por Toulouse a Via Tolosana, também chamada Caminho de Arles – uma das principais rotas francesas a Santiago de Compostela! Já Lourdes, cujas aparições da Imaculada Conceição somente viriam a projetá-la religiosamente a partir de 11 de fevereiro de 1858, muito séculos antes era ponto estratégico na região por abrigar o Château Fort, cuja origem remonta à ocupação romana e que, entre os episódios históricos em que esteve envolvido, foi sitiado em 778 por Carlos Magno, e tornou-se em seguida residência dos condes de Bigorre.

Aceitando que Francisco realizou seu Caminho a pé ou a cavalo é possível enumerar várias cidades em sua travessia da França, conforme trabalharam os especialistas da Galícia que criaram o projeto “Peregrino e novo apóstolo – San Francisco no Camiño de Santiago”, que celebra o 8º centenário da peregrinação de Francisco, de Assis à Cidade Santa.

Para os pesquisadores, o Caminho de Francisco em solo francês teve início em Fréjus (vindo de Ventemiglia, na Itália), passando por Aix-en-Provence (tangenciando Marselha...), Arles, Montpellier, Narbonne, Toulouse e Oloron Sainte-Marie – para alcançar Jaca, já na Espanha.

Basta comparar no mapa da região para verificar que ambas as opções são muito semelhantes... Assim, ao aprofundar a pesquisa sobre cada uma das cidades citadas, visando referenciar a presença do “poverello”, é fácil admitir, tanto pela geografia quanto pelos registros históricas, que elas podem sim ter servido ao trajeto de Francisco na travessia da França rumo a Santiago de Compostela.

Fréjus, por exemplo, era conhecida durante a Roma Antiga como Fórum Júlio, conforme atesta a correspondência entre Planco e Cícero datada de 43 a.C. Aix-en-Provence, por outro lado, era chamada de Aquae Sextiae durante o período romano.

Outras quatro cidades citadas – Arles, Montpellier, Toulouse e Oloron Sainte-Marie – integram a reconhecida rota a Santiago de Compostela, denominada Via Tolosana ou Caminho de Arles. Portanto, não deve haver dúvidas sobre a importância de cada uma naquela época para compor um Caminho seguro a Francisco.

Já Narbonne foi a primeira colônia romana fora da Itália, tendo sido estabelecida na Gália (termo que se refere ao moderno território francês) em 118 a.C., com o nome de Colonia Narbo Martius. Localizava-se na Via Domícia, a primeira estrada romana na Gália, construída no tempo da fundação da colônia, e que conectava a Itália à Espanha. Entre 719 a 759 esteve sob o domínio dos árabes...

Merece ser observado, contudo, que nem nossa proposta nem a dos especialistas da Galícia sugerem o Caminho de Francisco por Tarascon, a cerca de 20 quilômetros de Arles. E a importância de Tarascon nos foi enfatizada por irmãs de Marie Immaculée, de Avignon, que conhecemos em Marselha, ao lembrar sobre a mãe de Francisco, Jehanne de Bourlemont, ou Mme. Picà. O apelido é em referência à região da Picardie, no Norte da França, onde nasceu, mas Jehanne, ainda criança, mudou-se com a família para Tarascon, onde foi batizada e viveu muitos anos de sua vida. Em Tarascon, ela casou-se, ficou viúva e conheceu Pedro Bernardone, o pai de Francisco, seguindo o casal para Assis...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 16h27
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PEDRAS DO CAMINHO

As opções de Francisco na França - Parte II

Teria Francisco, afinal, passado por Tarascon?

Como não dispúnhamos de tais referências nosso Caminho não incluiu Tarascon (que, como se disse, também não está na rota sugerida pelos especialistas da Galícia). Vale frisar, entretanto, que em todas as cidades que passamos apuramos referências sobre a presença de Francisco e de sua Ordem...

Seguindo nosso Caminho de Assis a Santiago de Compostela, deixamos o Principado de Mônaco na terça-feira 10 de junho, para cumprir a quinta etapa, que compreendeu o trecho até Marselha, na França. Viajamos cerca de 220 quilômetros de trem. Conforme o post no mesmo dia no Face, grafamos MARselha, com MAR em destaque, pois na costa do Mar Mediterrâneo fizemos passeio no La Navette Maritime, obtendo um ângulo diferente da cidade. Ah! Muita coisa ficou para a próxima vez...

Em Marselha, como nas cidades anteriores, conseguimos informações interessantes sobre Francisco e sua memória – uma delas já citada, sobre o encontro com irmãs e a eventual passagem de Francisco por Tarascon, onde viveu sua mãe, em sua célebre peregrinação a Santiago de Compostela.

O intenso movimento de peregrinos a Santiago de Compostela é uma das características de Toulouse, ponto de passagem da Via Tolosana ou Caminho de Arles. Chegamos a Toulouse de trem, na quarta-feira, 11 de junho, vindos de Marselha, após uma viagem de cerca de 400 quilômetros, completando a sexta etapa de nosso Caminho.

A estrutura de acolhimento ao peregrino do “Chemin de Saint-Jacques-de-Compostelle” é exemplar e se concentra na Basilique Saint-Sernin, onde selamos nossas credenciais e conversamos sobre nosso Caminho com às simpáticas voluntárias da Basilique e da associação “Les Amis des chemins de St. Jacques en Occitanie”.

O templo é magnífico. No altar-mor estão as relíquias de Saint Saturnin e na cripta as relíquias de uma galeria de santos – entre os quais (de forma polêmica), de Saint Jacques, Le Majeur.

Claro, sem perder o nosso foco em São Francisco, apuramos na Basilique a capela dedicada a Saint François e Sainte Claire d’Assise...

Apesar da greve dos ferroviários franceses, chegamos a Lourdes – o fenomenal santuário dedicado a Maria –, em pleno Dia dos Namorados, 12 de junho, quinta-feira, fazendo o trecho de trem até Muret e seguindo de ônibus ao Santuário Mariano. Em Lourdes pudemos comemorar os 30 anos de nossa união, eu e Sandra, além de aprofundarmos o conhecimento sobre Francisco de Assis, sobre Santiago..., e finalmente assistirmos a estreia do Brasil no Mundial de Futebol, com vitória de 3 a 1 sobre a Croácia...

Obrigado, obrigado, obrigado!

A chegada a Lourdes marcou o final da sétima etapa de nosso Caminho de Assis a Santiago de Compostela. Para descansar e preparar a travessia dos Pirineus decidimos ficar dois dias no Santuário, programando a retomada do Caminho para sábado, 14 de junho.

Na sexta-feira 13 de junho nos preparamos para as despedidas desta Cidade Santa, aproveitando a energia da tradicional Procissão das Velas, que é realizada todos os dias a partir das 21 horas no amplo espaço do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.

Tudo pronto para atravessar os Pirineus – apesar da greve dos ferroviários franceses, que só deve terminar, como terminou, na semana seguinte –, seguimos rumo a Jaca, na Espanha, continuando nosso Caminho de Assis a Santiago de Compostela. “Bonne chance et au revoir!”



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h23
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PEDRAS DO CAMINHO

O Caminho de Francisco na Itália - Parte I


O magnífico Santuário Franciscano La Verna está erguido sobre rochas...

Como ressaltei no post anterior, o conteúdo publicado no Facebook sobre o Caminho de Assis a Santiago de Compostela – para celebrar o 8º centenário da peregrinação do “poverello” à Cidade Santa e os 30 anos de minha união com Sandra – andou sempre atual, etapa por etapa, em comparação com este blog, que, na verdade, foi esquecido durante a viagem. Até que tentei, dois ou três dias após iniciar a travessia, programar a postagem de breves relatos sobre cada um dos trechos percorridos, visando equalizar o tempo, pelo menos o tempo, em ambas as mídias... contudo, não consegui.

Assim, apenas os amigos do Face puderam acompanhar o ritmo de nosso Caminho, curtindo e manifestando votos de ânimo e “buen camino”. Com esta força, e mais a disposição interior de perseguir os passos de Francisco em sua célebre peregrinação a Santiago de Compostela em 1214 – além de contarmos com excelente clima durante a travessia por Itália, Principado de Mônaco, França e, enfim, Espanha –, nossa síntese hoje, no conforto de nossa casa, é que tudo aconteceu conforme nossa programação.

Já foram registrados os dois dias, 4 e 5 de junho, que ficamos em Assis – ainda que, a bem da verdade, muita coisa aconteceu que não foi possível ser contada. Um exemplo é a obtenção da “Credenzialle del Pellegrino”, na secretaria da Igreja de Santa Maria Degli Angeli, onde está a Porciúncula. A versão italiana da credencial de peregrino é bem elaborada e, decorada com reproduções da cruz de Francisco, foi idealizada para ser usada em solo italiano, na Via de Roma e na Via Francígena di San Francesco.

Utilizamos o documento de forma efetiva, selando-o durante as 14 etapas do nosso Caminho; e, ainda que não tivesse, como não teve, e não tem!, validade oficial – como para obter a Compostelana (o documento que comprova a peregrinação a Santiago de Compostela...) – o que, evidentemente, seria impossível, considerando que nosso Caminho não foi realizado a pé, de bicicleta ou a cavalo... –,, para nós ele se transformou em verdadeiro troféu. Daí termos feito questão de requerer na Oficina de Peregrinos o tradicional selo da Catedral de Santiago de Compostela.

Da mesma forma, levamos a “Credenzialle del Pellegrino” para receber o selo da Igreja de São Francisco em Santiago de Compostela, o que foi providenciado com extrema atenção por Frei Angeles, que nos presenteou com a “Cotolay”, nome que se refere ao fundador do Convento Franciscano em Santiago, e que é uma espécie de Compostelana, visando comprovar que lá estivemos com ânimo peregrino...

O que destaco neste momento, quando passo a relatar as etapas do nosso Caminho – e o que, aliás, é inédito em relação às postagens feitas no Face –, são os pontos divergentes sobre qual teria sido o Caminho de Francisco em sua peregrinação a Santiago de Compostela. Explico: quando passamos a desenhar a célebre rota dispúnhamos apenas de informações baseadas na tradição sobre o trajeto em Espanha – recolhidas com ênfase no trabalho elaborado pelo Frei Natalio Saludes Martinez, da OFM de Santiago, sobre Francisco nas Pedras do Caminho –, e nenhum dado sobre a passagem por Itália e França. Diante disso, a partir de pesquisas na geografia da região, arriscamos os pontos pelos quais Francisco teria passado rumo a Santiago de Compostela. Optamos por uma rota junto ao Mar Mediterrâneo, onde várias cidades atuais já eram centros famosos, como Livorno e Gênova, ou estavam em formação.

No caso da Itália, sugerimos como primeira etapa do Caminho o trecho de Assisi a Chiusi della Verna – onde está o Monte Alverne, que, conforme a tradição, foi palco em 17 de setembro de 1224 do milagre que produziu no corpo de Francisco os estigmas, ou seja, as chagas da crucificação de Cristo. Pelo que se sabe, foi exatamente em 1213 que Francisco conheceu o nobre Orlando di Chiusi, que ofereceu o monte e a área adjacente para que fosse criado um local de retiro e oração, tendo Francisco subido o monte pela primeira vez no ano seguinte, 1214, onde foi construído o grandioso Santuário Franciscano.

Ou seja, no ano da peregrinação a Santiago de Compostela, o local já era conhecido por Francisco – e hoje sua importância é inegável!

Como segunda etapa, apontamos de Chiusi della Verna a Livorno, hoje próspera cidade, que teria sido fundada em 1017 como uma das fortalezas costeiras de proteção a Pisa. Pela proximidade e importância de Pisa, também incluímos nossa passagem por esta cidade.

Para terceira etapa, indicamos o trajeto de Livorno a Gênova, último ponto na Itália. Sobre Gênova, sabe-se que remonta aos gregos, como atestam as escavações de uma necrópole datada do século IV a.C.

A quarta etapa de nosso Caminho marca o ingresso no hoje Principado de Mônaco – cujo território, no século XIII, era ocupado por uma colônia de Gênova...

Ao chegarmos a Santiago de Compostela, contudo, fomos à exposição “Peregrino e novo apóstolo – San Francisco no Camiño de Santiago”, que celebra o 8º centenário da peregrinação de Francisco, de Assis à Cidade Santa, e conhecemos o mapa traçado por especialistas que participaram do grandioso projeto, que incluiu uma preciosa edição impressa.

Não compramos a publicação, mas fomos à mostra, que se prolongará até 24 de agosto, no Colexio de Fonseca, numa realização da Xunta de Galícia em parceria com o Gobierno de España, o Fondo Europeu de Desenvolvimento Rexional, a Província Franciscana de Santiago, o Fegamp e a USC.

Para os pesquisadores, Francisco peregrino, após sair de Assisi não teria passado por Chiusi della Verna. Teria se dirigido para Siena, depois Lucca, até alcançar Gênova e, como último ponto em solo italiano, Ventimiglia.

É possível! Siena, por exemplo, conforme e mitologia grega, foi fundada por Sênio, filho de Remo, e depois de povoamento etrusco, foi colônia romana refundada pelo imperador Augusto... Já Lucca tem seu primeiro registro por Lívio, que a mencionou como parte da República Romana desde 218 a.C. Sobre Ventimiglia não encontrei registros históricos, mas também é possível que já registrasse alguma ocupação, sendo passagem natural para a França...

 

Sim, é possível, que o Caminho de Francisco tenha incluído tais cidades, mas, efetivamente, não foi este o nosso Caminho!

Leia O Caminho de Francisco na Itália - Parte II



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 12h54
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PEDRAS DO CAMINHO

O Caminho de Francisco na Itália - Parte II

Caminho de pedras até o santuário franciscano La Verna.

Mantendo nossa programação – até porque desconhecíamos qualquer proposta de trajeto da peregrinação de Francisco em solo italiano... –, no dia 6 de junho, após dois dias em Assisi, fizemos a viagem até Chiusi della Verna. Foi nossa primeira etapa da travessia até Santiago de Compostela e exigiu o uso de trem – de Assisi a Arezzo e de Arezzo a Bibbiena –, e de ônibus – de Bibienna a Chiusi della Verna.

Foi cansativo, mas, ao final, tivemos ânimo para caminhar cerca de 3 quilômetros, ida e volta, pela trilha de pedra até o fantástico santuário franciscano La Verna, onde Francisco recebeu em seu corpo “le stimmate”, ou os estigmas, as chagas da crucificação de Cristo. Trata-se do milagre que, em harmonia com tudo o que se sabe sobre a vida do “poverello”, o leva a ser chamado de “Alter Christus”. Um momento que foi retratado por diferentes autores, ao longo dos últimos oito séculos, cuja imagem constatamos em vários pontos de nosso Caminho onde a presença do Santo é celebrada.


Leito onde Francisco repousava em gruta no Santuário La Verna...

 

A Cappella Stimate, para celebrar o milagre dos estigmas de Francisco: “Sacellum Sacrorum Stigmatum”.

No dia 7 de junho, na segunda etapa da travessia de Assisi a Santiago de Compostela, percorremos de Chiusi della Verna a Livorno, no litoral do Mar da Ligúria. Inicialmente à margem do nosso Caminho, a vizinha Pisa acabou sendo uma deliciosa surpresa. Afinal, a ideia inicial era ficar apenas em Livorno, mas após uma caminhada pela cidade, fomos perseguidos pela magia da torre inclinada e acabamos mudando de planos.

Nesta segunda etapa, partimos de ônibus de Chiusi della Verna para Bibienna e daí, em outro ônibus, para Firenze. Finalmente, embarcamos no trem para Livorno... Depois de instalados no hotel, almoçamos, passeamos pela cidade, com forte influência Dominicana, mas com marcas seguras da presença franciscana, como na suntuosa Cattedrale di San Francesco.

Para Pisa, fizemos o trajeto de trem, ida e volta, uma viagem de cerca de 20 minutos! Até poderíamos ter esticado até Lucca, que fica próximo – e foi incluída na rota sugerida pelos especialistas da Galícia -, mas, como já frisamos, desconhecíamos o conteúdo daquele trabalho.


Cattedrale di San Francesco em Livorno.


Fortezza Vecchia de Livorno.


Cúpula da Chiesa di Santa Caterina.


Bela Duomo di Pisa, a Catedral de Pisa dedicada à Virgem Maria.


Na torre de Pisa: diz a tradição que foi no Porto de Pisa que Pedro desembarcou na Itália, de onde seguiu para Roma, para pregar o Evangelho e edificar a Igreja...

No domingo 8 de junho, em nossa terceira etapa de Assis a Santiago de Compostela, seguimos de trem de Livorno a Gênova e registramos no Face: “Quanti Palazzi!”. Afinal, Gênova é pródiga em palácios. A cidade possui 58 listados no guia oficial, além de praças e edifícios monumentais, como a Cattedrale San Lorenzo, dos séculos XII a XVI, e tem orgulho especial pelo filho Cristoforo Colombo.

Claro que não deu para passar em todos os palácios, mas conhecemos alguns, como o Palazzo Reale, Palazzo Rosso, Palazzo Della Meridiana, Palazzo Ducale...

Com foco em Francisco, descobrimos duas pinturas do Santo, de autoria do genovês Bernardo Strozzi (Genova 1581 – Venezia 1644), que estão no Palazzo Rosso. A grande dúvida é se seriam de Francisco de Assis ou de Francisco de Paula, da Calábria (século XV), fundador da Ordem dos Mínimos e que teria sido discípulo de Francisco de Assis. Fica difícil saber até que ponto os dois santos se mesclam. As imagens de Francisco, no entanto, parecem projetar Francisco de Assis...

Ainda em Gênova, conhecemos a angolana Maria José, que trabalha no no Palazzo Rosso e nos contou sobre o Convento Franciscano de San Barnaba e que encerrou atividades há algum tempo. Não tivemos tempo de ir ao local, que fica no alto de um monte, para confirmar as informações e continuar as investigações, mas encaminhamos esta pesquisa junto a nossas fontes franciscanas. Maria José citou o nome de Frate Luca...


Terceira etapa, de Livorno a Gênova, de trem: trechos em que é possível avistar praias e belos recantos do Mar da Ligúria, parte do Mar Mediterrâneo entre a Riviera Italiana e as ilhas da Córsega e Elba.


Na Fontana de Piazza de Ferrari, a principal praça de Gênova, onde está o belo Palazzo Ducale.


Mosaico no chão do Palácio Reale.


San Francesco abbracciato al Crocifisso, de Bernardo Strozzi (Genova 1581 – Venezia 1644).


San Francesco in adorazione del Crocifisso, de Bernardo Strozzi (Genova 1581 – Venezia 1644).


Cattedrale San Lorenzo!

Nossa quarta etapa, na segunda-feira 9 de junho, teve como destino o Principado de Mônaco, onde chegamos vindos de Gênova – que foi efetivamente nossa última cidade em solo italiano. Fomos de trem, com troca de composição em Ventimiglia – citada no trabalho dos especialistas da Galícia... Porém, como não tínhamos qualquer referência sobre esta pequena cidade italiana, não aprofundamos nossa pesquisa.

Mônaco coleciona ícones da realeza, mas que às vezes parece sucumbir às marcas da decadência (como pudemos constatar, por exemplo, no Casino...).

No Principado foi muito interessante a informação obtida na Cathédrale de Mônaco sobre indícios da passagem de Francisco na região. O guardião da Catedral, Jean Marc, nos disse haver uma pequena Capela de São Francisco em Roquebrune, Amenton, na França – entre a Itália e o Principado, distante 7 km do Principado – e próximo de Ventimiglia, localizada a 20 quilômetros de Mônaco.

Jean Marc também relatou com entusiasmo a presença de Francisco em Mônaco, frisando que, quando jovem, estudou num liceu franciscano no Principado e que mudou de endereço no ano passado. Deu a localização, na Avenue de Roqueville esquina com Rue de la Source, e estivemos lá, podendo constatar o aviso na porta: “Les locaux du Lycee François D’Assise – Nicolas Barre sont desormais transferes Avenue de L’Annonciade (bâtiment de la Direction de l’Education Nationale)”. Infelizmente, não tivemos tempo de procurar no novo endereço...

Nossa passagem por Mônaco incluiu o Palácio do Príncipe de Mônaco, a residência oficial de Alberto II, nascido Albert Alexandre Louis Pierre, que é o chefe da Casa de Grimaldi e o atual príncipe soberano.


Junto aos canhões que decoram o entorno da Place du Palais, onde está o Palácio do Príncipe de Mônaco.


Fachada do Palácio do Príncipe de Mônaco.


Circulando no interior do Palácio do Príncipe de Mônaco.


O trono do príncipe de Mônaco.


Bela vista de Mônaco, do ponto onde está localizado o Palácio do Príncipe.


Cathédrale de Mônaco, dedicada a São Nicolau, onde inúmeros membros da família Grimaldi estão enterrados.


Altar da Cathédrale de Mônaco.


Em seu pequeno carro, Pierre Rainier Stefano Casiraghi, filho mais jovem da princesa Caroline de Mônaco, agora SAR princesa Caroline de Hanover, e de seu segundo marido, Stefano Casiraghi: terceiro na linha de sucessão ao trono do Mônaco, na sequência da mãe e irmão.

 



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 12h48
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PEDRAS DO CAMINHO

Caminhando em Assisi...

Em frente à Basílica di San Francesco, onde estão as relíquias de São Francisco.

Sem querer teorizar sobre a eficiência deste blog em relação ao Facebook – a outra mídia que utilizei para relatar a viagem de Assis a Santiago de Compostela e festejar o 8º centenário da peregrinação de Francisco e os 30 anos de união com minha Sandra – o certo é que, além de mais rápido, o Face me tomou menos tempo.

Claro que a linguagem do blog permite refletir melhor sobre as situações, não apenas apresentando a imagem com a legenda e, talvez, um texto que abre o eventual álbum de fotos, fazendo com que o leitor possa pensar e aprofundar sua visão sobre o que está acontecendo. Mas isso, convenhamos... bem, tudo bem, como disse, a intenção não é teorizar, muito menos polemizar – o que, na verdade, já está feito.

Também deve ser considerado – e é esse tipo de reflexão que fica difícil, ou inoportuno, colocar no Face... – que o formato do BlogComCebola, inaugurado para dar suporte ao projeto “Pedras do Caminho”, sobre minhas peregrinações a Santiago de Compostela – ainda que não tenha se esgotado –, parece, talvez só pareça, que já cumpriu sua função ao proporcionar uma trilogia de livros, dois deles impressos e lançados até esta data: “Meu encontro no Caminho de Santiago de Compostela”, em março de 2013, e “Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela”, em abril passado.

Ufa! Tanto trololó e, apesar da foto do alto que diz muito (e que desde 5 de junho, algumas horas depois, já estava disponível no Face...), o que afinal aconteceu com o projeto de fazer este novo Caminho a Santiago de Compostela?

Talvez no Face não tenha ficado totalmente claro aos amigos que, efetivamente, na minha concepção de peregrino, esta viagem não se tratou, strictu sensu, de uma peregrinação – ainda que não queira voltar a essa questão do que deve ser considerado uma peregrinação pelos Caminhos de Santiago. Eis que, nas vezes em que escrevi como peregrino, nas viagens que integraram o projeto “Pedras do Caminho”, não desrespeitei ou muito menos desqualifiquei aquele que chega a Santiago de trem, carro, ônibus ou avião.

Nessas ocasiões defendi a importância de se chegar a Santiago e viver toda a mística que emana da tradição do Apóstolo de Cristo. Agora, contudo, falando não como o que vai a pé, a cavalo ou de bicicleta, pode parecer um tanto demagógico. Tudo bem, receberei bem esta crítica, ou ponderação, pois o questionamento é realmente capaz de gerar diferentes opiniões.

Mas, afinal, O QUE ACONTECEU NESTA VIAGEM?

Bem se você não acessou de 4 a 20 de junho a minha página no Facebook, em www.facebook.com/CebolaFerraz, vou contar o que se sucedeu, mas antes mostro o que deixei registrado naquela mídia, no post de 4 de junho...:

“Chegar a Assisi não foi fácil. Mas a recompensa é enorme. Um pouco, muito pouco de Assisi, o início do nosso Caminho a Santiago de Compostela. Passa na frente, Santiago!”

Além deste minúsculo texto, que relendo considero sucinto demais, algumas fotos e legendas – aliás, fotos e legendas que seguem abaixo:


Detalhe do portal da Basílica di San Francesco.


O Tao e Pax, nos jardins da Basílica di San Francesco.


Via San Paolo.


Tempio di Minerva, na Piazza del Comune: banner divulga candidatura da Província de Perugia à Capital Europeia da Cultura em 2019.


A bela arquitetura do Convento Chiesa Nuova San Francesco Converso.

E só. Mas tanta coisa aconteceu, algumas relevantes, e que mereceriam ser contadas, pois têm a importância do que considero informação; e outras completamente sem importância, ou talvez até sim importantes, pois refletem sentimentos, emoções etc., e não apenas informação, essa mania que persegue alguns jornalistas, como eu, que preferem o factual ao emocional...

Afinal, O QUE ACONTECEU NESTA VIAGEM?

Antes de responder esta pergunta, confira o que abriu o segundo álbum de fotos postado no dia seguinte, 5 de junho, no Face:

“Com disposição de conhecer as “Pedras do Caminho” em Assisi, portando a credencial de peregrino obtida na secretaria da Igreja de Santa Maria Degli Angeli – onde está a Porciúncula! –, caminhamos hoje cerca de 8 quilômetros. Para mim, reencontro; para Sandra, iniciação..., com tudo aquilo que caminhar com fé é possível proporcionar. O trajeto escolhido foi do Eremo Delle Carceri – o oásis de paz e silêncio no Monte Subário, onde Francisco se retirava para rezar – até a Basílica di San Francesco, com passagens por locais monumentais da monumental Assisi.”

E fotos e legendas, conforme abaixo:


No início do dia, um dos muitos cachorros de Assisi, acompanhando a paisagem da janela.


Igreja de Santa Maria Degli Angeli: surpreender-se com a Porciúncula e obter as credenciais de peregrino – fornecidas para o Caminho até Roma, mas que esperamos utilizar para registrar os pontos de nossa travessia até Santiago de Compostela.


A porta principal da Igreja de Santa Maria Degli Angeli.


Sandra encontra Francisco... aliás, um dos muitos encontros do dia!


Pax et Bonum, junto à Igreja de Santa Maria Degli Angeli.


Ingressando no Eremo Delle Carceri...


Vista do Monte Subário, em Eremo Delle Carceri...


Inseto inusitado em Eremo Delle Carceri... Será possível!


Registrando o silêncio em Eremo Delle Carceri...


Descansando com Francisco, em Eremo Delle Carceri...


Orando em Eremo Delle Carceri...


Compartilhando em Eremo Delle Carceri...


Iniciando nos mistérios do Caminho, descendo o Monte Subário...


Reforçando a mágica da peregrinação, no Monte Subário...


Descendo o Monte Subário, usando cajados improvisados, após momentos de reflexão no Eremo Delle Carceri...


Rocca Maggiore: o magnífico castelo medieval construído para defender Assisi...


Na fachada da Igreja do Istituto Serafico Per Sordomuti e Per Ciechi, mensagem do Papa Francisco: “Vivi in Adorazione”.


Rosetão na fachada da Cattedrale San Rufino...


Cruz de São Damião na Basílica di Santa Chiara.


Cripta da Basílica di San Francesco onde se conservam as relíquias do Santo.


Detalhe da urna onde estão as relíquias de San Francesco.


O belíssimo interior da igreja inferior da Basílica di San Francesco.


Altar-mor da igreja inferior da Basílica di San Francesco.


Café ao final da tarde..., iniciando as despedidas de Assisi...

Na segunda postagem, o texto de abertura ficou um pouquinho melhor em relação ao primeiro, assim como as fotos e legendas.

Vamos então ao QUE ACONTECEU NESTA VIAGEM?

Bom, depois de tantas considerações, a postagem neste formato de blog não permite mais texto (terei de fazer uma simulação e se não for possível, terei que fazer “parte I” e “parte II”...). Depois contarei mais detalhes. Por enquanto, acho que o publicado no Face – e neste momento já está naquela mídia toda nossa passagem por Chiusi Della Verna (dia 6), Livorno (7), Gênova (8), Principado de Mônaco (9), Marselha (10), Toulouse (11), Lourdes (12 e 13), Jaca (14) Undués de Lerda (15), Puente la Reina (16), Burgos (17), León (19), O Cebreiro (19) e  Santiago de Compostela (20 a 22)..., o que há de mostrar como foram, em síntese, os 15 dias das 14 etapas da travessia, além dos 3 dias apreciando Santiago de Compostela.

Passa na frente, Francisco! Passa na frente, Santiago!



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h19
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PEDRAS DO CAMINHO

Mais um Caminho a Santiago!

Reprodução Google


De Assis a Santiago: seguindo os passos de Francisco em 1214

A cada dia aumenta minha convicção que a travessia que eu e minha amada Sandra estamos prestes a fazer, em junho, de Assis, na Itália, a Santiago de Compostela, na Espanha, é algo surpreendentemente inédito e, ao mesmo tempo, mais um entre os Caminhos de Santiago já existentes. Ouvi pessoas, peregrinos e também franciscanos, em Santos e em Santiago, e também pesquisei na internet, e posso afirmar com alguma segurança que não há, ou não encontrei, qualquer registro sobre uma eventual rota de peregrinação pelos cerca de 2.500 quilômetros que separam, ou unem, Assis a Santiago.

Nem mesmo neste ano em que se comemora o 8º centenário da peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago, parece ter surgido alguém ou alguma organização, religiosa ou não, com a motivação de traçar ou mesmo realizar a fantástica peregrinação, tal qual o jovem Francisco e seus seguidores teriam feito em 1214. Afinal, se é possível celebrar que Francisco esteve em Santiago de Compostela há 800 anos, é natural que para isso tenha percorrido, muito provavelmente a pé, uma rota de Assis, onde vivia, até Santiago, onde desde 829 o mundo cristão reconhece a existência das relíquias do apóstolo de Cristo, hoje guardadas na cripta da Catedral.

A questão é: qual teria sido este trajeto?

Se a tradição em Espanha admite, como está relatado no trabalho de frei Juan Natalio Saludes Martinez, de 2006, intitulado “Francisco de Asís en las piedras del camino”, que Francisco (5 de julho de 1182 - 3 de outubro de 1226), com cerca de 32 anos, peregrinou e pregou o Evangelho em terras espanholas, neste momento não se sabe, ou pelo menos não há – ou ainda não encontrei – registros de sua passagem por Itália e França a caminho de Santiago. Ou seja, como teria feito o trecho de Assis a Somport ou de Assis a Saint Jean Pied de Port – as duas travessias dos Pirineus por onde Francisco deve ter entrado na Espanha.

Fixo-me nos trechos de Itália e França, pois, como demonstra o trabalho de Frei Natalio (leia abaixo o post de 10 de março passado), a tradição é poderosa em apontar a presença de Francisco em diferentes pueblos de Espanha ao longo e em rotas tangenciais do que se convencionou chamar de Caminho Francês (de forma emblemática iniciado em Saint Jean Pied de Port) e de Caminho Aragonês, que compreende o percurso entre Somport a Obanos, pouco antes de Puente la Reina, quando este se encontra com o Caminho Francês e juntos seguem a Santiago.

Meu maior desafio, portanto, foi ponderar o que poderia ter sido uma rota viável naquele início de século XIII, por terras de Itália e França, especial de Assis a Somport, pois aceito a tradição que Francisco esteve nos pueblos de Undués de Lerda e Sangüesa no Caminho Aragonês, o que reforça a tese de sua entrada em Espanha por Somport e não por Saint Jean Pied de Port. Ademais, deve ser considerada a importância política e religiosa de Jaca àquela época, capital do Reino de Aragão entre 1077 e 1096, e a existência do Monastério de San Juan de la Peña (na rota tangencial do Caminho Aragonês), cuja construção do claustro teria sido finalizada no começo do século XII e que carrega a tradição de ter abrigado o Santo Graal.

Embora possa assegurar que hoje já me sinta no Caminho, acompanhado de minha Sandra e tendo Santiago a nos guiar, o embarque para Roma, com escala em Madri, acontecerá efetivamente a menos de um mês, já contando os dias, em 3 de junho. Da capital italiana, seguiremos para Assis, localizada no lado ocidental do Monte Subásio, uma montanha da cadeia dos Apeninos, na região da Úmbria, Província de Perúgia, onde permaneceremos duas noites.

Afinal, foi em Assis que Francisco nasceu em 5 de julho de 1182, filho de burgueses, o comerciante Pietro di Bernadone dei Moriconi, casado com Pica Bourlemont, cuja família tinha raízes francesas. Embora tenha se notabilizado como Francisco, foi batizado como Giovanni di Pietro di Bernardone (João, em homenagem a São João Batista), na hoje Catedral de Assis, dedicada a São Rufino – aliás, a mesma igreja onde em 1193 foi batizada Santa Clara. A origem do nome “Francesco” é incerto, mas talvez seja em referência a “francês”, como era chamado pelo pai.

Há muito a ver, conhecer e aprender em Assis, onde Francisco viveu intensamente e, em 3 de outubro de 1226, veio a falecer. Suas relíquias estão guardadas nesta cidade, na cripta da Basílica de São Francisco.

Como dito inicialmente, o percurso de Assis a Santiago de Compostela soma cerca de 2.500 quilômetros. Para compatilizar a travessia com o tempo que temos disponível em junho traçei um roteiro com 14 etapas, utilizando trem em sua maior parte, mas prevendo alguns trechos a pé – não só para reafirmar minha fé na peregrinação a Santiago, mas também com a pretensão de iniciar Sandra na mística do Caminho. Se projetasse realizar uma peregrinação a pé, na acepção correta da palavra, seriam necessários de 90 a 100 dias; isto se fosse possível manter uma média de 27 a 25 quilômetros por dia. Talvez o tempo que Francisco levou para concluir sua peregrinação. De carro, hoje é possível realizar a rota em 26 horas!

Nossa primeira etapa será de Assis a Chiusi Della Verna, na Província de Arezzo – onde muito próximo está localizado o Santuário do Monte Alverne, pertencente à Ordem Franciscana, onde, segundo a tradição, Francisco recebeu os estigmas, as chagas de Cristo em seu corpo, em 17 de setembro de 1224. Este trecho tem 114 quilômetros.

Como uma peregrinação, em cada cidade permaneceremos apenas uma noite, retomando o Caminho na manhã seguinte – com exceção do magnífico Santuário de Lourdes, onde ficaremos duas noites.

De Chiusi Della Verna seguiremos para Livorno, 205 quilômetros.

De Livorno a Gênova, 177 quilômetros.

De Gênova a Mônaco, 182 quilômetros.

De Mônaco a Marselha, 228 quilômetros.

Marselha a Toulouse – o trecho mais longo de toda a travessia –, 403 quilômetros.

Toulouse a Lourdes, 173 quilômetros.

Após duas noites em Lourdes seguiremos para Jaca, 128 quilômetros.

Jaca a Undués de Lerda, 118 quilômetros.

Undués de Lerda a Puente la Reina, 67 quilômetros.

Puente la Reina a Burgos, 177 quilômetros.

Burgos a León, 177 quilômetros.

León a O Cebreiro, 157 quilômetros.

O Cebreiro a Santiago, 161 quilômetros.

Ao final, com base nas quilometragens informadas pelo Google, teremos percorrido 2.467 quilômetros.

No papel, a travessia apresenta-se perfeitamente viável e é bem provável que também seja possível a pé, o que somente poderia ser confirmado no dia a dia por quem se dispor a fazê-la – ou por quem já a fez, se surgir alguém que diga já ter feito este Caminho...

Ao longo dessas 14 etapas poderemos até coletar informaçoes sobre a viabilidade da peregrinação a pé, mas com certeza nosso foco principal, entre tantos que a travessia será capaz de proporcionar, é pesquisar e documentar a marca ou a tradição local da presença de Francisco, seja efetivamente em 1214 ou alguma referência anterior ou posterior a este ano. E não só pesquisar e documentar, mas também compartilhar e intercambiar informações.

Com este ânimo, teremos grande satisfação em tê-lo em nossa companhia, seja neste blog, seja no Facebook.

Passa na frente, Santiago!



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h09
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PEDRAS DO CAMINHO

Santiago te espera. Buen Camino! - Parte II

Leandro Ayres e Alexandre Malanima


Sandra Netto, Lucimar Pergolizzi Oliveira e Marcelo Mathias

Leia o texto completo no post anterior, denominado “Santiago te espera. Buen Camino!”. Abaixo, mais fotos clicadas por Leandro Ayres e seu parceiro Alexandre Malanima, no lançamento do segundo livro da trilogia Pedras do Caminho: "Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela”, realizado na Casa do Trem Bélico, no Centro Histórico de Santos.

O interessado em adquirir o livro “Pedras do Caminho II” pode fazê-lo na Realejo Livros, na Avenida Marechal Deodoro, 2, Gonzaga, e na Click Mania, na loja 34 do Centro de Compras Miramar, na Avenida Epitácio Pessoa, 62, Boqueirão – onde, na praça de convivência, a exposição de fotos "Pedras do Caminho II" permanecerá até 31 de maio, ou pelo e-mail titan.com@uol.com.br

Buen Camino!


Hilda Prado Araújo, Ercília Pouças, Rosamar Rosário e Erre Fortes


Carmen Elídia Salci e Rosário Romano


José Paulo Cortez, de São Paulo


Casal peregrino: Sérgio Prieto e Gisele Garófalo Augusto


Amigo e colega de turma da Faculdade de Direito, Aciole Gomes Ferreira Jr., e a esposa Cláudia


Fotógrafa Isabel Carvalhaes: tempo da Revista Lazer, Jornal de Santos...


Mano bicigrino Ariomar Ferreira: preparando–se para o Caminho


Irmão Marinho Aloha, com a esposa Cássia e as filhas Bruna e Amanda


Amigo, irmão, minha inspiração ao Caminho de Santiago, José Roberto Lisbôa Jr.: eterno agradecimento!


Edna Martins Alves, da ClickMania: obrigado pelo apoio!


Murilo Netto Gonçalves, da Secretaria de Cultura de Santos: toda atenção ao evento


Tárcia Trivinho: sonhando com o Caminho


Eduardo Lopes, secretário municipal de Assuntos Portuários e Marítimos


Com amigos da Casa da Esperança de Santos: Paulo Orozimbo Robillard de Marigny, Cristina Cavalleiro e Hélio Cardoso


Nathalie Santalla, simpática filha de D. Manoel Santalla Montoto, Cônsul Honorário da Espanha em Santos - que estava no Caminho!


Soraia Miguel e o pai Samuel: cadê Belinha?!?!



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h46
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PEDRAS DO CAMINHO

Santiago te espera. Buen Camino!

Luiz Carlos Ferraz


Fachada da Casa do Trem Bélico, em Santos: palco de “Pedras do Caminho II”

Lançamento do segundo livro da trilogia Pedras do Caminho – “Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela” – ocorreu em clima de alto astral, com a presença de amigos, peregrinos, parceiros, e também pessoas que não conhecia, que foram sensibilizadas pela divulgação e tiveram a oportunidade de se surpreender com a mística do Caminho de Santiago.

O encontro aconteceu quarta-feira 16 de abril, em plena Semana Santa, na Casa do Trem Bélico, o prédio público mais antigo de Santos, no Centro Histórico da cidade. Foram ocupados três ambientes no andar térreo da pequena fortaleza: na sala à esquerda, na parede de pedra, foi projetado vídeo do Caminho; na sala central a exposição de fotos, com as cores do Caminho; e no espaço à direta, que se interliga com o jardim, recebi os amigos para agradecer a presença, fazer dedicatória no exemplar e, como sempre, desejar “Buen Camino!”.

Evento simples, como simples é o Caminho de Santiago. Amizade, solidariedade, alegria, descontração e muita satisfação em trocar energia e buscar novos conhecimentos – uma busca, aliás, que se revela interminável e exige, apenas, disposição. Disposição de peregrino!

O encontro também foi marcado por ação social, pois metade da renda obtida com a venda dos livros foi doada para a Casa da Esperança de Santos, uma instituição exemplar mantida pelo Rotary Club de Santos, e que é presidida pelo amigo engenheiro Roberto Luiz Barroso.

Confira abaixo algumas das fotos clicadas por Leandro Ayres – que selecionou e tratou as imagens do livro, além de ser o curador da exposição -, e seu parceiro Alexandre Malanima.

O interessado em adquirir o livro “Pedras do Caminho II” pode fazê-lo na Realejo Livros, na Avenida Marechal Deodoro, 2, Gonzaga, e na Click Mania, na loja 34 do Centro de Compras Miramar, na Avenida Epitácio Pessoa, 62, Boqueirão – onde, na praça de convivência, a exposição de fotos permanecerá até o final de maio. Ou ainda pedindo pelo e-mail titan.com@uol.com.br

Buen Camino!


Dedicatórias aos amigos que foram ao lançamento de “Pedras do Caminho II”: Santiago te espera!


Dois amigos, peregrino Leandro Ayres e Nelson Tucci: muito me ajudaram na lapidação do segundo livro da trilogia. Lê, escolhendo e tratando as fotos feitas na peregrinação, e Nelsão, corrigindo e penteando o texto final


Com o amigo, atuante rotariano, Roberto Luiz Barroso Filho


Peregrino Edson Gusmão: obrigado pela presença!


No magnífico prédio da Casa do Trem Bélico, momentos de amizade, solidariedade, contemplação - podendo identificar, dr. Roberto Luiz Barroso, presidente da Casa da Esperança, confabulando com a jornalista Sandra Netto


Mariana e Iria, da Casa da Esperança de Santos: parte da renda da venda dos livros foi destinada à tradicional entidade, que registrou os presentes e cuidou da contabilidade do evento. Muito Obrigado!


Brindes aos presentes, o convite ao evento e o marcador de página...


Suzana e o pai Valdemar Vilela: muito obrigado pelo espírito peregrino!


Com Celisa Angrimani S.G. Laporte: lembranças a nossa amiga em comum, Adelina Silveira Alcântara Machado


Exposição de fotos: as cores do Caminho de Santiago


O autor e um dos painéis da exposição: fim da Missa do Peregrino


Amiga Mareli: programando peregrinar a Santiago de Compostela...


Com Júlio Zilli Jr.: big TFA!


Presença de William Mota Ventura, santista roxo


Com dr. Roberto Luiz Barroso: honra em colaborar com a Casa da Esperança de Santos


Casal amigo, Antonio Marcos Veiga Conde e Regina


Professor Ibrahim Tauil: brilhante lutador das causas ambientais


Junto à querida amiga, Léa Geiger Xavier e Isabel, que mora na Itália

Revisor de “Pedras do Caminho II” - aliás, também do primeiro livro da trilogia –, o jornalista Nelson Tucci esteve presente ao encontro e, no dia seguinte, nos brindou com o texto abaixo, publicado originalmente em seu blog http://nelsontucci.blogspot.com.br/ Obrigado. Santiago te espera. Buen Camino!

Dnum Ludovicum Carolum Ferraz – O Sentido do Perdão

“Então lhe disse o Pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Era, porém, necessário que houvesse banquete e festim, pois que este teu irmão era morto, e reviveu. Tinha-se perdido e achou-se”. Parábola do Filho Pródigo, em Lucas 15:11-32.

Não, não era lúgubre o lugar. É histórico. Colonial ou Medieval ? Colonial. Reflexivo ou introspectivo? Reflexivo. A meia luz era adequada à projeção do filme e o clima que se criou serviu coincidentemente – coincidência mesmo, perguntaria o peregrino??? – para que todos quantos estivessem no lançamento do livro “Pedras do Caminho II – Sentido do Perdão” pudessem sentir um pouco, debaixo dos pés plantados em pedras brutas no Museu “Casa do Trem Bélico”, uma ideia do que é a caminhada a Santiago de Compostela.

Sentir a caminhada, claro, é mera força de expressão, pois só quem a idealiza, planeja e a materializa é que pode dizer. O amigo santista, que saiu Luiz Carlos e voltou Ludovicum Carolum que o diga... Tive o privilégio de estar com o peregrino neste lançamento. Confesso que conversar, ler o livro todo, reler, revisar, palpitar, pode nos inocular a pretensão de que entendemos a coisa.

Não é verdade. Assistir ao filme que o próprio Luiz - já “meio Ludovicum” àquela altura – fez, também se estará longe de saber o que é o Caminho, mas certamente ajuda-nos muito na percepção. Quantas e quantas vezes o peregrino deve ter indagado: “Mas o que é o Perdão, afinal?” e... imagino ainda... quantas outras questões devem ter-lhe passado pela cabeça (ou pela alma...) entremeadas pela solidão, euforia, cansaço, orgulho, reconhecimento, questionamentos...

O fato é que o agora Ludovicum Carolum ( que para os amigos ainda é o sempre bom e nada velho Luishhhh ) cumpriu a missão que tinha. Fechou este ciclo com a tarde/noite de autógrafos. Amigos, sim, muitos amigos foram abraçá-lo e pedir autógrafo. Antes, visitamos a tal Casa do Trem Bélico – um convite à História do Brasil da bela Santos dos valentes marinheiros e soldados em defesa das novas terras e da construção de um novo país – e mergulhamos no clima. Santos, Santiago... Santiago, Santos... Santos, Santiago... tudo isso remete ao céu e à terra.

Ao pleno e ao parcial, ao pronto e aquele ainda por fazer. Ao simples e ao sofisticado, ao natural e ao exótico, ao excêntrico. Afinal, a vida é desse jeito mesmo. Acho até que por brincadeira, de vez em quando algum anjo maroto embaralha todas as cartas do nosso roteiro só pra ver até onde a gente consegue ir sem se perder. Ou desistir. Cada qual vai ter de fazer o seu caminho. Aquele que a gente só aprende a fazer caminhando.

Ao amigo Ludovicum o meu forte abraço e agradecimento pela oportunidade de compartilhar esta fantástica experiência.

Sim, até logo. Afinal, se Deus quiser e com grande apoio de Maria e Santiago, em 2015 será lançado o terceiro e último livro da trilogia "Pedras do Caminho". Buen Camino!


Bem-vindo à Casa do Trem Bélico, uma magnífica construção colonial, o edifício público mais antigo de Santos, encravado no Centro Histórico


Na parede da Casa do Trem Bélico, projeção do vídeo mostrou peregrinação no Caminho de Santiago de Compostela, com o olhar atento de Tarcia Trivinho


Dedicatória no livro de Nathalie, que veio representando o pai, cônsul honorário de Espanha, D. Manoel Santalla Montoto - que está no Caminho de Santiago...-, e na fila os queridos amigos, Soraia e o pai Samuel


Até logo: em 2015, o terceiro livro da trilogia “Pedras do Caminho”



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h14
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PEDRAS DO CAMINHO

Livro foca sentido do perdão no Caminho de Santiago

"Pedras do Caminho II”: tarde de autógrafos será em 16 de abril, em Santos

O segundo livro da trilogia “Pedras do Caminho”, de minha autoria, será apresentado no próximo dia 16 de abril, das 16 às 20 horas, na Casa do Trem Bélico, no Centro Histórico de Santos/SP. Inaugurada com “Pedras do Caminho, Meu Encontro no Caminho de Santiago de Compostela”, lançado em março do ano passado, a trilogia aborda o fenômeno das peregrinações pelos Caminhos que levam a Santiago de Compostela, capital da Galícia, na Espanha – e tem como base os posts publicados neste blog desde 2009.

Enquanto o primeiro livro envolveu a peregrinação feita em 2009 pelo Caminho Francês (800 quilômetros em 29 dias), "Pedras do Caminho II, Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela” é baseado na peregrinação feita em 2010 pelo Caminho Português (240 quilômetros em 10 dias) – Ano Santo Compostelado, ou Ano Jacobeo, quando o Dia de Santiago, 25 de julho, cai num domingo, e ao peregrino é concedida indulgência plenária, como a doutrina católica denomina o perdão dos pecados!

Embora mais curto, o Caminho Português não é fácil, ou mais fácil que o Francês. As diferenças são naturais e se explicam, não só pela magia do Ano Santo (o próximo será em 2021), mas pela constatação de que cada Caminho é um Caminho, seja pela rota escolhida, seja por quem se dispõe a enfrentá-lo e enfrentar-se; pois as variáveis são muitas e imponderáveis.

O evento, que inclui exposição de fotos da peregrinação, é aberto ao público e acontecerá num prédio emblemático – o mais antigo edifício público da cidade de Santos –, localizado na Rua Tiro Onze, 11. Para quem conhece o Centro Histórico o acesso não é difícil: vindo da Praça Mauá, onde se localiza a Prefeitura, basta atravessar a Praça da Alfândega, caminhando em direção ao Outeiro de Santa Catarina (onde nasceu Santos!) e dobrar na primeira rua à esquerda, sentido cais.

Para quem vier de carro, é possível seguir o mesmo roteiro ou evitar o centrão da cidade vindo pela Rua Brás Cubas. Além do estacionamento na própria Rua Tiro Onze, que será destinado aos participantes do evento, está sendo pleiteada a possibilidade de se utilizar o amplo estacionamento do Outeiro de Santa Catarina, cuja responsabilidade é da Fundação Arquivo e Memória de Santos. Como a Prefeitura e a entidade colaboram com o evento, creio que não haverá problemas.

Outra opção interessante é chegar de bondinho. No dia do evento, quarta-feira, a linha turística tem saídas da Praça Mauá de hora em hora. Como o evento acontece a partir das 16 horas, é possível programar o uso do bondinho nos horários das 15 horas (chegue mais cedo e curta o belo acervo do Museu da Casa do Trem...), 16 e 17 horas – o último horário!

Neste segundo livro da trilogia, além de revelar aspectos da famosa rota de peregrinação cristã, proponho uma reflexão sobre o ato de perdoar e ser perdoado. Para isso, cito a inspiração recebida na missa do peregrino, ao final do Caminho em 2010, durante a homilia feita pelo arcebispo de Santiago, Dom Julián Barrio Barrio. Disse o religioso que muitas pessoas têm a convicção que não praticam pecado, e portando não precisariam pedir ou receber perdão, pois se consideram bom filho, pai, marido, amigo, que não molestam e nada de ruim fazem a quem quer que seja. Logo em seguida, questionou: “Mas, será que estão fazendo tudo de bom que poderiam e que são capazes?”.

Inicialmente relatada neste blog, a peregrinação (realizada de 6 a 15 de junho) é detalhada com textos inéditos, referências ao perdão em diferentes religiões e muitas fotos, revelando a mística do Caminho de Santiago como um desafio possível a qualquer pessoa, seja por aventura, turismo, ou devoção ao Apóstolo. Afinal, na cripta da Catedral de Santiago de Compostela estão guardadas as relíquias do Apóstolo de Cristo.

Como jornalista, procuro utilizar a técnica de reportagem, que desenvolvo por meio de observações, opiniões, e entrevistas com personagens do Caminho: peregrinos, hospitaleiros, religiosos, moradores das aldeias e pueblos. Ou seja, meu foco narrativo é de personagem e testemunha.

O lançamento do livro é uma realização da Titan Comunicação, com apoio de empresas amigas – Pet Memorial, Apply Auditores Associados, Clínica Veterinária Filetti, Ferreira & Cheganças Materiais para Construções, Le Ayres Fotografia Profissional, Click Mania Foto Estúdio Design, Demar Gráfica –, da Prefeitura de Santos e da Fundação Arquivo e Memória de Santos.

Também conto com o apoio fundamental do amigo Roberto Luiz Barroso, presidente da Casa da Esperança de Santos, a bela obra social que o Rotary Club de Santos desenvolve há 57 anos. Nesse sentido, da mesma forma que na ocasião do primeiro livro da trilogia, metade da renda obtida com a venda do livro no lançamento será doada à preciosa entidade, que atende gratuitamente 270 crianças/adolescentes portadores de paralisia cerebral.

Sobre Santiago de Compostela, nunca é demais frisar... Conta a tradição que, após pregar na Espanha, Santiago regressou à Palestina e foi decapitado por ordem do Rei Herodes (41-44 d.C). Seu corpo foi colocado numa barca de pedra e, milagrosamente, viajou da Palestina à Galícia, chegando à costa em Iria Flavia, atual Padrón – no Caminho Português. O corpo foi enterrado e mais tarde encontrado e declarado autêntico pelo bispo Teodomiro. No local, por determinação de Afonso II, Rei de Astúrias, foi construída uma igreja, dando origem à cidade de Santiago de Compostela, e ao fenômeno das peregrinações.

Ficha Técnica

. Título: “Pedras do Caminho II, Sentido do Perdão no Caminho de Santiago de Compostela”.

. Autor: Luiz Carlos Ferraz.

. Editora: Titan Comunicação Ltda.

. ISBN: 978-85-910810-1-1

. Formato: 21 cm x 15 cm.

. Número de Páginas: 136.

. Preço: R$ 30,00.

. O livro estará à venda em livrarias e poderá ser solicitado pelo e-mail titan.com@uol.com.br, telefones (13) 3284.2373 / 99147.6668.

Eu no Caminho Português: reflexões sobre o perdão


Peregrinos no Caminho Português, já no trecho da Galícia...


Confessionário na Catedral de Santiago de Compostela


Fim da missa do peregrino: o perdão pelo que não faço...

O autor...

Para quem ainda não me conhece, tenho 58 anos e sou natural de Santos, no Litoral do Estado de São Paulo, onde exerço as atividades de jornalista e advogado. Sou diretor-editor da Titan Comunicação, responsável pela edição do Perspectiva. Já atuei em vários jornais do Estado de São Paulo, entre os quais, Jornal Cidade de Santos e Diário do Grande ABC. Além dos Caminhos Francês e Português, em 2012 peregrinei o Caminho Aragonês, de Somport a Puente la Reina – cerca de 180 quilômetros, em 8 dias. Em junho do ano passado, peregrinei o Caminho Sanabrês, a partir de Zamora até Santiago de Compostela – um trajeto de 420 quilômetros, que percorri em 16 dias. Em junho próximo, em função das comemorações do 8º Centenário da peregrinação de Francisco, de Assis a Santiago de Compostela, farei o percurso de mais de 2.200 quilômetros, passando por cidades e pueblos que registram “San Francisco de Asís estuvo aqui”.

Buen Camino!



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 16h42
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PEDRAS DO CAMINHO

História e lenda de Francisco no Caminho de Santiago - Parte I

Frei Natalio: inspiração ao fazer o Caminho Francês...

Frei Juan Natalio Saludes Martinez, da Ordem dos Frades Menores (OFM) de Santiago de Compostela, é um estudioso da instituição e incentivador da celebração do 8º Centenário da peregrinação de Francisco de Assis a Santiago de Compostela, ocorrida em 1214. Estou certo que ele não é uma unanimidade, pois tive a oportunidade de falar com mais de um frei franciscano sobre a famosa peregrinação, e estes, talvez mais “pragmáticos”, não estão certos de que ela tenha acontecido. Um deles me disse que a peregrinação seria um dos famosos “Fioretti di San Francesco”, ou Florilégio de São Francisco – escritos do século XIV sobre passagens relatadas por discípulos do Santo, que mesclam lendas e fatos verídicos. Ou seja, é acreditar... ou acreditar, exigindo para isso uma boa dose de fé.

Frei Natalio, pela qualidade da pesquisa que realiza há alguns anos – sintetizada num minucioso artigo de 2006, o qual tive acesso, intitulado “Francisco de Asís en las piedras del camino” –, acredita sim que Francisco (5 de julho de 1182 - 3 de outubro de 1226), com cerca de 32 anos, peregrinou em 1214 o Caminho de Santiago de Compostela, tenha sido para pregar o Evangelho e manifestar sua disposição de “reconstruir a Igreja”, divulgar os princípios da OFM, enfim, celebrar as relíquias de Apóstolo Santiago!

“O objetivo deste trabalho é mais um grito de socorro que uma apresentação de resultados”, afirmou frei Natalio, na abertura do artigo, ao revelar que foi levado à pesquisa quando peregrinava o Caminho Francês, em 2005. Em sua passagem por Santo Domingo de la Calzada encontrou uma placa de madeira com a inscrição: "São Francisco esteve aqui”.

Foi uma inspiração: “Eu, que achava que eram tradições esquecidas, provou-se ser tradição viva, transmitida pelo povo de cada lugar. Nesta busca sigo agora, pedindo ajuda para conseguir identificar o itinerário que Francisco teria feito, em 1214, de Assis a Compostela”.

De mim, tudo que apurei em minhas pesquisas, aprofundadas em Santiago de Compostela quando terminei a peregrinação pelo Caminho Sanabrês, em junho de 2013, está relatado neste blog, em posts de 26 de junho de 2013, “Qual a rota de Francisco a Santiago?”; 30 de junho de 2013, “Francisco e o Caminho Aragonês!”; e em 29 de julho de 2013, “Viagem a Assis inicia celebrações”. Aliás, muitas das informações que obtive, copiando os painéis que decoram a Igreja de São Francisco em Santiago, hoje sei que foram retiradas da pesquisa do frei Natalio.

Pela qualidade deste trabalho, passei a adotá-la como guia para elaborar o meu projeto do que teria sido o itinerário de Francisco de Assis a Santiago de Compostela. Uma viagem que farei não totalmente a pé, pois são mais de 2.200 quilômetros de distância!, mas utilizando ônibus, trem, carro e minhas pernas..., em junho próximo, junto com minha esposa Sandra. Enviei o plano de nossa viagem ao frei Natalio e fiquei encantado com seu entusiasmo:

“Hola hermano! Te felicito! Cuanta envidia poder ir a hacer este camino! Yo añadiría el Cebreiro y Samos, como puntos donde seguramente San Francisco se refugió. Si son puntos donde vs a hacer una crónica y nos conectaras tu diario para seguir caminando contigo. Te aprece? Tenme informado! Lo pondré como noticia a mis hermanos en nuestra web! Mil graciaaaaaaaaaaaaaaas”.

Comemorei os votos com Sandra e ambos estamos felizes em poder contar com o olhar de frei Natalio – e, claro, de todos os familiares e amigos, brasileiros e de países irmãos, peregrinos de coração, que estarão nos acompanhando neste blog e pelo Face.

Neste post minha pretensão é apresentar alguns trechos do trabalho do amigo franciscano, para, por meio do compartilhamento, ajudá-lo em seu objetivo de aprimorar, cada vez mais, qual teria sido a rota de Francisco no início do século XIII – considerando as dificuldades de transporte daquela época e o fato de que muitas cidades talvez hoje tenham sido extintas, enquanto outras, agora centros urbanos, sequer existissem...

Diz o autor: “O objetivo do meu trabalho, talvez sempre germinando, apesar de levar vários anos com ele, é estudar provas documentais e iconográficas dos passos de São Francisco de Assis pela Espanha, que dão origem a várias tradições locais, sem julgar a veracidade de todas elas, mas considerando que cada uma delas é transmissora de algum fato realmente acontecido”.

Frei Natalio cita autores que elaboraram trabalhos anteriormente, dos quais utilizou dados: Frei Atanasio López, que investigou o assunto por ocasião do sétimo centenário da vinda de Francisco a Espanha, em 1914; Frei Manuel Castro, que continuou o estudo histórico sobre a Província Franciscana de Santiago; Frei José García Oro, que centraliza e situa o tema na historicidade das origens franciscanas na Espanha; Frei Victorino Facchinetti, que estudou o tema aplicado à arte.

Frei Natalio apresenta o contexto histórico da peregrinação de Francisco, frisando que a reconquista cristã da Península Ibérica era um tema conhecido e muito falado na Itália. Ele recorda que os reis da Espanha, liderados por Alfonso VIII, de Castela, se dirigiram ao Papa Inocêncio III para pedir sua bênção em uma cruzada contra o emir Muhámmad Al-Nasir, conhecido pelos cristãos como “Miramamolín” (Amir Al Mu'minin, Príncipe da Crentes), quarto califa da dinastia almóada de Marrocos. Os cristãos venceram a batalha de Las Navas de Tolosa em 16 de julho de 1212. Muhámmad Al-Nasir se exilou em Rabat, abdicando a seu filho Yusuf-Al-Mustansir.

Em 1212 o arcebispo de Toledo, Ximénez de Rada, foi a Roma pedir ao Papa a aprovação de uma Cruzada no Ocidente contra os almóadas, para os quais ele mesmo pregou na Itália, França e Alemanha. A presença almóada na Espanha foi exposta na Europa como uma ameaça para toda a Cristandade. Os contemporâneos compararam a Cruzada do Oriente com a do Ocidente, exortando os cruzados europeus a virem para a Espanha, “antes que seja tarde”.

O Papa Inocêncio III estimulou, mediante uma bula, aos Reis de Espanha para que se unissem para a Cruzada, concedendo indulgências a quantos europeus acudissem a Espanha para esta Cruzada, e ameaçando com excomunhão quem quebrar a trégua com Castela causando brigas entre os reinos cristãos, fazendo fracassar a unidade contra os almóadas. As Ordens de Calatrava, de Santiago, do Templo e de São João também se envolveram nesta cruzada. Em torno de Pentecostes, em 1212, o Papa Inocêncio III, impôs em Roma um jejum de três dias para rezar pela vitória dos cristãos na Espanha.

Francisco, portanto, conhecia esta empresa cristã, tanto quanto as Cruzadas de Oriente e planejou sua visita pacífica ao califa Miramamolín, com a mesma convicção com que uns meses antes queria partir para a Síria e, depois do Capítulo de 1219, foi finalmente até os muçulmanos, neste caso para visitar o Sultão do Egito, Melek el Kamel, neto de Saladino, durante a Quinta Cruzada.

Frisa o autor: Se prestarmos atenção à tradição dos lugares que alegam ter contado com sua presença, Francisco pode ter se dirigido a Espanha, em direção a Sevilha, passando por Soria, Ayllón, Ciudad Rodrigo e, em algum lugar deste itinerário, compreendeu a impossibilidade de levar a cabo seu projeto. Os documentos dizem que uma doença o impediu. Francisco, de Ciudad Rodrigo – desde 1175 o bispado sufragânea de Santiago de Compostela –, teria se encaminhado a Compostela por devoção a Santiago, como afirmam os documentos do século XIV, para tomar o caminho conhecido da cristandade. A fama de santidade que Francisco havia ganho durante a sua presença nos reinos cristãos teria permitido contar, em sua passagem pelo Caminho de Santiago, com a recepção favorável das populações, mosteiros e governantes.

Em Vida I, de Celano, datada de 1228, biografia com a data mais próxima da morte do Santo (1226), sem a emoção que o tempo faz com os santos, conta que Francisco viajou para a Espanha, cujos objetivos não alcança devido à doença. Diz ele: "Pouco depois (de fracassar em seu propósito de ir à Síria para pregar o Evangelho aos muçulmanos), ele foi para o Marrocos para pregar o Evangelho a Miramamolín e seus correligionários. Tal era a veemência do desejo que o movia, que por vezes deixava para trás seu companheiro de viagem e não afrouxava, ébrio de espírito, até cumprir seu desejo. Mas louvado seja o bom Deus, que era bom e por sua bondade, uma vez na Espanha, para evitar que continuasse adiante, lhe mandou uma doença que o fez voltar seu caminho”.

A lenda maior de São Buenaventura, biografia quer é a oficial e definitiva sobre São Francisco, submetida ao Capítulo Geral da Ordem em Paris, em 1266, mais institucional do que objetivamente histórica, amplia os dados sobre esta viagem: Francisco caminha para Compostela, acompanhado de Bernardo de Quintevalle, seu primeiro companheiro a abandonar riquezas e honras por uma vida de pobreza e busca de Deus. Como Celano, nos diz que Francisco não chegou a terra dos sarracenos por causa de uma doença.

O Tratado dos Milagres, escrito entre 1250-1253, fornece evidências da presença de São Francisco na Espanha e conta certos milagres. São milagres ocorridos em "seu retorno da Espanha" fazendo o regresso do Caminho de Santiago

São os documentos posteriores ao século XIII – Actus Beati Francisci, os Fiorettis e a Crônica da XXIV Generais – que abundam em ecos históricos sobre a passagem de Francisco por terras catalãs e navarras. Documentos que apresentam a estadia de Francisco em Santiago como o momento em que se converte em fundador, recebendo de Deus o conhecimento de que sua Ordem há de se instalar em conventos estáveis.

O que dificulta a credibilidade é o fato de que os historiadores do século XIII, que narram outras missões dos primeiros franciscanos, não mencionam a viagem de Francisco a Espanha, tais como Jordán de Giano, Thomás de Ecleston, Juan de Piancarpino e Salimbene de Parma.

Atanásio Lopez situa a viagem de Francisco depois da Páscoa de 1213, quando ele recebe a doação de Monte Alverne, e novembro de 1215, data em que participou do IV Concílio de Latrão. García Oro a restringe aos meses de maio a outubro de 1214, o que tornaria muito difícil aceitar uma grande viagem missionária ou fundadora de Francisco de Assis por todos os lugares que afirmam hoje haver contado com a sua presença.

Enfatiza o frei Natalio que deve ser considerado que a peregrinação jacobea foi um projeto da primeira geração franciscana em seu programa de expansão e do programa do Governo da igreja, que necessitava de homens fiéis e santos para combater as heresias. Também Santa Clara, de acordo com o testemunho de Bonna de Guelfuccio em seu processo de canonização, encarregou-a de visitar a Igreja de Santiago.

O próprio Francisco incentivou entre seus primeiros irmãos a peregrinação jacobea como itinerário de expansão. Desde o primeiro momento a Ordem programa missões e irmãos para tomar esta direção. Uma primeira expedição teria sido em 1217, sobre o comando de Bernardo de Quintavalle. Webster diz que houve grupos de monges, antes da fundação dos mosteiros mais importantes, que se estabeleceram na Catalunha e em outros lugares, ou se somaram às fundações que estavam ocorrendo.

Em 1219 Juan Parente lidera uma expedição de 100 frades, conforme encomendado por um Capítulo Geral celebrado neste ano e presidido por Francisco de Assis. Frei Juan Parente é o primeiro Provincial de Espanha e mais tarde Ministro Geral em 1227. A partir da década de 1220 surge, em primeiro lugar, toda uma rede de mosteiros localizados em locais estratégicos do Caminho de Santiago, e mais tarde em outras cidades. O que a princípio tinha sido uma presença missionária, motivado pelo zelo franciscano de converter os muçulmanos e os albigenses e promover entre os cristãos uma vida simples e uma fé verdadeira, em breve começará a ser uma presença estável em torno de aldeias urbanas, que requer dos protocolos canônicos autorização das autoridades, mediante apresentando as credenciais apropriadas; e com apoio e incentivo do Sumo Pontífice.

Diz Frei Natalio: No início da fundação da Ordem, quando ainda eram poucos os irmãos e os conventos não haviam se estabelecido, São Francisco foi, por devoção, a Santiago de Galícia, levando consigo alguns irmãos. Chegando lá, se falavam durante a noite em oração na igreja de Santiago, quando foi revelado por Deus a Francisco que teria que fundar muitos mosteiros em todo o mundo, uma vez que a Ordem havia de se expandir e crescer com uma grande multidão de irmãos. Esta revelação moveu Francisco a fundar conventos naquelas terras.

Outro tom muito mais firme tomará o discurso a partir da certeza da presença de Francisco, em vários lugares que dizem "San Francisco de Asís estuvo aquí". É, sem dúvida, uma tradição tão forte merece ser levado muito a sério.

 

Leia abaixo a Parte II.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h58
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PEDRAS DO CAMINHO

História e lenda de Francisco no Caminho de Santiago - Parte II

Marco no início do Caminho Aragonês, em Somport, Pirineus: por aqui Francisco teria entrado na Espanha

Explica frei Natalio que a linha que une os lugares cujas tradições poderiam ser consideradas mais fundamentais forma uma viagem de ida e volta, que entraria por Navarra ou pelo Caminho Aragonês e terminaria em Barcelona. Abaixo os pontos onde há vestígios dos passos de Francisco no Caminho de Santiago de Compostela.

Undués de Lerda

Neste lugar do Caminho Aragonês a população conversa na memória que São Francisco se hospedou numa casa na esquina Noroeste de um cruzamento de caminhos, saindo para Sangüesa.

Rocaforte – Sangüesa

A presença de São Francisco em Rocaforte, no Caminho Aragonês, é estudada pelos Capuchinhos de Sangüesa, conforme trabalho do frei Lucio Aranguren. Rocaforte foi a “Civitas Sancosa” dos romanos. Em 1057 o rei Sancho IV, de Peñalén, doou a seu tio Ramiro, rei de Aragão, a vila de Sangüesa la Vieja junto com as vilas de Lerda y Undués. Entre os edifícios notáveis de Sangüesa la Vieja estão a Igreja Paroquial de Santa Maria, reconstruída no século XVI, a ermida de São Miguel e a capela dedicada a São Bartolomeu, que foi convento franciscano.

A tradição local diz que São Francisco chegou à capela de São Bartolomeu, onde falou de paz ao povo desta cidade envolvido em conflitos internos e inimizade, tal como se conta em Pamplona, onde se celebra a festa da pacificação dos Burgos, graças à intervenção de São Francisco. E ao lado desta capela fundaria Francisco de Assis, ou seus irmãos, o primeiro convento franciscano em Espanha, onde viveram os freis durante 50 anos, até que em 1266 Teobaldo II fundou uma igreja franciscana em Sangüesa, onde hoje habitam os franciscanos capuchinhos. O que hoje resta do edifício de São Bartolomeu e do mosteiro franciscano está em ruínas e abandonado.

Entramos no terreno da lenda, quando se diz que uma amoreira no jardim do convento botou da vara de Francisco peregrino. Waddingo, no início do século XVII, recorre também à tradição desta amoreira plantada por São Francisco em Rocaforte e outros cronistas falam de uma fonte e uma pedra chamada "del descanso de San Francisco" por seu amor a ela.

Rocaforte seria, segundo Gonzaga, o lugar onde Francisco, a Caminho de Santiago, pediu a Bernardo de Quintavalle para ali ficar cuidando de um doente, como conta o autor de “Actus B. Francisci et sociorum”, obra composta no século XIV, antes de 1328, embora tomando fragmentos e notícias escritas no século XIII.

Já Aranguiz faz menção em sua obra de uma casa em Sangüesa onde Francisco se hospedou estando doente.

Olite

Esta localidade está próxima ao Caminho Aragonês tradicional. A igreja de Santa María la Real de Olite que data do século XIII tem uma grande fachada gótica-românico, que consiste em um rosetón e um portal de 8 arcos, que abrigam um tímpano com cenas da infância de Jesus. Estas esculturas estão relacionadas com o portal Norte da Catedral de Notre Dame de Paris. Erguida junto ao palácio, nunca foi a capela real, apesar de ter sido usada por monarcas navarros nas grandes festividades e atos solenes. O convento franciscano de Olite também data do século XIII, embora não seja sua construção atual.

Dos capitéis laterais que sustentam as arquivoltas quatro estão historiados. Estão neles representados três franciscanos, um deles é identificado mediante um talismã em suas mãos, onde se lê: "Franciscus Penitens”. Não necessariamente estão dizendo que Francisco passou por aqui. Poderia tratar-se de uma admiração pessoal do pedreiro sobre um Francisco de Assis que conheceu ou dele teve boas recomendações.

Cañas

As freiras cistercienses de Cañas, pueblo próximo ao Caminho Francês tradicional, guardavam entre suas tradições orais o lugar onde se achava o túmulo da abadesa Urraca López de Haro, que morreu com “perfume” de santidade em 1262 com 92 anos. E outra tradição oral não escrita em nenhum lugar era a que São Francisco em sua passagem por este lugar a caminho de Santiago ficou no mosteiro e iniciou uma grande amizade com esta mulher.

Em 1898 foi realizada escavação para localizar a referida sepultura e seu corpo foi encontrado incorrupto, no lugar descrito pela tradição. O túmulo tem uma grande riqueza escultural, que narra os assistentes no funeral da abadesa.

Entre as histórias contadas, no túmulo de pedra está o cortejo fúnebre com todos os presentes. Entre eles, dois freis franciscanos que, segundo a tradição local, seriam franciscanos que viajavam com Francisco a Santiago de Compostela, deixados por ele para participarem do funeral desta mulher em atenção à amizade surgida entre eles.

Santo Domingo de la Calzada

O Parador de Santo Domingo de la Calzada, no Caminho Francês, ocupa um antigo hospital do século XII, ao lado da Catedral, construída por Santo Domingo para acolher os peregrinos que viajavam pelo Caminho de Santiago. Entrando nele se encontra uma placa com a inscrição: "São Francisco esteve aqui”.

Burgos

Gil González Dávila, cronista dos reinos de Castela e das Índias em torno de 1600, oferece uma escritura do século XIII em que Bernardo, Ministro Provincial dos Trinitários de Burgos doa a Francisco e seus companheiros um terreno na cidade de Burgos, no Caminho Francês. Este nome de Bernardo está atestado na documentação mantida no Arquivo Histórico Nacional.

Conta Gonzaga que aqui Francisco se retirou a uma capela chamada São Miguel. E que teve a oportunidade de estar com o rei de Castela, a quem apresentou à Regra da sua Ordem. Este encontro de Francisco com o rei Fernando III, o Santo, e sua esposa Dona Beatriz teria sido gravado no grupo escultórico na porta da Coronería. Diante de Francisco estão Santo Domingo e o bispo D. Mauricio, este encarregado de apresentar ambos ao rei.

O mestre deste portal mostra muitos pontos em comum com o responsável pelo portal do Juízo no pórtico ocidental da Catedral de León. O modelo vem da Catedral de Reims.

Um dos personagens é, de acordo com a tradição local, São Francisco de Assis, identificado pelo cordão.

Nas mãos leva o que parece ser uma oferenda, uma credencial que pode sugerir, como disse Atanásio Lopez, que a escultura está representando Juan Parente, que veio em 1219 apresentando suas credenciais como Ministro Provincial a bispos e governantes.

Poderia evocar a tradição, tantas vezes repetida, de que Francisco aceita um terreno para a sua fundação, e para mostrar que não toma simplesmente a propriedade, carrega uma oferenda ao doador como locação.

León

Com idêntica estrutura decorativa se repete na Catedral de León, no Caminho Francês, a cena do juízo final, no portal central do Ocidente, também conhecida como a Virgem Branca. Curiosamente mudam, com relação ao portal da Catedral de Burgos, a posição de Maria e João, ajoelhados, agora como os dois anjos que acompanham Cristo.

A representação escultórica mostra um franciscano, que a tradição diz ser San Francisco, com a capucha fechada e conversando com o Rei San Fernando III. Entre eles está uma mulher que Sánchez Cantón alega representar Santa Clara.

Ambos conjuntos escultóricos de León e Burgos provam a força da nova presença mendicante no Reino de Castela e, talvez, a alta estima e a proteção que o rei de Castela, San Fernando III, dispensou a ambas Ordens – mas não necessariamente a presença de São Francisco nestas cidades.

Villafranca del Bierzo

No convento das freiras de La Anunciata, em Villafranca del Bierzo, no Caminho Francês, é preservada, segundo o testemunho de Atanásio López, um manuscrito de 1606, onde se lê: “É tradição antiga que a casa onde vivem os Padres Vicarios foi a primeira que teve São Francisco neste lugar, e que pousou nela quando passou a Santiago e tem por coisa certa".

Segundo Jacobo de Castro, São Francisco passou por este lugar a Caminho de Compostela. Se havia hospedado no hospital do senhor Santiago, hoje convento de Clarissas, junto ao qual a cidade cedeu terreno para instalar uma ermida em que ficaram dois freis. A história do lugar diz que o primeiro mosteiro foi doado pela rainha Dona Urraca em 1213.

Em Villafranca Atanásio López situa o milagre do leproso que, apesar de amaldiçoar Deus pela sua infelicidade, foi tratado por Francisco e, por sua caridade, o doente recuperou a paz interior e o perdão de Deus.

Santiago de Compostela

Diz Frei Natalio: “José García Oro já fixou o que esta tradição tem de história documentada e o que tem de lenda. Então, eu apenas resumo o seu trabalho”.

Monastério de San Martín Pinario de Santiago

A tradição conta que este mosteiro beneditino deu a Francisco um solar no lugar Valdedeus, para a construção do seu convento. Em troca Francisco se comprometeu a que seus irmãos pagassem uma cesta de peixes a cada ano como aluguel. Este contrato e relato é cópia do que foi feito entre Francisco com os beneditinos de Subasio, para a concessão da capela de Santa Maria dos Anjos, ou Porciúncula. O escrito contando esta história foi apresentado em 1554 ao príncipe Felipe II, em sua passagem a Inglaterra. A Crônica dos XXIV Gerais, do século XIV, narra que em 1217 Francisco enviou Bernardo de Quintavalle e outros frades para receber os lugares adquiridos na Província de Santiago.

Um cidadão chamado Cotolay

A lenda oral – e escrita em suporte de pedra, do século XVI, preservado no convento de Francisco em Santiago –, diz que Cotolay era humilde carvoeiro, que morava no Monte Pedroso, ao lado da capela românica de San Paio. Cotolay havia acolhido Francisco em sua casa e na capela. É uma tradição consolidada no final do século XVI, coletada pelo historiador Gonzaga.

“Viniendo Nuestro Padre San Francisco a visitar al Apóstol Santiago, hospedole un pobre carbonero llamado Cotolay, cuya casa estaba junto a la ermita de San Paio en la falda del monte Pedroso. De allí salía el Santo al monte a pasar las noches en oración. Allí le reveló Dios era su voluntad la edificación de un convento en el sitio donde está, llamado Val de Dios y Val del Infierno, y sabiendo el Santo era del monasterio de San Martín, pidióselo al Padre Abad por amor de Dios y ofreció ser su forero y pagar en cada año un cestito de peces. Aceptó el padre abad y de ello se hizo foro firmando el Santo, del cual dan fe los ancianos de San Martín han visto y leído. Habido el sitio dijo el Santo a Cotolay: “Dios quiere que me edifiques un convento de mi orden”. Respondió Cotolay que cómo podía un pobre carbonero – “Vete a aquella fuente” - dijo el Santo - que allí te dará Dios con qué. Obedeció Cotolay y halló un gran tesoro con el que edificó este monasterio. Bendijo Dios a la casa de Cotolay; casó notablemente. Fue regidor de esta ciudad y edificó los muros de ella que ahora van junto a San Francisco y antes iban por la Azabachería. Su mujer está enterrada en la Quintana y Cotolay, fundador de esta casa, en este lucilo que para sí escogió. Falleció santamente el año del Señor de 1238”. Esta inscrição está esculpida em pedra na entrada do convento, que data do século XVI.

Buen Camino!

 

Frei Juan Natalio Saludes Martinez pode ser contatado pelo e-mail juannataliosm@yahoo.es, site http://kmtau.org



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h55
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PEDRAS DO CAMINHO

Fui. Mas a busca continua...

Altar da Matriz de Aquidauana, em homenagem à Nossa Senhora Imaculada Conceição

Aproveitei a manhã de sexta-feira 6 de dezembro de 2013, antes de seguir para Campo Grande – onde no sábado embarcaria para São Paulo e, finalmente, regressaria a Santos – para resolver algumas pendências. Retornei ao Cartório do 2º Ofício de Aquidauana, vasculhei outros registros de antepassados e, sempre contando com a paciência das funcionárias, resgatei o registro de falecimento de minha avó materna, Cecília Maria de Arruda, natural de Surubim, Pernambuco, com 78 anos, ocorrido em 10 de novembro de 1977, tendo como causa mortis “AVC, hipertensão arterial”, e o registro da morte do primogênito José Carneiro de Arruda, também de Surubim, com 21 anos, em 23 de maio de 1941, de “infecção gripal”. José, conforme citado no perfil do Professor Antonio Carneiro de Arruda, foi aquele filho que fugiu de casa quando a família, em janeiro de 1939, migrou de Surubim para Aquidauana. O motivo foi o amor pela namorada. Algum tempo depois, contudo, José a deixaria e iria de encontro à família. Alistou-se no Exército e, após uma marcha, contraiu a forte gripe que o levaria a morte. Foi um duro golpe para Cecília... Já possuía o registro do obtido de meu avô Antonio Carneiro de Arruda, que me fora enviado meses antes pela prima Deise de Arruda: natural de Limoneiro, Pernambuco, com 95 anos, em 24 de janeiro de 1989, de “parada cardio respiratória, embolia, arteriosclerose”.

Do Cartório, tomei o rumo da Câmara de Vereadores, e no caminho constatei que estava aberta a Igreja Matriz de Aquidauana, em homenagem à Nossa Senhora Imaculada Conceição. Entrei e apreciei o altar com a imagem da Santa e os belos vitrais, orei e agradeci a viagem, pois tinha certeza que tudo transcorria bem, e assim continuava.

Na Câmara, fui conhecer Raquel Régis, que trabalha no gabinete da presidência, com quem havia trocado e-mails, solicitando informações para o perfil de meu avô Antonio Carneiro de Arruda, que inseri no livro “Missão dos Professores”. Por e-mail, basicamente, fiz duas solicitações: o processo legislativo pelo qual meu avô havia sido agraciado com o título de cidadania de Aquidauana e o outro processo que homenageou minha avó Cecília Maria de Arruda com nome de rua. Minha pretensão era ler os fundamentos apresentados, pois acredito que tenham informações sobre a vida de cada um – considerando, recentemente, a dificuldade de obter informações com base na lembrança de familiares.

Sobre minha avó, Raquel me passou que a homenagem foi com base na lei municipal nº 807, de 5 de setembro de 1980. Não há justificativa – mas, muito provavelmente, foi fruto de articulação política de meu tio Heládio de Arruda, que foi vereador durante seguidas legislaturas e presidente da Câmara no período 1977-1979. Teria sido dele, inclusive, a autoria do título de cidadania concedido ao Professor Antonio Carneiro de Arruda. Porém, sobre este processo, apesar dos esforços de Raquel e de minha insistência, não consegui obter sequer a confirmação oficial. Digo confirmação, pois a concessão do referido título me foi relatada, inicialmente, pela tia Therezinha de Arruda, e reiterada apenas pela tia Nena, viúva do tio Heládio. E mais ninguém! Ou seja, considero importante a obtenção do processo que gerou a homenagem, até para confirmá-la, conhecer o autor, ter acesso à fundamentação, e saber, finalmente, em qual dia ela foi prestada – pois, afinal, deve ter tido cobertura e divulgação na Imprensa; quem sabe, até exista uma foto de meu avô trajando terno.

Indaguei pessoalmente a Raquel se havia resgatado tal processo e ela repetiu o que já me havia dito: toda a documentação antiga da Câmara está sendo arquivada e digitalizada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e por este motivo não foi possível fazer a pesquisa. Não desistirei. Um dia esse trabalho terá encerrado e, finalmente, terei certeza se efetivamente houve tal homenagem. Ah! Ao falar com meu tio Elias de Arruda, dois dias antes, na quarta-feira 4 de dezembro, em Miranda, ele não se lembrou exatamente do título de cidadania entregue ao pai. Admitiu, sim, que tal homenagem deve ter sido prestada. Afinal, seu irmão Heládio por vários anos atuou como vereador... Mas, o que tio Elias disse, com convicção, foi que, mediante articulação de Heládio, a Câmara prestou homenagem ao Professor Antonio Carneiro de Arruda quando da passagem de seu centenário de nascimento, ou seja, em 13 de maio de 1993. Não me lembrei de falar sobre isso com Raquel... Tudo bem, na próxima oportunidade a informarei.

Ao me receber, Raquel foi atenciosa e me levou ao plenário da Câmara, que preserva uma galeria de fotos dos ex-presidentes, na qual consta a imagem de meu tio Heládio de Arruda. Por tudo que tem feito, a presenteei com exemplar do livro in memoriam do meu avô “Missão dos Professores, poesias do Professor Carneiro”, cujos detalhes sobre sua criação estão em posts anteriores.

Como minha programação em Campo Grande seria à noite - um churrasco na casa da prima Rogéria, filha do primeiro casamento do finado tio Adonias -, resolvi dar mais uma caminhada pelas ruas de Aquidauana. E mais uma vez fui até a casa da tia Nena, que infelizmente não havia retornado de viagem. Tinha tanto a conversar com ela – que, com seu jeito guerreiro, sempre cuidou dos meus avós. E como é verdade a famosa frase de que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, tia Nena é tudo isso e mais alguma coisa. Tio Heládio, embora saiba muito pouco sobre sua vida e trajetória política, é lembrado como político trabalhador, honesto, desses que faz falta ao país, tendo participado ativamente nas lutas pelo desenvolvimento de Aquidauana – um reconhecimento, aliás, que tia Nena ainda aguarda com mais ênfase das autoridades do município, conforme me confidenciou por telefone, meses antes, quando a alertei que viajaria a Mato Grosso do Sul em busca de informações sobre meu avô.

Voltei para o hotel Aquidauana Palace, onde estava hospedado desde terça-feira, tomei mais um banho – o calor estava implacável –, me despedi dos proprietários, que me fizeram sentir em casa, e segui para a rodoviária, onde encontrei minha prima Deise, para um adeus fraterno. Confessou sua vontade de ir comigo para Campo Grande e rever outros primos, mas não, não seria possível, devido a compromissos já assumidos.

O início de minha viagem de volta foi tranquila e as poucas horas que passaria em Campo Grande seriam de muitas emoções. O churrasco preparado pela prima Rogéria – a quem presenteei com exemplar do livro de nosso avô – foi excelente e, melhor que a farta mesa, tive a oportunidade de reencontrar também seu irmão, meu primo Roberto (Robson, o terceiro irmão, entre os filhos do tio Adonias com a primeira esposa, mora em Aquidauana, mas não o encontrei). Nas vezes em que, pequeno, fui a Aquidauana com meus pais, recordo que eram os primos mais chegados, demonstrando interesse em conversar, brincar, conhecer. Também tenho boas lembranças do tio Adonias. Também conheci os filhos de Rogéria, Leonardo e João, com sua esposa Priscila e a filha Rachael. Melhor ainda que tudo isso, foi ter conhecido pessoalmente minha prima Nádia de Arruda. Sim, eu não a conhecia pessoalmente. Filha do tio Elias, ela me pegou no hotel, em Campo Grande, e juntos fomos para a casa da Rogéria. Melhor ainda – se isso ainda é possível! -, é que essas duas primas, Nádia e Rogéria, embora muito próximas, morando na mesma cidade, foi a primeira vez que se viram. Ajudar neste encontro foi demais. Sem palavras!

Ah! Tia Rute, mãe de Nádia, sabendo que eu estava em Campo Grande e que o voo seria somente às 15 horas preparou um saboroso almoço no sábado. O encontro foi excelente, pois tive a oportunidade de conhecer mais familiares: tia Rute – sim, eu não a conhecia!!! –, seu outro filho, meu primo Helton, sua esposa Ana Paula, sua filha Bárbara, as filhas de Nádia, Juliana e Lívia, e dona Otília, irmã de tia Rute – cuja especialidade culinária é o “parafuso”, que dias depois Nádia me passou por e-mail...

Ao final, prima Nádia – a quem também presenteei com exemplar do livro “Missão dos Professores” – me levou ao aeroporto, mas antes paramos no Mercado Municipal de Campo Grande. Quantas lembranças. Algumas vezes estive ali com o tio Dorvalino, para comprar peixe fresco, mandioca, entre outros produtos de qualidade. Tio Dorvalino faleceu recentemente em Santos, com 97 anos, 72 anos dos quais viveu com tia Alice, irmã de minha mãe Maria Cecília, que mora em Santos e, sempre que possível, a visito. Nos boxes indicados pela prima Nádia, comprei queijos e, claro, rapaduras!

Adeus, Mato Grosso do Sul. Em breve, voltarei, para continuar minha busca...


Vitrais da Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição


Meu tio Heládio de Arruda, na galeria de ex-presidentes (1977-1979) da Câmara de Vereadores de Aquidauana


Esquina do centro de Aquidauana: ruas Sete de Setembro e Estevão Alves Corrêa


Rodoviária de Aquidauana: despedida da prima Deise, filha dos tios David e Terezinha, falecidos


Encontro muito esperado entre primos: os manos Roberto e Rogéria, filhos dos tios Adonias, falecido, e Maria da Glória; Nádia, filha dos tios Elias e Rute; e eu


Churrascão na casa da prima Rogéria, pilotado pelo filho João


Meu primo João, filho de Rogéria, a esposa Priscila e a filha Rachael


Com o primo Leonardo, filho querido de Rogéria


Almoço familiar: tia Otília (irmã de tia Rute), prima Nádia, tia Rute, primo Helton, Juliana (filha de Nádia), Ana Paula (esposa de Helton), Lívia (filha de Nádia) e Bárbara (filha de Helton)


Nádia, eu, tia Rute e Helton: em casa!


Antes da despedida, com minha muito fofa prima Nádia: no Mercado Municipal de Campo Grande para comprar rapaduras e queijos, sabores que me acompanham desde criança...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 22h45
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PEDRAS DO CAMINHO

Ah! A história dos meus avós - Parte I

Primo Rui, em frente ao 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque

Se me é motivo de orgulho pertencer a uma família – por parte de minha mãe – que seja migrante, procedente de Pernambuco, pioneira na ocupação e desenvolvimento de Mato Grosso (na porção que acabou se tornando Mato Grosso do Sul), também me enche de júbilo a história de minha família, assim dita, da parte de meu pai. A geração imediata não era de migrantes, uma certeza que ainda busco, mas tem indícios no documento que registra a morte do bebê Galdino Toledo Ferraz, com 2 meses e 5 dias, em 6 de julho de 1944, que deve ter sido o irmão mais novo de meu pai. Tal documento obtive em Aquidauana e informa, ao qualificar o pai do menino, enfim, o pai de meu pai – o meu avô Resquim Alves Ferraz – como “natural do Território de Ponta Porã”.

Ora, se a informação está correta, meu avô teria nascido no final do século XIX, talvez em 1894, na região de Ponta Porã, cidade fundada em 25 de março de 1892 e que hoje possui área conurbada internacional com a cidade de Pedro Juan Caballero, capital do departamento de Amambay, no Paraguai. Pouco antes dessa época, contudo, antes mesmo da Guerra do Paraguai (que se estendeu de dezembro de 1864 a março de 1870), Ponta Porã era uma região deserta no interior do Paraguai, habitada por algumas tribos de índios, como os Nhandevas e os Caiuás, descendentes do povo Guarani... Ou seja, os pais de meu avô, os meus bisavôs Augusto Nunes Ferraz e Vergínia Alves Ferraz (em solteira, Vergínia Alves da Cunha), teriam sido o que hoje se convencionou chamar de “brasilguaios”, uma mescla de brasileiro, paraguaio, indígena, espanhol..., uma miscigenação que se observa na pele, nos costumes, nos nomes, o que considero algo fantástico! Não e à toa que o apelido de meu pai era “Gringo” e o do seu irmão mais novo, “Alemão”!

Como disse no post anterior, fui a Mato Grosso do Sul para tornar público aos familiares da parte de minha mãe o livro de poesias do patriarca, meu avô Antonio Carneiro de Arruda (que, como já se falou, pode ter sido Antonio Lourenço Carneiro de Arruda...), que se estabeleceu em Aquidauana a partir de janeiro de 1939. E, estando em Aquidauana, não poderia deixar de vasculhar informações sobre a origem da família de meu pai, natural de Nioaque, localizada a pouco mais de 100 quilômetros de distância – ânimo que deixei claro no post de 19 de janeiro passado, quando relatei o contato mantido com o 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque, oportunidade em que falei com o responsável, Rui Alves de Lima, que descobri ser primo de pai, meu primo de segundo grau. Aliás, foi desde esse primeiro contato que fiquei sabendo que meu pai, nascido em 11 de novembro de 1921, em Nioaque, foi registrado como Ulmindo Toledo Ferraz e não Ormínio Toledo Ferraz, com quem minha mãe se casou, como sempre o conheci e, como, enfim, está grafado em todos os seus documentos... Ops, nem todos, pois no Diário Oficial da União, de 1º de abril de 1946, que relaciona os heróis da 2ª Guerra Mundial contemplados com a Medalha de Campanha, o nome do cabo está grafado Ormindo – nem Ulmindo, nem Ormínio!

Diário Oficial da União que divulga os heróis da 2ª Guerra Mundial contemplados com a Medalha de Campanha: cabo Ormindo, não Ormínio, muito menos Ulmindo...

Retomando a cronologia de minha viagem a Mato Grosso do Sul, na infinita busca de meus antepassados, reservei a quinta-feira 5 de dezembro de 2013 para ir de Aquidauana a Nioaque me encontrar com o primo Rui.

Peguei o ônibus das 6 horas e cheguei por volta das 9. Logo ao desembarcar constatei junto à agência da empresa rodoviária que a viagem de volta só seria possível ao final da tarde. Ou seja, como já havia programado diversas atividades em Aquidauana, teria que arrumar outra forma de retornar. Desde então passei a avaliar a possibilidade de voltar de táxi os cerca de 110 quilômetros que separam as duas cidades – solução que efetivamente viria a adotar.

Mas, havia acabado de chegar a Nioaque (fundada em 22 de maio de 1848, portanto, antes de Ponta Porã...), cuja grafia antiga é Nioac, conforme detectei em vários documentos da época, e também havia constatado que estava na rua do 1º Serviço Notarial e Registral. Era só caminhar alguns quarteirões... e caminhei. A área urbana é muito pequena. Encontrei primo Rui na porta do estabelecimento, e pela alegria dele e a minha parecia que estávamos nos reencontrando, que éramos amigos há muito tempo. Bem disposto, brincando, falando algumas frases em guarani..., ia me contando passagens da família, do meu avô, ou seu tio, pois Resquim era irmão de sua mãe Maria Alves Lima – que passou a usar o Lima ao se casar –, recordações de seu primo, meu pai, das amizades do meu pai, dos gostos do meu pai, do fato dele ser do signo de escorpião, o mesmo de um de seus irmãos..., exibindo muito orgulho da família, que possuiu fazendas em Nioaque e residia na mais aparelhada delas, denominada Triunfo, onde nasceu meu pai e todos os irmãos – um patrimônio que se perdeu ao longo das décadas, talvez negócios mal gerenciados; enfim, a vida.

Seus pais permaneceram em Nioaque, enquanto os tios Resquim e Leonídia, não se sabe exatamente em que época, foram com os filhos para Aquidauana, onde passaram a morar numa chácara na margem esquerda do Rio Aquidauana, ou seja, em Anastácio. Aliás, me lembro desta propriedade, que conheci numa viagem a Aquidauana, no final da década de 60. Meu avô já havia falecido, o que ocorreu em 24 de março de 1962, e lá tive o único encontro com minha avó Leonídia – pele morena, olhos indígenas, cabelos negros, sangue miscigenado... –, que viria a falecer em 4 de julho de 1973.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h08
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PEDRAS DO CAMINHO

Ah! A história dos meus avós - Parte II

Registro de casamento de meus avós Resquim, 25 anos, e Leonídia, de 16

A história dos meus avós paternos está documentada a partir de 14 de janeiro de 1919, às 16 horas da tarde, no lugar denominado Morrinho, em Aquidauana, na residência de Theodoro Francisco de Toledo – presente o coronel Alfredo Cesar Velasco, juiz de direito da comarca, e Francisco Serra, oficial do Registro –, quando se receberam em matrimônio Resquim Alves Ferraz e Leonídia Xavier de Toledo, que passou a chamar-se Leonídia Toledo Ferraz. Ele, viúvo, natural do Estado de Mato Grosso (é como está, sem referência a Ponta Porã...), com 25 anos de idade (iria fazer 26, não sei a data exata de seu nascimento, possivelmente até junho...), criador, residente em Nioaque, filho de Augusto Nunes Ferraz e Vergínia Alves Ferraz (em solteira, Vergínia Alves da Cunha), ambos do Estado de Mato Grosso, e residentes em Nioaque, e ela natural desse Estado, com 16 anos de idade, filha de Theodoro Francisco de Toledo e Alexandrina Xavier de Toledo.

Estas informações não eram do conhecimento do meu primo Rui Alves de Lima, de Nioaque, pois as obtive apenas na tarde daquela quinta-feira 5 de dezembro, no cartório de Aquidauana, ainda refletindo sobre alguns detalhes dos registros de Nioaque: afinal, se Resquim era viúvo e registrara os filhos citando Leonídia como esposa, pois transferia aos descendentes o sobrenome da mulher, Toledo, por que o 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque não possuía o registro desse segundo casamento? Bingo! É que meu avô Resquim casou a segunda vez em Aquidauana, na casa dos pais de minha avó, conforme os registros que obtive e fotografei e citei acima.

No 1º Serviço Notarial e Registral de Nioaque consta que Resquim se casou pela primeira vez em 23 de junho de 1916, então com 23 anos, com Valentina de Lemes Furtado, de 15 anos. Ela faleceu, não há registro da data, “talvez no parto”, sugere primo Rui. E não teriam tido filhos.

Primo Rui me contou que nasceu em 1931, portanto, 10 anos antes que meu pai. Filho de Maria Alves de Lima, irmã de Resquim Alves Ferraz, sempre morou em Nioaque, mas, devido ao trabalho, ia com frequência a Aquidauana, sede da antiga Comarca, oportunidade em que reencontrava os primos e ficava sabendo as novidades. No cartório, também, chegavam novidades, eis que um ou outro, por este ou aquele motivo, acaba entrando em contato por necessitar da cópia original do registro de nascimento. Não deve ter sido o que sucedeu com meu pai, que, em vez de buscar o registro oficial – no qual, com certeza, acabaria se encontrando com Ulmindo, acabou realizando um novo registro, não sei ainda onde, passando a ser chamado Ormínio. Isto porque acredito que Ormindo, registrado no Ministério da Guerra, tenha sido fruto de eventual erro de digitação. Ou o contrário...

O diligente primo Rui confessou que também se interessa pelos antepassados e que realizou levantamento desde 1916 de todas as certidões em nome de Resquim. Encontrou a do primeiro casamento e o registro dos filhos, já adotando o sobrenome da segunda esposa em todos os descendentes. Este é um fato curioso, pois minha mãe Maria Cecília Arruda Ferraz teima em dizer que a primeira filha registrada do casal, denominada Catulina, ou simplesmente Catu, seria filha do primeiro casamento...

Bem, vamos ao que está registrado...

Os filhos de Resquim e Leonídia foram registrados de uma vez em 29 de junho de 1931, “nos termos do artigo 2º nº 11 do Decreto do Governo Provisório, relativo à obrigatoriedade do registro de nascimento no território nacional”. Até aquele momento, havia 8 filhos, todos nascidos em Nioaque, na Fazenda Triunfo. Não é possível confiar que o dia e o horário são verdadeiros, depois de passados tantos anos de cada nascimento. Mas é o que está registrado!

A primeira, Catulina de Toledo Ferraz, em 15 de julho de 1920, às 8 horas da noite – que minha mãe diz ser do primeiro casamento...

Ulmindo de Toledo Ferraz, em 11 de novembro de 1921, às 2 horas da madrugada. Faleceu em Santos em 16 de janeiro de 1984. Deixou dois filhos, um deles, eu!

Astúrio de Toledo Ferraz, em 25 de agosto de 1923, às 7 horas da noite.

Antonio de Toledo Ferraz, em 13 de junho de 1925, às 8 horas da manhã. Faleceu em Aquidauana, em 2008. Deixou um casal de filhos.

Adelina de Toledo Ferraz, em 25 de junho de 1927, às 8 horas da manhã.

Albano de Toledo Ferraz, em 26 de setembro de 1928, às 9 horas da manhã. Faleceu no Rio de Janeiro, não se sabe a data, sem filhos.

Acássio de Toledo Ferraz, em 29 de setembro de 1929. Falecido em Aquidauana em acidente ferroviário, não se sabe a data. Deixou filhou.

Néris de Toledo Ferraz, o Alemão, o mais novo nascido em Nioaque, em 26 de maio de 1931, às 2 horas da tarde. Faleceu em Aquidauana, em 25 de junho de 1987.

“Creio que hoje todos são falecidos”, diz primo Rui. Deve estar certo, embora apenas a certidão de nascimento de Néris possua essa anotação.

Embora primo Rui não demonstrasse saber da morte de Galdino – que teria sido o caçula!, conforme registro em Aquidauana e já citado acima -, ele recorda que Resquim havia enterrado outros 4 filhos, vítimas de varíola: “Enterrou dois, quando voltou de uma viagem, tinha mais dois mortos”. Se bem que na certidão de óbito de Galdino conste como causa mortis disenteria bacilar – toxicose.

Rui diz que o convívio com os primos foi mais em Aquidauana. “Nós estudávamos juntos. Jogávamos futebol. Eu ia na casa do tio Resquim, tomava banho no rio, na prainha que tinha na chácara. Primo Albano afundava e atravessava o rio num mergulho, que tinha uns 100 metros de largura. Seu pai nadava bem. Afinal, se criou na beira do rio”.

Resquim teria tido sete irmãos: Gastão, o mais velho, Maria Alves Ferraz, outro Gastão Alves Ferraz, Brasilina Alves Ferraz, Rômulo Alves Ferraz, Nércia Alves Ferraz, Narcisa Alves Ferraz...

Ao lembrar dos tios, Rui fala de sua família: “Papai Fabriciano Teixeira de Lima teve 10 filhos. Seu casamento foi em 1913, aqui em Nioaque. Ele veio do Rio Grande do Sul, casou com Maria Alves Ferraz, irmã de Resquim. Eu vou fazer 60 anos de casado (em abril próximo), com Diva, filha única. Ela é meu favo de mel. Seu pai conheceu meu sogro, que foi juiz de Direito em Aquidauana, Corumbá, Cuiabá, e morreu como desembargador. Hoje sou pai de 9 filhos, 20 netos e 12 bisnetos. Sempre fazemos festas, me sinto orgulhoso, fraternalmente, com a união da minha família”.

Ao saber da morte de meu pai, vítima de enfarto fulminante, comentou: “Que morte boa, quero morrer assim. Sou espírita, estou preparado para morrer. O que tinha para fazer já fiz”.

Peço para que me conte o que se lembra sobre meu pai. E ele dispara:

“O Gringo quando era solteiro não saia de minha casa. Eu tinha um irmão, Maurício, que era de 6 de novembro, e o Gringo de 11 de novembro. Gringo era cabo do Exército. O primo Maurício era civil. A vida naquela época, quem mantinha os filhos eram os pais. Seu pai estava servindo, tinha o soldo, mas os demais filhos, quem mantinha era o Resquim, fazendeiro. Precisava de dinheiro, pedia para papai”.

Fala de minha avó: “Sua avó Leonídia não era índia, era morena clara, mas de origem negra, com cabelo liso, tinha cruza de bugre. Toledo é de origem paraguaia. Já tio Resquim era branco”.

E volta ao primo:

“Gringo era dançarino na última. *nheiro. Juntava com Maurício, meu irmão mais velho, morenão, era muita afinidade. Os dois eram do mesmo signo de escorpião, que é beberrão. Pinga, conhaque, kinado, é um vinho muito gostoso. Tinha um kinado rabo de galo, pinga com kinado, bebida muito boa. Em 39, antes da guerra, já eram unidos. E depois da guerra continuaram unidos”.

Continua: “Gringo serviu exército em Aquidauana. Ele já era militar em 44, quando foi para a Guerra. Ele estava há 3, 4 anos como militar. Fez curso, passou a cabo. Ele foi para a guerra como cabo. Junto com ele foi para a Guerra o marido da Catulina (Bandinelli), foi um primo meu, foi um tio da minha senhora, o Waldemar Serpa, de Nioaque, e o Urbano Serpa. Uns 3 ou 4 nioaquenses estavam juntos. O último deles morreu no ano passado, muito meu amigo, morava em Jardim, tinha fazenda no município, Oswaldo de Carvalho. Interessante que não tem um irmão para contar a história. Convivi com o Gringo até 47, 48, quando casou-se em Aquidauana, com a filha do sr. Antonio, a irmã do Elias.”

Lembra da minha mãe, Maria Cecília Arruda Ferraz: “Ela estudou comigo. A família do Professor Carneiro era muito católica, o seu avô era impecável na missa. Cabelo penteado de lado. Me dava demais com seu avô e também com o seu tio Elias. Lembro do irmão caçula, Luis, que está em Cuiabá. Lembro de todos eles...”

Primo Rui me convidou para almoçar em sua casa. Mas havia tanto a fazer em Aquidauana que agradeci e fui embora. Voltarei. Já em Aquidauana, após o almoço, passei mais uma vez na casa da tia Nena, viúva do tio Heládio, e como não a encontrei fui na casa vizinha, do seu irmão Pereira, com quem deixei um exemplar do livro “Missão dos Professores”. Depois fui ao cemitério, com a pretensão de seguir as indicações da prima Deise, que havia me passado na noite anterior. Encontrei não só os túmulos de meus avós maternos como também do tio Heládio. Depois fui até a rua Cecília Maria de Arruda, que presta homenagem a minha avó. De lá, fui ao Cartório do 2º Ofício de Aquidauana, onde acessei os registros da morte do meu tio Galdino, conforme detalhei no início, e dos avós paternos:

Resquim Alves Ferraz faleceu em 24 de março de 1962, vítima de carcinoma intestinal, com 78 anos, casado, filho de Augusto Nunes Ferraz e Dona Vergínia Alves da Cunha (deveria ser Vergínia Alves Ferraz, nome de casada). Quem informou foi o filho Antonio Toledo Ferraz. O documento diz que deixou viúva Leonide (grafia incorreta) de Toledo Ferraz e 8 filhos e que deixou bens a inventariar.

Leonídia Toledo Ferraz faleceu em 4 de julho de 1973, às 4 horas, em A.A.A. Hospitalar, em Aquidauana, vítima de hemorragia cerebral devido a hipertensão, com 70 anos, viúva, filha de Theodoro Francisco Toledo e de Alexandrina Xavier Toledo, deixando 7 filhos maiores (de 1962 a 1973 faleceu Acássio, em acidente ferroviário), sem deixar bens a inventariar. Foi declarante Celso Balbuena Rojas. Segundo me informa Jaci Ferreira da Silva, uma amiga da família, de Aquidauana, Celso trabalhava na Funasa, antiga Sucan, e faleceu há cerca de cinco anos, em Dourados.

Tenho que voltar a Mato Grosso do Sul. Minhas raízes passam por lá...


Pereira, irmão da tia Nena: deixei com ele o exemplar do livro de meu avô, “Missão dos Professores”


Rua Cecília Maria de Arruda: homenagem a minha avó


Túmulo do tio Heládio


Túmulo dos meus avós: lá descansam também os tios José e David


Certidão de obtido do meu avô Resquim


Certidão de obtido de minha avó Leonídia



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h05
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PEDRAS DO CAMINHO

O melhor legado do Professor Carneiro - Parte I

Tio Elias de Arruda, ex-prefeito de Miranda por dois mandatos: simplicidade e inteligência, heranças do pai, Professor Antonio Carneiro de Arruda...

Embora tenha escolhido Aquidauana para servir de base durante minha viagem, em dezembro de 2013, a Mato Grosso do Sul – por tudo que a cidade representa e está registrado no post anterior... – portanto, leia-o antes, por favor –, poucos parentes residem hoje no município, como minha tia Nena, esposa do finado tio Heládio de Arruda, e os filhos Elsa e Ivan (“Papai” mora em Campo Grande), e minha prima Deise de Arruda, filha do falecido tio David de Arruda, que possui duas filhas, uma das quais, Karla, reside em Catanduva. Fiquei sabendo que meu primo Robson, um dos três filhos do primeiro casamento do finado tio Adonias de Arruda moraria lá. Não o encontrei. Me desculpem outros Arrudas, diretos e indiretos, que possivelmente ainda permanecem em Aquidauana. Realmente, não tive tempo de procurá-los, para conhecê-los ou reencontrá-los. Aliás, nem mesmo os citados tive o prazer de rever! Tia Nena, por exemplo, havia viajado e Elsa não estava em casa nas tentativas que fiz para visitá-la... Quem encontrei mais de uma vez foi a prima Deise. Tive o prazer de jantar com ela na segunda noite em Aquidauana, saboreando uma deliciosa moqueca de bonito, oportunidade em que lhe presenteie com exemplar do livro “Missão dos Professores, Poemas do Professor Antonio Carneiro de Arruda” – a razão de minha viagem!

Procuro me pautar pela cronologia para relatar que cheguei a Aquidauana no início da noite de 3 de dezembro, terça-feira, em meio a um calor de 40 graus – que me perseguiria nos dias seguintes. Tão logo me acertei no hotel, fui caminhar pelas ruas da cidade, passei pela casa da tia Nena, quando fiquei sabendo de sua viagem; e, seguindo minhas lembranças, fui em direção a antiga casa de meu avô, no Bairro Alto, onde a família viveu durante muitos anos. Fiquei algum tempo parado naquela esquina, da Antonio João e Getúlio Vargas..., depois tentei localizar a casa da prima Deise, sem sucesso, e decidi voltar para o hotel. Quando passava em frente à casa de tia Nena encontrei com o primo Ivan, filho de criação dos tios Eládio e Nena, com quem sempre cultivei amizade cordial, especialmente por não ter constrangimento em contar sua versão de fatos familiares.

Embora o tenha reconhecido de pronto, Ivan demorou um pouco para saber de quem se tratava e demonstrar sincera saudade de nossos memoráveis encontros. Ao agradecer o convite para que ficasse em seu apartamento, alegando já estar hospedado, contei o propósito de minha viagem, o livro do estimado avô Carneiro, e pedi que me contasse passagens com ele. Saquei o gravador e ouvi, interrompendo aqui e ali, para conduzir relatos nos quais nos emocionamos...

Recordou história que o tio Eládio contou a ele sobre o pai, sobre o episódio de que, jovem, teria caminhado cerca de 500 quilômetros, de Surubim, em Pernambuco, a Juazeiro do Norte, Estado do Ceará, uma peregrinação de 14 dias na ida e 11 dias na volta. E, perguntado sobre a diferença de três dias na caminhada, respondeu que na volta, naturalmente, já conhecia o caminho... Nosso avô foi lá para reverenciar Padre Cícero, porque sofria de um sangramento no nariz e queria sarar. Voltou sarado. “E vingou muito tempo aqui nessa terra”, completou Ivan.

Disse que sempre considerou nosso avô um grande camarada e que, pelo que sempre ouviu falar, aprendeu a ler e escrever sem ninguém ensinar: “É um dom”. Lembrou ainda de cenas que talvez tenha presenciado: “Ele montava numa mula e ficava lá, rezando e falando. Foi uma pessoa abençoada por Deus. Ele está num lugar muito bom”.

Sobre os últimos anos de vida do Professor Carneiro, Ivan detalhou que no dia a dia ele não comia carne: “O feijão tinha que ser moído, batido no liquidificador, pois gostava do caldo”. De sua morte, acrescentou: “Um dia (meu pai estava vivo), o encontrei na porta da casa, e o Antonio Carneiro Lourenço de Arruda (sim, Ivan garante que o nome dele inclui Lourenço, o que também conta minha mãe Maria Cecília, mas não encontrei qualquer documento que grafe dessa forma...) já tinha ido a óbito. Ele morreu sentado, numa cadeira dessas de fio. Meu pai tava chorando e disse: meu pai morreu. A emoção foi minha também. Sabe como funciona, perder uma pessoa que ama, você perdeu tudo na terra. Meu pai falou assim: agora, só você. Seu amor sempre foi forte para mim...”

Ao falar do avô e do pai, meu tio Heládio de Arruda, Ivan lembrou das filhas: “Amo minhas filhas, são duas princesas. Mais tarde, quando envelhecer, vão cuidar de mim”.

O encontro com Ivan marcou meu primeiro dia em Aquidauana.

Nos despedimos e combinamos nos encontrar nos próximos dias – o que não viria a acontecer. No dia seguinte, meu plano era viajar de ônibus a Miranda, distante cerca de 75 quilômetros de Aquidauana, onde reside meu tio Elias de Arruda...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 17h30
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