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PEDRAS DO CAMINHO

800 km em 29 dias

“Fui me encontrar comigo”

 

Travessia dos Pirineus: da França para a Espanha

 

Pedras do Caminho: enfrentando dificuldades

 

Bosque da Galícia: natureza fantástica

 

Chegando a Cirauqui: belo “pueblo” da Província de Navarra

 

Ermida de Eunate: construção dos Templários

 

Caminho proporciona um encontro consigo mesmo

 

Eu e o Castelo de Ponferrada: construção dos Templários

 

Catedral de Santiago de Compostela: meta do peregrino

 

 

O texto abaixo foi motivado pela oportunidade de publicar um relato da peregrinação no “Jornal da Orla”, de Santos, para a edição de 26 de julho, a convite dos amigos Bebê e Santana. Agradecido, mandei bala...

Recém-concluído o Caminho de Santiago, ainda contabilizo as muitas conquistas por ter feito a peregrinação. E quanto mais somo, mais aspectos positivos agrego à experiência de caminhar durante 29 dias – de 6 de junho a 4 de julho passado – os 800 quilômetros que unem Saint Jean Pied de Port, na França, até a Catedral de Santiago de Compostela, na Espanha.

Se você está chegando ao blog neste momento, uma dica para acompanhar a evolução da caminhada (claro, se tiver disposição...) é fazer a leitura cronológica. Para isso, vá ao pé da página principal em www.blogcomcebola.zip.net, clique em “ver mensagens anteriores” e depois clique na última postagem de maio (31/05 a 06/06) – e viaje comigo. Se tiver muita disposição, leia as anteriores, que também têm a ver com a peregrinação... As fotos que acompanham esse post foram disponibilizadas ao JO.

Chamado Caminho Francês, é o mais tradicional e o mais organizado entre os outros trajetos que levam a Santiago, cruzando a Espanha de leste a oeste – o que muito facilita quem se arrisca numa primeira peregrinação. Digo primeira porque uma das conquistas é ter a vontade e disposição de fazer a segunda, a terceira...

O ideal, aliás, seria retornar já em 2010, ano jubilar, quando o dia do apóstolo Santiago o Maior, 25 de julho, cai num domingo. Cumprir a rota jacobea em ano santo é, desde 1119, por determinação do papa Calixto II, motivo de indulgência plenária, ou seja, perdão a todos os pecados. Eu, que não tive esse foco ao dar o primeiro passo, desde já agradeço a consideração no dia do juízo final...

Fui ao Caminho me encontrar comigo. Fui ter com Santiago. Fui sentir a solidariedade dos hospitaleiros. Fui saber a motivação de peregrinos de todo o mundo. Fui pisar em calçadas de pedra construídas pelos romanos, ou antes. Fui conhecer cidades medievais, em especial as construções dos cavaleiros templários. Fui provar a gastronomia de várias regiões, de França e Espanha.

Fiz tudo isso e muito mais, até sem saber. Como jornalista, tive a oportunidade de desenvolver um projeto interessante de comunicação, o blogcomcebola (www.blogcomcebola.zip.net), e compartilhar algumas das experiências que ia vivenciando, por meio de textos e fotos. Muito do que foi o meu Caminho está na internet.

O resultado foi surpreendente. Ao mesmo tempo em que torrava energia numa caminhada diária de 25 quilômetros (ou mais, pois em 26 de junho, por exemplo, o percurso somou 39,9 quilômetros, entre Santa Catalina de Somoza até Molinaseca!), ia captando uma energia positiva incrível de amigos e leitores, para os quais serei eternamente grato: por meio de mensagens no blog e e-mails recebi ânimo extra, que muito me ajudou na superação das dificuldades.

Mais que isso – ou tanto quanto – é que o olhar crítico de jornalista me permitiu apurar e alertar sobre o desvirtuamento do “espírito” do Caminho. Ou seja, como minha peregrinação coincidiu com o início das férias de Verão na Europa assisti a invasão de turistas na infraestrutura criada para abrigar e auxiliar os peregrinos. Vi albergue municipal lotado de turista, atraído pela taxa de 3 euros, rejeitar peregrino – que foi obrigado a dormir em local improvisado ou pagar 20 euros num “hostal” ou caminhar até o próximo “pueblo”.

Por isso, como dica de viagem, se um dia você pretender fazer o Caminho, escolha o final de maio/junho ou final de agosto/setembro, isto é, antes ou após as férias de Verão. A temperatura não estará tão alta (no inverno, nem pensar!), não haverá tantos turistas e, possivelmente, os preços estarão mais dentro da realidade. Outras dicas podem ser obtidas na internet, no site www.caminodesantiago.consumer.es, e junto à regional de Santos da Associação Amigos do Caminho de Santiago (AACS), especialmente agora nos eventos da 3ª Semana de Santiago.

Prometi a mim que não incentivarei quem quer que seja a fazer o Caminho. Esta é uma decisão extremamente pessoal e quem decide deve arcar com todas as consequências. Contudo, não me furtarei a dar o meu irrestrito apoio e auxiliar de todas as formas que puder para que a peregrinação seja coroada com o mesmo ou melhor êxito que a minha. Fico à disposição no e-mail luizferraz@uol.com.br



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 16h58
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PEDRAS DO CAMINHO

A casa que respira “Os Cem”...

 

Soto: memória da ultramaratona tem espaço privilegiado em sua casa

 

Soto e a esposa Luz Mary: no Farol de Santander

 

Soto Conde e a namorada Maria Angeles: campeão, como o pai

 

Leo: o gato de estimação da família

 

José Manuel Abascal, bronze nos 1.500, Olimpíadas 1984, e Soto

 

Cidade agitada em dia de competição de vela

 

Balneário La Magdalena: areia limpa e água gelada

 

Sede do Banco Santander

 

Farol: o ponto mais alto da Cidade

 

Monumento aos "Caídos": opositores a Franco jogados nas pedras

 

José Antonio Soto Rojas é um mito do esporte em seu país. Corredor desde os 14 anos, apaixonado pelas provas de fundo, em 1975 disputou a Maratona Internacional de Boston, nos Estados Unidos, e iniciou um proveitoso intercâmbio com dirigentes e praticantes de ultramaratona – toda prova acima dos 42.195 metros da maratona tradicional.

Quatro anos depois, em 1979, inaugurou a modalidade na Espanha, com a primeira edição da I Prova Pedestre Internacional 100 Km de Cantrábia... Soto conseguiu a proeza em Santander, capital da comunidade autônoma da Cantábria, cidade com forte tradição em esportes... náuticos.

A evolução da modalidade ele mostra em números: enquanto em 1978 apenas três atletas figuravam no ranking espanhol de ultramaratona – além dele, Toro e Sodupe –, atualmente, mais de mil estão no ranking do país e cerca de 120 no da Contábria...

Atleta regular, Soto participou de mais de 700 provas, em pista e rua, e colecionou títulos, entre os quais o de campeão dos 100 quilômetros de Nova York, em 1985. E organizou outras tantas, inclusive em Santos, numa parceria com o Grupo Altstut.

Os últimos meses tem sido de muito trabalho para Soto. É que em 26 de setembro ele realizará em Santa Cruz de Bezana, ao lado de Santander, a edição número 30 dos 100 km de Cantábria – uma prova que é referência na Europa e coroa a dedicação de toda uma vida ao esporte...

Foi na casa de Soto que descansei por alguns dias, após peregrinar o Caminho de Santiago de Compostela, compartilhando sua família, que respira “Os Cem”: a esposa Luz Mary agiliza a comunicação com dirigentes e atletas; o filho Soto Conde segue o caminho do pai e, da mesma forma, coleciona títulos em ultramaratona; e o gato Leo... bem, o gato Leo observa tudo...

Depois de 29 dias no Camino era tudo o que eu precisava para equilibrar meu estado emocional, rir muito, descontrair... Muchas gracias!

Neste esforço de incentivar o esporte, recepcionar estrangeiros de todo mundo, especialmente do Brasil, é rotina na família de Soto. O pioneiro sempre abrigou, por exemplo, o santista Valmir Nunes, bi-campeão mundial dos 100 quilômetros e detentor da terceira marca mundial da modalidade, com o espetacular tempo de 6 horas, 18 minutos e 9 segundos...

Além do ambiente familiar que desfrutei, o descanso na casa de Soto facilitou a consulta que fiz num hospital local. Falar com uma médica serviu para me tranquilizar, eis que o desconforto e o inchaço nas pernas seriam consequencia normal do esforço feito no Caminho, e a dor no joelho direito (nada constatado na radiografia...), seria decorrência de uma pisada errada... nas pedras do Caminho... o que deverá melhorar com alguns dias de antiinflamatórios.

Nas ruas de Santander o movimento é intenso nas férias do primeiro Verão da crise. Trata-se de um dos balneários preferidos de espanhóis e vizinhos da Europa e a programação inclui competição de vela, exposições, restaurantes e... claro, escândalos políticos. Num deles, o presidente de Cantábria, Miguel Ángel Revilla, se contorce para explicar, em cadeia nacional, que seriam “institucionais” os “regalos” dados a autoridades governamentais (como o primeiro-ministro José Luís Rodriguez Zapatero...), uma prática proibida pelo artigo 426 do Código Penal. O tipo penal é o “cohecho”, ou suborno a funcionário público...

Que tipo de presente? Latas de enchovas, uma iguaria que é marca da gastronomia de Santander... Alardear as enchovas, aliás, foi a reposta do presidente de Valência, Francisco Camps, do Partido Popular, que além de também sempre receber as anchovas institucionais de Revilla, foi flagrado recebendo outros regalos de empresários, como ternos de grife...

Aproveitando um pouco essas férias espanholas, me preparo para retornar a Santos...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 18h44
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PEDRAS DO CAMINHO

Meus caros peregrinos...

 

Hoover, Jutta e Stephan: cordialidade alemã

 

Amigos espanhóis: Pedro e o sobrinho Juan José, ou Juanjo

 

Da Coréia do Sul, Kim e esposa

 

Os italianos Andréa e Roger: na bagagem, um violão

 

Do Japão, sofreu muito com dores nos pés... falei sobre ele...

 

Duas francesas: ? e Jackeline, desde Le Puy

 

Espanhol, boas informações históricas sobre o Caminho

 

Mais espanholas: por etapas, um delas é a Pilar...

 

Casal espanhol: nos encontramos em várias etapas

 

Sempre disse que o melhor do Caminho são os peregrinos. Digo e repito. O melhor e o... pior. Sim, porque muito do que acontece de ruim, de difícil, de atrapalhado, de errado no Caminho, se deve a um determinado tipo de peregrino.

Um tipo que, ao contrário de impor uma força positiva, que pode ser ou não a maioria, personifica o mal, o demônio, aquilo que admiti ser um dos focos de enfrentamento durante a peregrinação...

Esse peregrino nocivo – ao inverso do outro – é sua sombra, a outra face da mesma moeda. Ele aparece em todos os momentos e lugares e, caso você não tenha uma artimanha para derrotá-lo, poderá ser vencido por algum tipo de vicio propagado por ele e ser levado a erro, atrasar, perder o rumo, a vaga no albergue, a hora da comida, o ingresso no museu... ou até, quem sabe, sofrer dor... seja ela física, mental, ou mesmo espiritual...

Eis que portar-se como um guerreiro é fundamental para vencer esse tipo de peregrino... A espada, no caso, poderá ser substituída pelo cajado...

Em relação ao bom peregrino, que abunda no Caminho, você tem apenas que estar vigilante, para agradecer e celebrar quando surge, pois com ele vem a alegria, a paz, o ânimo, a amizade, todas as virtudes, enfim.

É para esse peregrino, que nem sempre recordo o nome, que presto uma singela homenagem com as fotos que acompanham esse texto – além de outros, cujas fotos já foram publicadas em textos anteriores e que não vejo necessidade de repetir...

Os que eu lembrar, porque anotei, porque tenho e-mail, porque considero meus amigos do Caminho, serão citados nominalmente. Os que estiverem sem nome, me desculpem a falha, mas da mesma forma guardo por vocês gratidão pelo fato de, em algum momento do Caminho, ter me proporcionado conforto, facilidade, me dirigido o olhar ou uma palavra, e ter me dado a confiança de que o bem sempre prevalecerá...

Naturalmente, fazem jus à homenagem inúmeras pessoas e animais que encontrei no Caminho, especialmente os cachorros, os muitos cachorros, que em vez de ter medo se aproximaram de mim, para me dar ou receber um carinho, com uma sensibilidade absurdamente inexplicável!

 

Micael: brasileiro gaúcho, hospitaleiro em Hospital de Órbigos

 

Ceia conjunta em albergue de Agés

 

Senhora espanhola me presenteou com fruta...

 

Encontrei este indiano em várias etapas...

 

Me coça que eu gosto...

 

Apesar do tamanho, uma tranquilidade...

 

Monge Agostin: de León, política não!

 

Casal brasileiro: ? e Graciliano...

 

Vários encontros: tocador de flauta em Santiago

 

Cegonhas...

 

Atendimento gentil da espanhola: na parede o blogcomcebola...

 

Casal japonês muito animado...

 

Espanhol: informações preciosas facilitaram a caminhada

 

Espanhol Germán Ayuso: não vi no final em Santiago?!? (*)

(*) Fez o trecho Saint Jean até Burgos. Em 2008 havia feito de

Burgos até Santiago... me contou depois, por e-mail...

 

Peregrinação em etapas e com apoio: Caminho suave...

 

Sem medo do peregrino... 

 

Elas balem... mas é manha: será?

 

Carlos: monitor de estudantes de Madrid

 

Num pueblo, a jovem com um filhote de perro...

 

Pombos... muitos pombos... 

 

Este cãe me seguiu por um trecho do Caminho...

 

Pasto calmo das ovelhas...

 

Não lembro os nomes: mas que espanhol gentil!

 

Três fox paulistinhas: saudades da minha Lady...

 

Descanso dos gatos...

 

Lesma estranha: será que esta também se come

 

Êta saúde...

 

Na Cruz de Ferro conheci outro ciclista Pedro, espanhol...

 

Levando as ovelhas para passear...

 

Cão na hora da sesta: espanhol, naturalmente



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h38
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PEDRAS DO CAMINHO

Apenas... mais um em mim

 

Nas pedras, roupas queimadas: não as minhas...

 

Farol de Finisterre: alerta aos navegantes

 

Caminho ao farol: peregrino vai a pé

 

Cruzeiro para orações e... pedras do Caminho

 

 Cidade do fim do mundo quer ser o marco zero do Caminho

 

 

Som das gaivotas dão o ritmo ao pueblo litorâneo

 

Turismo aposta na Costa da Morte

 

– Você voltará outro!

Nunca compartilhei a ideia de que a peregrinação a Santiago de Compostela seja capaz de me mudar. Quem me conhece a mais tempo pode até achar essa necessidade. Eu não. Estou bem. Tenho ao meu lado pessoas que me amam do jeito que sou, inclusive uma cadela que me obedece e abana o toco de seu rabo quando me vê... exerço atividades profissionais proativas que, além de me manter e a minha família, me dão a oportunidade de ajudar inúmeras pessoas (e se não ajudo tanto quanto gostaria, pelo menos não prejudico...).

Por isso, pelo menos da minha parte, selo o compromisso de que não vou, ou pelo menos não quero e não pretendo mudar. Vou continuar o mesmo, com todas as qualidades e defeitos... apenas, é claro, enriquecido com a experiência de ter feito uma caminhada – que muitos julgam maluca (“gastando sola”, resumiu o Macarrão no blog do Jornal da Orla) – de 800 quilômetros sobre solo europeu, a maior parte na Espanha. Um país que passei a compreender melhor e amar seu povo, tanto quanto muitos dos espanhóis que conheci amam o povo brasileiro.

Portanto, sem essa de mudar, mas de agregar, somar: a partir de agora sou apenas... mais um em mim!

Afinal, escrita em latim e assinada por Jenaro Fabrício F., Canonicus Deputatus pro Peregrinis, a Compostelana que recebi num anexo da Catedral de Santiago de Compostela me assegura outra identidade. Agora, além de Cebola, Cê, Luiz Carlos Ferraz, Lú, Neguinho, entre outras variações, sou o Dnum. Aloisium Carolum Ferraz.

Aloisium, tudo bem. Mas, para quem nunca teve vocação para ser coroinha, ainda não me acostumei com esse tal de Carolum no meio do nome, do qual Carlos teria derivado. O Ferraz se manteve. O Dnum... equivale a senhor...

Depois de um dia emocionante em Santiago de Compostela, a cidade repleta de peregrinos e turistas, a grande Feira Medieval ocupando as ruas do Centro Histórico, domingo 5 logo cedo peguei o ônibus que me levou a Finisterre, na Costa da Morte...

Não é a primeira vez que chego ao fim do mundo. A primeira foi no início dos anos 90, quando conheci Ushuaia, na Terra do Fogo, Patagônia Argentina, que também se intitula a cidade do fim do mundo – por ser a mais austral, a mais perto da Antártida.

Na ocasião estava com o colega Lauro, do jornal A Tribuna. Éramos convidados do empresário Pepe Altstut, idealizador da Memorial Necrópole Ecumênica, “a mais alta do mundo”, para apresentar a cidade argentina que estava firmando um convênio de irmanação com Santos...

Aliás, secretária Wânia, de Turismo, como está esse intercâmbio?

Foi uma experiência muito interessante, conheci a neve, andei de snow cat, entrevistei políticos, empresários do segmento turístico e cientistas – na época, um dos focos avançados de estudos era, como deve ser ainda hoje, a destruição da camada de ozônio pelos gases do efeito estufa, especialmente o CO2...

Meus textos foram publicados no Perspectiva, claro (hoje em www.jornalperspectiva.com.br), e no Jornal da Orla. Naquela época o fax era uma revolução e a internet um sonho... Fosse agora, talvez tivesse colocado tudo num blog.

Nesta segunda vez, o contexto é outro... Finisterre por um longo período foi tida efetivamente como a cidade do fim do mundo – afinal, para os romanos, que acreditavam que ali acabava a terra, o Atlântico era referido como Mare Tenebrosum...

Hoje, Finisterre reflete sobre o passado e investe no segmento turismo, em especial buscando recepcionar a legião de peregrinos que cada vez mais chega de Santiago de Compostela. Para isso, recorre a referências sobre a peregrinação na Idade Média aliada à rituais de purificação e de celebração do sol e da fertilidade...

E só!

Afinal, segundo se conta, após pregar pelos pueblos da Espanha, Santiago regressou à Palestina e foi decapitado por ordem do Rei Herodes (41-44 d.C). Seu corpo foi colocado num barco de pedra e, milagrosamente, viajou da Palestina à Galícia, chegando à costa em Iria Flavia, atual Padrón... ou seja, nem foi em Finisterre...

O corpo foi enterrado e mais tarde encontrado e declarando autêntico pelo bispo Teodomiro, da então Iria Flavia. Nesse local, por determinação de Alfonso II, Rei de Asturias e León, foi construída uma igreja, dando origem à cidade de Santiago de Compostela.

Em meio a lendas e contradições, Finisterre é simpática. É como um pueblo espanhol tradicional, só que no litoral e, também por isso, atrai turistas de toda a Europa. O som das gaivotas, ininterrupto, garante o ritmo do lugar. De seu pequeno centro, com hotéis, pensões, albergues e restaurantes, a rota do peregrino determina que vá a pé ao farol do cabo.

O local está distante cerca de 4 quilômetros e é aberto à visitação, com exposição de fotos e informações turísticas. Ao redor, em meio às pedras, o peregrino fará seu ritual de queima de roupas... visando a renovação e a purificação... de preferência, ao pôr do sol...

Num mastro de madeira, em quatro línguas, a mensagem: “Que a paz prevaleça na Terra”.

Como estou com as roupas contadas, duas bermudas, três camisetas, três cuecas, três pares de meia... e ainda vou permanecer alguns dias na Espanha, queimar algo, ainda que fosse uma cueca, é um risco. El Diablo sugere queimar as botas... Passei essa parte...

Fui ao farol, a pé, conferi o visual, me emocionei – é difícil não se emocionar depois de tudo que aconteceu... – e voltei para tomar sopa de mariscos, comer uma paella e descansar num piso, apartamento, para peregrinos que se dispõem a pagar um pouco mais...

Sem as pés no Caminho, sigo de ônibus – dotado de wifi, onde concluo esse post – para a casa do amigo Soto Rojas, em Santander, que me convidou para passar alguns dias e... continuar descansando...

 

 

Como num espelho: apenas mais um em mim

 



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 08h01
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PEDRAS DO CAMINHO

Agora, ao fim do mundo...

 

Catedral de Santiago de Compostela: fim da peregrinação?

 

Monumento à visita do Papa João Paulo II, no Monte do Gozo

 

Nas ruas de Santiago de Compostela: a caminho da missa...

 

... de longe, as torres da Catedral

 

Após conquistar a Compostelana, em frente à Catedral...

 

Onde conferi a tumba do Apóstolo...

 

Passei por trás do altar para abraçar e beijar a imagem...

 

E assisti ao espetáculo inesquecível do botafumeiro

 

Engana-se quem acredita que a peregrinação à Santiago de Compostela termina na Catedral, após a missa das 12 horas, com aquele espetáculo do botafumeiro – inesquecível! –, a visita à tumba do apóstolo, o abraço e o beijo à imagem atrás do altar, a conquista da Compostelana...

Cada vez mais, os peregrinos continuam o Caminho a Finisterre, no galego Fisterra, no latim Finis Terrae, ou seja ao “fim do mundo”...

É para lá que estou indo – depois da festa deste sábado em Santiago de Compostela, com o reencontro de inúmeros peregrinos que topei no Caminho, ora na Catedral ora nas ruas, onde estava montada uma feira medieval, com barracas vendendo quinquilharias alusivas ao período, a Santiago, ao Caminho...

Finisterre é um cabo, um acidente geográfico, que avança no Oceano Atlântico como um dedo, e que foi considerado um lugar místico para os celtas, fenícios e romanos, que celebravam ritos solares e de fertilidade...

Diz-se que o mar é violento em Finisterre, tanto que o Noroeste da Galícia é também conhecido como Costa da Morte, em alusão aos naufrágios registrados – como o do petroleiro Prestige, em 2002, que causou o derramamento de mais de 70.000 toneladas de petróleo, com prejuízos ambientais que atingiram também Portugal e França.

Assim, da mesma forma que Finisterre representou ritos de fertilidade e início, é considerado marco para o reinício da vida renovada, após a peregrinação, visando o retorno.

Tanto que se tornou famoso o ritual do peregrino queimar suas roupas, após devolver sua concha ao mar, e, pelado, mergulhar na água fria e ver o pôr do Sol... Pronto, está renascido.

Vou com calma, naturalmente... Afinal, são lendas, e lendas... são lendas. Tanto que, enquanto dizem que o peregrino deve seguir a Finisterre a pé, acrescentando mais 87,2 quilômetros à caminhada – o que pode ser feito em mais três etapas... – eu vou de ônibus, ou de trem, ainda decido...

Por ora, minha peregrinação no Caminho Francês, saindo de Saint Jean Pied de Port, na França, somou 798,9 quilômetros. Isso, pelo menos, é o que garante o guia Rother – diferente de outras fontes, que divergem e divulgam quilometragens diferentes, ora para mais, ora para menos.

Mas essa é apenas uma questão numérica, pois o Caminho é feito por cada um, considerando as muitas opções de parada, de acordo com a condição física e o interesse, seja ele arquitetônico, artístico, religioso etc.

Para os cálculos do meu Caminho adotei o guia alemão, que é objetivo e me parece mais organizado que o espanhol, editado por El País/Aguilar.

Fiz o meu Caminho em 29 etapas e as respectivas distâncias estão baseadas no Rother. A mais pedreira foi a 21, que cumpri no dia 26 de junho, de Santa Catalina de Somoza até Molinaseca, e que somou 39,9 km! – ou seja, quase uma maratona, que tem 42.195 metros.

Já a mais leve foi a etapa 9, feita no dia 14 de junho, de Nájera até Santo Domingo de la Calzada: só 20,6 km...

É um roteiro possível, eis que consegui realizá-lo, bastando apenas um pouco de disciplina, antes de dar o primeiro passo e, principalmente, durante o Caminho... Confira:

Etapa 01 – 06/06 – Saint Jean Pied de Port (FR) até Roncesvalles (ES) – 24,8 km

Etapa 02 – 07/06 – Roncesvalles até Zubiri – 21,2 km (46 km)

Etapa 03 – 08/06 – Zubiri até Pamplona – 21,1 km (67,1 km)

Etapa 04 – 09/06 – Pamplona até Puente la Reina – 23,1 km (91,2 km)

Etapa 05 – 10/06 – Puente la Reina até Estella – 24 km (114,2 km)

Etapa 06 – 11/06 – Estella / Los Arcos – 21,3 km (135,5 km)

Etapa 07 – 12/06 – Los Arcos até Logroño – 28,7 km (164,2 km)

Etapa 08 – 13/06 – Logroño até Nájera – 30,7 km (194,9 km)

Etapa 09 – 14/06 – Nájera até Sto. Domingo de la Calzada – 20,6 km (215,5 km)

Etapa 10 – 15/06 – Sto. Domingo de la Calzada até Belorado – 23,5 km (239 km)

Etapa 11 – 16/06 – Belorado até Agés – 27,9 km (266,9 km)

Etapa 12 – 17/06 – Agés até Tardajos – 34,7 km (301,6 km)

Etapa 13 – 18/06 – Tardajos até Castrojeriz – 32,0 km (333,6 km)

Etapa 14 – 19/06 – Castrojeriz até Frómista – 25,9 km (359,5 km)

Etapa 15 – 20/06 – Frómista até Calzadilla de la Cueza – 37,3 km (396,8 km)

Etapa 16 – 21/06 – Calzadilla de la Cueza até Sahagún – 22,8 km (419,6 km)

Etapa 17 – 22/06 – Sahagún até Reliegos – 30,7 km (450,3 km)

Etapa 18 – 23/06 – Reliegos até La Virgen del Camino – 32,5 km (482,8 km)

Etapa 19 – 24/06 – La Virgen del Camino até Hospital de Órbigo – 28,7 km (511,5 km)

Etapa 20 – 25/06 – Hospital de Órbigo até Santa Catalina de Somoza – 26,6 km (538,1 km)

Etapa 21 – 26/06 – Santa Catalina de Somoza até Molinaseca – 39,9 km (578 km)

Etapa 22 – 27/06 – Molinaseca a Cacabelos – 25,1 km (603,1 km)

Etapa 23 – 28/06 – Cacabelos a O Cebreiro – 36 km (639,1 km)

Etapa 24 – 29/06 – O Cebreiro a Samos – 28,5 km (667,6 km)

Etapa 25 – 30/06 – Samos a Portomarín – 33,7 km (701,3 km)

Etapa 26 – 01/07 – Portomarín a Palas de Rei – 24,5 km (725,8 km)

Etapa 27 – 02/07 – Palas de Rei a Arzúa – 30,5 km (756,3 km)

Etapa 28 – 03/07 – Arzúa a Pedrouzo – 21,3 km (777,6 km)

Etapa 29 – 04/07 – Pedrouzo a Santiago de Compostela – 21,3 km (798,9)



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h35
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PEDRAS DO CAMINHO

Estou pronto. Estou pronto?

 

Eu, por mim mesmo: ceticismo, sempre

 

Se eu tivesse trazido o... terno preto, certamente o usaria...

Hoje, depois da caminhada matinal, entre 6h50 e 11h15, de Arzúa até Pedrouzo, tirei o dia para me preparar para estar junto à tumba do apóstolo Santiago, irmão do apóstolo São João, na Catedral de Santiago de Compostela.

Diz-se que a peregrinação só estará completa depois de o peregrino subir a escada que existe atrás do altar maior, abraçar e beijar a imagem de Santiago.

Se tudo estiver favorável e conseguir manter o ritmo de hoje, para uma distância semelhante de 21,3 quilômetros, vou chegar a tempo de participar da missa do meio dia e cumprir esse ritual.

A celebração do meio dia é famosa, especial para peregrinos, quando, alegre (sim, ele deve ficar alegre...), o botafumeiro é a grande atração.

Banhado em prata, pesando 50 quilos, o gigantesco incensário balança na nave durante a missa, por meio de uma corda de 35 metros de comprimento, e, entre outras funções, ameniza o odor das roupas dos peregrinos...

Não das minhas, claro, pois, como disse, dediquei a sexta-feira para me preparar – o que incluiu, naturalmente, a raspagem dos pelos da cabeça e da face, um banho reforçado, lavagem com sabonete da bermuda, camiseta, cueca e das três meias (o pé direito exige o uso diário de duas...)

E as botas? Ontem, depois de pisar num atoleiro no bosque, já as havia lavado... Foi um descuido, sem maiores consequências, mas um bom teste para conferir se eram mesmo waterproof, como dizia o fabricante.

Estarei pronto!?

 

 

Despedida dos habitantes do bosque: das árvores...

 

 

... das pessoas dos pueblos a pé...

 

 

... ou em tratores...

 

 

... dos animais, como esse filhote de... lagarto...

 

 

... dos que mantém o Caminho...

 

 

... ainda que com o sacrifício do verde...

 

 

Despedida dos peregrinos e turistas...

 

 

... que são, enfim, os principais personagens do Caminho

 

 

... e que Caminho...

 

 

... que, nos quilômetros finais, tem marcos a cada 500 metros

 

 

Hoje, de volta ao bosque da Galícia, o clima foi de despedida... Cruzei com pessoas dos pueblos, a pé e em tratores... vi muitos bichos... pessoal da manutenção do Caminho... Aproveitei para agradecer e saudar especialmente todos os que nele habitam, o que incluiu um grande abraço na maior das árvores que encontrei...

Afinal, segundo o guia do Caminho já alerta, a paisagem vai mudando na medida em que se vai chegando a Santiago.

“A beleza, nesta etapa, estará no interior...”, avisa.

É que a cidade avança, o Caminho se mistura com a rodovia...

Hoje, como no dia anterior, quando o etapa foi de Palas de Rei e Arzúa, o bosque estava iluminado... e cheiroso. Você é capaz de sentir o cheiro do bosque da Galícia? Tente. Feche os olhos, respire fundo, o frescor da mata, pássaros cantando, a vida em tudo, pulsando, em movimento... pense nos Jardins do Éden...

Minha Sandra associou as fotos que viu a sua infância, em Santa Catarina. Veja o que ela escreveu...

“O caminho que fazia na infância era assim... havia árvores, animais, estrada estreita de terra ou cascalho, frutinhas, florzinhas, lavouras, plantações, rios, riachos, casas antigas, pessoas de todo tipo, mas sempre tudo muito simples. Penso que estás me vendo em todos os lugares por onde tens passado, pois tenha certeza, isso que estás vivendo fez parte da vida que vivi no Riozinho, every day, lembra? E por isso estou imensamente feliz por essa sua rica experimentação, que é o verdadeiro sentido do principio da nossa criação. Em todas as árvores, em todas as coisas, como Deus nos criou. Eu e você...”

Pois é... O amigo Ibrahim também deixou uma mensagem interessante no post de ontem... Aliás, agradeço a todos os amigos que se emocionam, e me emocionam com suas mensagens, alegres, profundas, de ânimo, sentimentos que fazem parte do espírito do Caminho...

Desta vez fui eu, deixei marcas – como pedras que coloquei em vários pontos e setas que construí para auxiliar futuros peregrinos... –, e em breve vocês estarão fazendo o Caminho, que milhões de pessoas já fizeram ao longo de séculos...

Mudaremos alguma coisa? É possível que sim. Lembrando o ensinamento do monge beneditino, não devemos nos privar do bom exemplo. Devemos exercê-lo. Sempre. Ele tem força, uma força silenciosa e que a história já mostrou que é capaz de gerar transformações colossais...

O movimento é lento. Sim, e daí? Mas quem está com pressa?

Eu tenho (?) pressa!

Eu tenho mais é que controlar a pressa, a ansiedade, a intolerância...

Hoje, também preparei a minha credencial de peregrino para receber o último selo na Catedral de Santiago de Compostela. Será o selo número 30, considerando que o primeiro foi colocado em Saint Jean Pied de Port, no dia 5 de junho – um dia antes de iniciar a peregrinação.

Os outros 28 selos foram de lugares onde descansei e me recuperei para no dia seguinte continuar no Caminho. Agradeço a todos os que colaboraram com o meu descanso e continuam me ajudando... Agora mesmo, enquanto escrevia, uma peregrina espanhola (ela contou, enquanto lavávamos roupas, que iniciou o Caminho no ano passado, em Saint Jean, e foi até León. Este ano, o retomou de León e amanhã certamente chegará a Santiago com o marido, que a acompanha...) veio me alertar que estava chuviscando e que minhas roupas... subi as escadas, rápido, até o varal onde as havia estendido e... surpresa... alguém já as havia transferido para um lugar coberto... Teria sido ela? Ou...

Com o selo da Catedral terei direito a receber a Compostelana, o diploma oficial que confirmará minha peregrinação...

 

Minha credencial de peregrino...

 

Depois de 29 selos, incluindo o primeiro, em Saint Jean...

 

... receberá o selo 30, na Catedral de Santiago de Compostela



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h14
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PEDRAS DO CAMINHO

Sábado, com Santiago...

 

Bosques da Galícia...

 

...preparando o encontro com Santiago

 

No bosque, o encontro com rebanho de vacas

 

O verdadeiro “espírito” do Caminho: você pega e deposita o valor

 

Hórreo galego: para armazenar produtos e evitar roedores

 

Os bosques da Galícia oferecem paisagens que deve haver no paraíso. Elas são um convite à contemplação, reflexão, oração... e tem tudo a ver com os momentos cruciais que antecedem o encontro com Santiago!

Com Santiago? E você?

Pois é, aquele reencontro comigo, que cheguei a cogitar no início do Caminho, estou tendo diariamente. Acho que até acostumei kkkkkkkk A cada dia que acordo, me preparo, dou os primeiros passos no Caminho e me sinto renovado. É uma experiência curiosa que vale a pena sentir.

O amigo Moita comparou a peregrinação à Santiago de Compostela a uma nova iniciação! Concordo, pois ao raiar o dia no Caminho você vê a luz... do novo dia... e as projeções do que você faz da sua vida o leva a passear no passado, presente e, claro, no futuro..., incerto, mas tão simples, palpável... que a única vontade que você tem é agradecer: estou vivo! O resto você já sabe...

Uma iniciação diária, Moita, o começo do recomeço, a espiral infinita da vida... Este é o Caminho!

O encontro com Santiago estou prevendo para sábado.

Ontem à noite, quarta, 1 de julho, ao traçar a estratégia deste momento da peregrinação, decidi completá-la em três etapas. Primeiro, diante de inúmeras contradições quanto à quilometragem da rota, resolvi adotar o guia Rother para definir o roteiro. E constatei que até então estavam restando 73,1 quilômetros até Santiago...

Combinei comigo fazer hoje 30,5 quilômetros, de Palas de Rei a Arzúa. Uma pernada que deu certo. Cheguei bem, consegui somar 756,3 quilômetros, e me instalei num albergue da Red de Albergues, muito bem localizado em Arzúa. Dica do Acácio, que é secretário da Red.

Agora, restam 42,6 quilômetros!

Para amanhã, sexta 3, programei a etapa 28, de Arzúa a Pedrouzo, cujo percurso é exatamente a metade, 21,3 quilômetros. E no sábado 4, de Pedrouzo a Santiago de Compostela, completando os 798 quilômetros, de Saint Jean Pied de Port a Santiago, conforme o guia alemão.

Friso o guia Rother pois o site www.caminodesantiago.consumer.es diz que o trecho de Arzúa até Santiago tem 39 quilômetros, sugerindo fazê-lo de uma só vez. Não.

 

Site diz que trecho Arzúa/Santiago tem 39 km e sugere uma etapa



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 11h24
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PEDRAS DO CAMINHO

Arrepios a cada metro...

 

Km 66, Palas de Rei: chegando a Santiago

 

Não posso negar: os pés doem ao chegar a Palas de Rei, após deixar Portomarín e completar a etapa 26 com mais 25,1 quilômetros. Considero normal, ou inevitável. Afinal, depois de peregrinar cerca de 733 quilômetros, em 26 dias – uma média de 28 quilômetros por dia! – o corpo há de sentir. Só o corpo? Muito mais! Vai levar um tempo para assimilar a dimensão dos sentimentos. Esses quilômetros finais me arrepiam a cada metro...

 

A partir de agora... de tudo no Caminho

 

Ele tem oito e a irmã 12: caminham com os pais

 

Ôba, ôba, ôba! "Vacaciones" (*) no Caminho...

 

O nome é claro: Albergue de Peregrinos de Portomarín...

 

... mas, além de peregrinos, está lotado de turistas...

 

... que continuam chegando e vão lotar a rota jacobea neste verão

 

50 estudantes de Madrid: trecho de Sarria a Santiago

 

Albergue com turistas: peregrinos dormem em cama improvisada! 

 

A Europa está em férias escolares e isso é fácil constatar no movimento dos últimos dias no Caminho de Santiago de Compostela, especialmente nos albergues de peregrinos da rota jacobea.

Mas, o que tem a ver a ocupação dos equipamentos da peregrinação com as vacaciones espanholas – de resto dos demais países da Comunidade Européia?

Tudo – apesar do desconforto que essa invasão gera ao verdadeiro peregrino. Frise-se verdadeiro, pois o turista, ora em grupos de adolescentes, ora acompanhados de pais, avós..., também se considera peregrino, embora seja uma fraude...

Comentando o assunto com um monge beneditino, que não tem qualquer dúvida sobre o “espírito do Caminho”, além de possuir uma histórica experiência no atendimento a peregrinos, ele concorda que se trata de um desvirtuamento.

Em cita dois tipos que interferem com o peregrino: o turista, que como se observa – e em seguida darei exemplos – ocupa o espaço do peregrino; e o ladrão, que se infiltra no albergue para furtar, naturalmente, o peregrino...

Sobre furtos, o monge me contou um caso – um único, talvez o mais recente, mas “inadmissível!”, e eu lhe contei outro, absurdo. Quem me relatou foi a própria vítima, o brasileiro Ricardo, que conheci em Samos, e que teve furtadas as botas no albergue paroquial em Hospital de Órbigo. Teve que comprar outras em Astorga. O prejuízo não fica só pela despesa, pois se soma o risco de usar botas sem o necessário amaciamento...

Sobre a superlotação provocada pelo turista, no sábado 27, por volta das 16 horas, ingressei no Albergue Municipal de Peregrinos (ô mania de enfatizar o “espírito” do Caminho... só 6 euros), em Cacabelos, chegando de Molinaseca – depois de 23,3 quilômetros de peregrinação.

Percebi crianças com duas famílias, respectivos pais, avós. Cheguei a conversar com o grupo e um pai me disse que sua filha tinha 12 anos e estava sim peregrinando, mas em “tramos”, ou seja, em trechos. E só nos finais de semana!

Nesse dia fui um dos últimos a chegar, número 49, para 56 vagas. Sai para cear etc. e tal, quando retornei, já na hora de fechar as portas, percebi que um casal de peregrinos, autênticos (pois já o tinha visto em várias etapas), estava dormindo em colchões improvisados em cima de bancos...

Dia seguinte, domingo 28, fiz o trajeto de Cacabelos até O Cebreiro, camelando 36,5 quilômetros, e fiquei no Albergue Municipal (outra vez... só 3 euros) mantido pela Xunta de Galícia. O Cebreiro é uma cidade turística, estava fervendo. A vista de lá é fenomenal, lembra a nossa serra gaúcha. O albergue dispõe de 104 vagas, um mostro, mas muito bem cuidado e preparado para receber peregrinos (?).

Depois de 36,5 quilômetros de peregrinação, mesmo tendo iniciado às 6h30 da manhã, cheguei por volta das 16 horas. Fui o 93! Como havia passado vários peregrinos, inclusive alguns que conheço desde Saint Jean Pied de Port... como os italianos Andréa e Roger... sabia que logo iria lotar. E é o único albergue do local; o resto é hostal. Eles conseguiram entrar, tudo bem e logo a hospitaleira (?) colocou o aviso: não há mais vagas.

Estava pendurando roupas que acabara de lavar quando um casal espanhol de peregrinos chegou de bicicleta perguntando sobre o acesso à secretaria. Era por volta das 17h15 e embora soubesse que não tinha mais vagas indiquei a entrada. Foi a maior confusão, porque queriam a todo custo ficar e a funcionária do albergue não tinha onde colocá-los. Ou seja, tiveram que pedalar pelo menos mais 10 quilômetros em busca do albergue mais próximo. E se estivessem a pé...

Na segunda, fiz o trecho de O Cebreiro até Samos (30,6 quilômetros) – onde tem um precioso monastério beneditino (mil histórias para contar, participei de uma visita guiada, fiquei mais de meia hora falando com um monge, sobre tudo, de Paulo Coelho e “espírito do Caminho”, menos política...) – e no albergue mantido pela Ordem, muito simples, mas limpo (sem taxa, só doação...), teve espaço para todo mundo. Afinal, Samos tem estrutura hospitaleira, não só para peregrino como para turista...

Ontem, terça, completei minha etapa 25 de Samos a Portomarín (33,7 quilômetros...). Entrei num albergue da Xunta de Galícia (novamente... só 3 euros...) e, apesar de ter capacidade para 110 pessoas (além de estar apto a ocupar uma escola localizada em frente...), ao ir até a biblioteca blogar, não havia mais vaga.

Lotado de turistas e alguns peregrinos – que enfrentam fila para tomar banho, disputam espaço para uma mesa para o lanche, tropeçam em turistas e ainda são repreendidos quando, às 6 horas, começam a fazer barulho para se preparar para a peregrinação e a turistada quer mesmo é dormir...

Falei com a hospitaleira... hospitaleira nada, a gerente do estabelecimento, e ela me confirmou que é só pagar os 3 euros que o acesso é liberado – para menor, inclusive. Basta estar com pai ou monitor.

“Aqui não é só para peregrino”, fez questão de frisar, embora na entrada o nome do lugar deixe claro que se trata de um albergue de peregrinos...

Mas como esse pessoal está pagando e consome, e muito, usufruindo um turismo barato para uma Espanha em crise (?), o que tem demais tomar emprestado a estrutura construída ao longo dos anos – anos o cacete, séculos! – para dar suporte aos que, por algum motivo, acreditam no poder de transformação do Caminho Santo?

Outro exemplo dessa lotação encontrei em Sarria (primeira parada, ontem, após Samos...). Me deparei com um grupo de 50 estudantes de Madri entrando na rota jacobea. Falei com um dos monitores, Carlos, que contou que se tratava de uma atividade desportiva extracurricular...

Como Sarria está distante cerca de 120 quilômetros de Santiago de Compostela, ele contou que nos próximos dias o grupo fará etapas em torno de 20 quilômetros. Em seis dias voltam para casa... Engasgou para lembrar onde o grupo iria parar ao final do dia; mas, possivelmente, iriam ocupar um espaço que, se houvesse necessidade, seria do peregrino...

Como se disse, essa agitação tem o seu lado bom, porque movimenta a economia. E como!!! Por duas bananas cheguei a pagar 1 euro e 20 centavos, ou seja, cada banana o equivalente a 1,80 real!!! Por um sabonete desembolsei 3 euros e 60 centavos!!!

Mas, só isso? Para o monge beneditino que concordou em conversar comigo, não, decididamente, não. Além de acreditar na importância de se praticar o bom exemplo – até para intimidar o ladrão de botas... – ele pondera que, ao fazer a rota por turismo, pode acontecer o momento mágico do encontro com Deus... e aí ele dá o exemplo de uma jovem que, ao passar férias na rota jacobea, decidiu fazer seus votos religiosos...

 

(*) Vacaciones, em espanhol no plural, é o período do ano em que as pessoas que trabalham ou estudam têm um descanso total pelo paralisação de sua atividade.

 

Basílica de San Julián: o destaque do Monastério de Samos

 

Antigo projeto prevê a inclusão de torres

 

Fachada de igreja barroca, sem torres

 

Detalhe da Cruz Asturiana

 

Altar da Basílica: missa com cantos gregorianos

 

Interior do Monastério: estátua de Feijoo, da comunidade samonense

 

Afrescos no claustro gótico las Nereidas: passagens de São Bento

 

Capela do Ciprés: mozárabe, integra Abadia Beneditina de San Julián

 

Monastério de San Julián de Samos: ora et labora



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 08h40
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PEDRAS DO CAMINHO

Com os pés na Galícia

 

Castelo de los Marqueses, Villafranca del Bierzo, indo para a Galícia

 

Monastério de San Nicolás el Real, barroco, século XVII

 

Ponte de Villafranca del Bierzo: em direção à Galícia

 

Marco oficial de ingresso na Galícia

 

O Cebreiro, a cidade de pedra

 

Vista magnífica de O Cebreiro

 

Desde que iniciei a peregrinação, cruzando a Espanha de Leste a Oeste, passei pelas Províncias de Navarra, La Rioja, Burgos, Palencia e León y Castilla. Neste domingo 28 de junho, às 15 e 40, ao entrar no povoado de O Cebreiro, dei o primeiro passo na Galícia (que é um conjunto de províncias), cuja capital é Santiago de Compostela.

A cidade de pedra, como O Cebreiro é conhecida, está a cerca de 1.300 metros de altitude e oferece uma paisagem impressionante, de uma sequência de morros forrados de plantações... Mas até Santiago, que está a 250 metros acima do nível do mar, haverá ainda muitas subidas e descidas, a mais alta delas em Alto de Riocabo, a 900 metros...

No sábado, quando sai de Molinaseca e me detive no Castelo dos Templários, em Ponferrada, terminei a etapa em Cacabelos, somando mais 23,3 quilômetros à peregrinação – o que está dentro de uma média razoável... No domingo, para compensar, e como o objetivo estava na chegada, em O Cebreiro, fiz 36,6 quilômetros (o maior percurso num dia!!!).

Apenas para dar uma pontuada, pelas minhas contas já caminhei 613,9 quilômetros – o que significa que de O Cebreiro 185,1 quilômetros me separam de Santiago de Compostela.

Essas são as minhas contas... pois o guia Rother informa que desse ponto faltam 159,8 quilômetros, enquanto para o El País/Aguilar seriam apenas (!) 154,7 quilômetros.

Mas, e a Galícia? O que se diz é que se trata de uma região misteriosa, onde é muito forte uma tradição pré-cristã, com destaque para a cultura megalítica (4000 anos a.C.) e símbolos da Idade do Bronze (1800 a.C.).

Diz-se que os celtas habitaram as terras da Galícia desde os anos 700 a.C., até a invasão dos romanos, em 135 a.C., e que aos celtas se deve o nome “galaicos”...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 10h15
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PEDRAS DO CAMINHO

Templários em Ponferrada

Entrada do Castillo de los Templarios

O Tau, divisa adotada no castelo por Conde de Lemos

Muralha preservada da primeira fase do castelo

Muralha principal da fortificação: século XIV

Detalhe de uma câmara da artilharia

Torre de Malvecino: unida à muralha principal por uma passarela

Vista da Basílica de la Encina (séculos XVI-XVIII)

Da torre mais alta do castelo, o Rio Sil

 

Saindo de Molinaseca, depois 4,4 quilômetros de caminhada se passa por Campo e mais 3,6 quilômetros se chega a Ponferrada, considerada a última grande concentração urbana antes de Santiago de Compostela.

Ponferrada, entre outras construções seculares (*), tem como destaque o Castillo de los Templarios, cujas obras de sua primeira fase teriam sido concluídas em 1282, apesar de que o castelo foi habitado pelos monges guerreiros desde 1178 até o fim da organização em 1312. Desse período, restou apenas uma muralha – todo o restante do castelo atual foi construído nos séculos XIV e XV, após ter sido confiscado e, em seguida, ocupado por Pedro Fernández de Castro. Este senhor levantou o castelo hoje existente num extremo, denominado Castillo Viejo. Durante o século XV, informa o Ayuntamiento de Ponferrada, pertenceu ao duque de Arjona, a sua irmã Beatriz de Castro e seu esposo Pedro Álvarez de Osorio, Conde de Lemos, que realizou inúmeros obras e transformou o lugar num luxuoso palácio, que passou a se chamar Castillo Nuevo.

A fortaleza, que é considerada o principal resquício de construção templária no Caminho, está no centro de Ponferrada e ocupa cerca de 8.000 metros quadrados de área.

As visitas aos sábados, contudo, só tem início às 11 horas... Ou seja, desde que sai de Molinaseca fiquei enrolando no café da manhã fora do albergue, fui para frente da biblioteca municipal, onde o wifi continuava funcionando apesar de não haver expediente, e fiz o trajeto de 8 quilômetros em passo de tartaruga...

Um fato inusitado é que em Campo cruzei com cinco peregrinos que fazem o Caminho a cavalo. O comum é a pé e de bicicleta; a cavalo foram os primeiros. Cumprimentei o grupo e fiz fotos. Gostaria de ter podido conversar, saber de onde saíram, se vão direto etc. – afinal nos finais de semana e principalmente nos finais de semana aparece de tudo no Caminho –, mas passaram lotado...

Permaneci no Godivah, um espaço gourmet em frente ao castelo que tem folheados deliciosos. Consegui me conectar numa rede e adiantar o texto... Antes, fiz fotos externas. Aguardei a abertura da bilheteria do castelo e mediante 3 euros pude fazer fotos internas, que acompanham essa cebolada...

E sobre os cavaleiros famosos, vale lembrar que a Ordem dos Templários, de cunho religioso e militar, foi criada em 1118, por Hugues de Payens, Geoffrey de Saint Ademar e outros cavaleiros. Seguindo regras de castidade, pobreza e obediência, o objetivo era proteger os lugares santos da Palestina e os peregrinos, inclusive os de Santiago de Compostela.

Consta que lideraram os exércitos das Cruzadas. Com o tempo, conquistando poder e dinheiro, construíram fortalezas, igrejas, estradas e pontes. Até que o Papa Clemente V determinou a extinção da Ordem e confiscou seus bens...

O último Grão Mestre dos Templários foi Jaques Demolay, queimado em praça pública. Sua morte, contudo, não seria o fim dos princípios da Ordem, pois consta que muitos dos seus integrantes foram abrigados na Maçonaria, colaborando para fortalecer os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

(*) Basílica de Nossa Senhora La Encina, do século XVI; Igreja “mozárabe” Santo Tomás de Las Ollas, dos séculos X a XIII; Igreja “românica” Santa Maria Vizbayo-Otero, do século XVI; e Real Cárcel, do século XVI, onde funciona o Museu Del Bierzo.

Peregrinos cavaleiros



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h58
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PEDRAS DO CAMINHO

O ponto mais alto... Isto é real!

 

La Cruz de Hierro: ponto mais alto do Caminho

 

Hoje, ao peregrinar a minha etapa 21 do Caminho – de Santa Catalina de Somoza até Molinaseca, algo em torno de 35,8 quilômetros... – passei de manhã em La Cruz de Hierro.

Trata-se do ponto mais alto do Caminho Francês, com quase 1.500 metros de altitude, marcado por uma solitária cruz de ferro sobre um mastro de madeira de 5 metros. Diz a lenda que o peregrino deve trazer uma pedra de seu lugar de origem e deixá-la na base, para se livrar de suas cargas e culpas e ter proteção na viagem...

Como sabia dessa necessidade, trouxe do Brasil uma pedra na minha mochila e lancei-a no monte. Vai que...

Ao cruzar por La Cruz de Hierro passei pelo penúltimo maior obstáculo do Caminho – afinal você parte de altitude de 900 e poucos metros, em Santa Catalina de Somoza, atinge os quase 1.500 metros, e desce para Molinaseca, a menos de 600 metros do nível do mar...

Penúltimo, porque o último, conforme apontam os guias que me auxiliam, dentro de uns dias estarei chegando a O Cebreiro, a pouco mais de 1.300 metros de altitude... se bem que alguns dias depois tem o Alto de Riocabo, a 900 metros...

Mas não adianta se preocupar por antecipação, pois tudo depende das condições do solo, da meteorologia e, claro, de como eu estiver no momento. Hoje, por exemplo, estava muito bem. Só isso para justificar uma caminhada de quase uma maratona.

Aliás, nesse momento de projeções e balanços, acabo de constatar que para o guia El País/Aguilar Molinaseca estou 214,5 quilômetros distante de Santiago de Compostela. Ou seja, já teria percorrido exatos 584,5 – considerando os 799 quilômetros do Caminho Francês.

Já para o guia Rother, faltariam 220 quilômetros até Santiago e eu já teria peregrinado 579 quilômetros...

Contudo, considerando as minhas contas, eu teria somado 554,1 quilômetros e restariam 244,9 quilômetros.

Com certeza um dos três, ou os três fizeram contas erradas...

Sinceramente, as contas de El País/Aguilar me são mais favoráveis, pois só 214,5 quilômetros me separam de Santiago de Compostela!

 

Chegando a Astorga...

 

... a chegada ao pueblo marca a rotina do peregrino

 

Casal de franceses: peregrinação desde Le Puy

 

Viana: primeiro sinal da cidade é a cruz da igreja

 

"Buen camino, pelegrino" é a saudação popular

 

Mas, afinal...

– O Neguinho não tinha mais o que fazer? – perguntou meu irmão quando minha mãe lhe contou que eu estava peregrinando o Caminho de Santiago de Compostela...

Assim, como a incredulidade do Batata, as reações são as mais inusitadas ao se saber por onde ando, especialmente se o interlocutor já ouviu falar, leu ou teve algum amigo que fez o Caminho – especialmente se foi a pé. Afinal são cerca de 799 quilômetros, em condições nem sempre ideais para uma caminhada, como a que se faz diariamente na orla de Santos...

Gerson diz que nem de carro...

Macarrão garante que vai acompanhar sentadinho em frente ao micro...

Léa parabeniza e... não se fala mais nisso!

O apoio, só pra não contrariar, vem da família, Sandra, dona Maria, Flávia, Juliana, Lady (meio chateada...).

O entusiasmo chega de todos os loucos, Lisbôa, Glauco, Guerato, Lociks, Campos, Thomas, Denys, Zé Cássio, Zilli, El Diablo, Hugo, Joaquim, Miriam, Antonio Maria, Arnaldo, Marcão, Braga, Bunitão, Edu, Ariomar, Marinho, Maratona, Angela, Jacuí, Oscarzinho, Di Renzo, Oscar, Soto, Filetti, Valmir e Kelly, Felipe, (o afilhado Mateus deve ter pensado...), Caio, Ibrahim (e outros que não tiveram a oportunidade de se manifestar...).

Batata, na gozação, acha que é coisa de quem tem tempo sobrando; está a fim de procurar pelo em ovo, chifre em cabeça de burro... ou de quem, a contrario sensu, já teria feito tudo o que era para ser feito. O que, convenhamos, seria um grande exagero para quem ainda tem mais uma idade e alguns anos pela frente.

Legal que todos os que acham a iniciativa interessante pensam também um dia concretizá-la. Não sei o que estão esperando! Se programem para o próximo Verão; ainda mais considerando que 2010 é ano jubilar, quando o perdão divino é garantido a todos os pecadores que chegarem a Santiago...

A todos vocês digo que é possível qualquer um, ainda que com a fragilidade da idade e o costume do conforto, tirar de letra os quase 800 quilômetros do Caminho.

Como já contei, até este momento (*) topei com situações quase impossíveis, caso da americana de 84 anos. Ela também começou em Saint Jean Pied de Port e faz as etapas conforme sua condição. Dias atrás, num restaurante em Reliegos, conheci a brasileira Eudóxia, 74 anos. Ela mora na Zona Norte de São Paulo e, na base de 10 a 15 quilômetros por dia, está fazendo o Caminho desde 25 de maio.

Quer mais: em 25 de junho, em Murias de Rechivaldo, quando fazia o trecho entre Hospital de Órbidos e Santa Catalina de Somoza, encontrei um casal da terceira idade que faz o Caminho não de Saint Jean, mas de Le Puy, também na França, o que acrescenta mais 750 quilômetros à caminhada – totalizando algum em torno de 1.549 quilômetros. Ela carrega uma mochila e ele uma mala com rodinhas. Falei com ele, que se identificou como Francis, e contou que haviam saído de Le Puy no domingo de Páscoa... Fiz fotos e dei votos de ânimo! Mas tem gente que anda muito mais, vem de outros pontos da França, da Holanda, da Alemanha...

Ou seja, não tem limite, muito menos de idade para aceitar o desafio. Desafio?

A verdadeira motivação para desembarcar em Saint Jean Pied de Port, na França, para dar o primeiro passo, acredito, será para mim sempre uma incógnita, por mais que pense e tenha, na ponta da língua, mais de 1.001 motivos para expor.

Da mesma forma, ignoro a origem da disposição para acordar diariamente às 6 horas para andar, andar e andar, sozinho – em parte, pois você passa e é passado por outros peregrinos, a pé ou de bicicleta, ou cruza com a gente dos pueblos (sempre com o cumprimento “Buen Camino, Pelegrino”) ah! e os inúmeros bichos que fazem parte do Caminho, como lesmas, de vários tipos, sapos, pássaros (ouvir o cuco é demais...), ovelhas, bois, cavalos, salamandras, formigas, lagartos, cães, gatos... um tal de chinche, que é uma praga, mas, sinceramente, não vi nenhum...

 

Sem medo do peregrino...

 

O som de pássaros, de várias espécies, é uma constante

 

A lesma, que vira prato fino, é companheira no Caminho

 

Rebanho de ovelhas: curiosas

 

Mais pássaros, "que não gorjeiam como lá..."

 

Nos últimos dias penso e me preparo para enfrentar o encontro com Santiago de Compostela. Afinal, acredito que tudo, absolutamente tudo, desde a mordida do mosquito, até a preparação, o primeiro passo, o dia a dia, as coincidências..., enfim, a própria existência... todo esse quebra-cabeça dos últimos dias possivelmente se cristalizará no momento mágico em que avistar a torre da catedral de Santiago de Compostela...

A torre da igreja, via de regra, é a primeira coisa que se vê quando se está chegando ao povoado ou à cidade. Durante o Caminho esta é uma expectativa presente a cada passo; uma sensação de conforto... não tanto pela religiosidade, ou inconscientemente sim, sei lá, mas principalmente pela perspectiva de ver o pueblo; para parar e se livrar um pouco da mochila, descansar, comer ou beber alguma coisa... Consumir?

Este é um dos efeitos Santiago de Compostela! O tempo disponível te dá a oportunidade de avaliar cada movimento, cada olhar, sob vários aspectos, e são tantos que se somam, que, ao final, será a conjugação deles que poderá te aproximar um pouquinho mais e com melhor clareza daquilo que é real...

(*) Até 26 de junho, quando cheguei a Molinaseca já teria percorrido 554,1 km, ou 584,5 km, ou 579 km...

 

Torre da Igreja Santa María de Los Arcos, em Los Arcos



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 13h37
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PEDRAS DO CAMINHO

Imagens da rota jacobea (*)

 

Clicando uma média de 100 fotos por dia, é um prazer preparar uma seleção de imagens, ainda mais nesta altura da peregrinação, quando muita coisa já passou, mas muita coisa ainda falta passar... Em todo caso, estão são algumas que posso dizer que gosto, tanto pelo que mostram, mas principalmente pelo que significam...

 

A primeira bolha a gente não esquece!

 

Catedral de Burgos guarda o túmulo de El Cid

 

Pra não esquecer os muitos cães do Caminho...

 

Ninhos de cegonha na Igreja de Santa María, em Belorado

 

Crianças brincam no jardim de uma creche em León

 

Ruínas do antigo hospital de peregrinos San Juan de Acre, Navarrete

 

Igreja templária de Torres del Río: cúpula com influência árabe

 

A seta amarela garante que você está no Caminho

 

As cores dos campos do Caminho

 

As torres da Catedral de León: harmonia gótica 

 

Depois do pasto, levando o rebanho de ovelhas para descansar

 

Há momentos em que é o Caminho, você e sua sombra...

 

A lua ainda teima em permanecer na paisagem

 

Esculturas de pedras: momentos de reflexão do peregrino

 

Tosa das ovelhas não dói: elas balem porque são manhosas!

 

No chão de Navarrete, a vieira e a espada indicam a direção

 

Imagem da ponte gótica de la Rabia, sobre o rio Arga, em Zubiri

 

(*) Uma questão que me intriga sobre o Caminho é o fato de os textos, em guias e na Internet, sempre se referirem à rota jacobea. Afinal, qual seria o motivo, se o santo é Tiago, o Maior, ou Santiago, o apóstolo cujo sepulcro foi encontrado na região hoje denominada Compostela – outro termo cuja explicação é divergente.

Entre as explicações para a palavra “jacobea” designar o Caminho de Santiago é considerado, em primeiro lugar, que Santiago em inglês é Saint James. E James, segundo o dicionário American Heritage Dictionary of the English Language, vem do latim antigo Iacomus, que é uma variante de Iacobus, que vem do hebreu Yaakov. Assim, de Iacomus surgiu (Sant) Iago e de Iacabus surgiu Jacobo y Jacob.

Outra palavra polêmica no âmbito do Caminho é Compostela. Há quem considere que derive de “campus stellae”, que significa “campo da estrela”, devido à lenda que um monge viu uma estrela bailando no céu antes de cair e indicar a tumba do apóstolo. Há especialistas, contudo, que afirmam que o termo vem de “compositum tellum”, que significa “sepulcro bem cuidado”, pois esta era a situação em que se encontrava a tumba de Santiago no momento em que foi encontrada.



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 12h22
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PEDRAS DO CAMINHO

O business do “Camino”

 

 

Além de albergues, outras opções de hospedagem mais caras

 

Em alguns trechos, o Caminho oficial muda para favorecer interesses

 

Peregrina ou turista: cadê a mochila? E daí? Afinal...

 

... o Caminho é Itinerário Cultural Europeu...

 

... e a economia agradece a presença de turistas/peregrinos

 

A peregrinação deixa marcas no peregrino, não só aquelas mais profundas – n’alma, por exemplo, pois como se diz ele nunca mais será o mesmo! –, mas tantas outras pelo corpo, que acabam sendo compartilhadas pelos que estão no Caminho.

Os pés são os que mais sofrem – e os joelhos, as ombros, as costas... também, devido ao peso da mochila. Mas, as bolhas nos pés são inevitáveis e aparecem mesmo que o calçado seja o mais adequado e o peregrino dos novos tempos tenha tido a oportunidade de planejar o uso diário das botas antes de pôr o pé na estrada.

O piso irregular em que os passos são dados, quase sempre de cascalho e pedra, mesclado com subidas e descidas, determinam uma pisada que ora força a ponta dos pés – e aí as bolhas surgem dos dedos para a planta –, ora o calcanhar, formando bolhas exatamente nessa parte do pé.

Com bolhas nos pés fica muito difícil caminhar.

Uma forma de prevenir o surgimento de bolhas logo no primeiro dia é evitar andar com as meias úmidas. O ideal, assim que o suor ensopou os pés, é trocar as meias.

Ah! E menos mal se forem só as bolhas, pois há casos em que o pé, o tornozelo, o calcanhar ou o joelho incham, talvez resultado de algum processo inflamatório, e andar fica quase impossível!

Eu mesmo acompanhei o sofrimento de um peregrino durante dois dias seguidos, desde que chegou Frómista. A comoção era geral, pois todos ouviam seus gritos. No dia seguinte, achando até que havia abandonado o Caminho, o encontrei na rua seguindo em frente. À noite, chegou gemendo a Calzadilla de la Cueza, depois de percorrer 36,4 quilômetros! Eu mesmo, embora sabendo que não deveria, ofereci comprimido de aceclofenaco, que levei para minhas dores na coluna, mas ele não aceitou. Ainda bem. Vai que tem alergia...

O sofrimento, nesses casos, desencadeia um fenômeno solidário, desde o colega peregrino ao hospitaleiro, que é o responsável pela acolhida do doente.

A dor, portanto, faz, sempre fez e fará parte do Caminho. Imagine os muitos casos de dor em todos esses séculos de peregrinação... Antigamente, a maioria dos peregrinos, provavelmente descalça, fazendo a rota jacobea com motivações muito diferentes das de hoje, quase que absolutamente sob a pressão da Igreja, com o objetivo de buscar a indulgência e se livrar do pecado.

Afinal, em 1119, o papa Calixto II concedeu ao peregrino de Santiago durante o ano jubilar, como será 2010 (*), quando o Dia de São Tiago o Maior, 25 de julho, cai num domingo, o perdão a todos os seus pecados. Então, peregrinar nos demais anos não conta? Deve contar, ora! E, claro, quem tinha dinheiro pagava a chave celeste...

Nos cascos, aquilo sim é que era sofrimento – daí terem proliferado tanto hospitais e albergues de peregrinos no Caminho, até muito mais e maiores do que nos dias de hoje, conforme relatos dos guias medievais. Aliás, em 1332, o papa João XXII concedeu indulgência às pessoas que ajudassem os peregrinos com hospedagens ou com esmolas, o que fez ampliar essa estrutura...

Por isso, foi com uma estupefação que a hospitaleira Carmen, do Albergue Municipal de Peregrinos de Frómista, numa manhã de junho, atendeu um motorista de táxi. Em 21 anos de hospitalaria ela nunca havia presenciado tal cena.

O taxista trazia duas mochilas, devidamente identificadas, e colocou aos seus pés.

– São de dois peregrinos.

– Dois o quê? – não acreditou Carmen.

Pois é, os peregrinos haviam contratado o táxi para levar as mochilas para o Albergue Municipal. Fariam a peregrinação tal como peregrinos, ou seja, fantasiados com roupas tradicionais, tecido leve, cor caqui, botas solado resistente, cajadinho básico de alumínio, e uma pochetezinha na cintura, com dinheiro para o menu ou o bocadilho num dos muitos bares existentes no Caminho, credencial de peregrino adquirida em alguma das associações de amigos e quando chegassem...

Pois é, quando chegaram, pediram para ver o albergue, não gostaram e foram para o hotel ao lado.

– Não recebo mais mochila aqui –, vacinou-se Carmen – Este não é o espírito do Caminho.

Eis a questão, qual o espírito do Caminho?

Ao longo dos últimos anos o Caminho de Santiago de Compostela mudou muito. Não só para os que o fazem, mas também para os que trabalham nele, incluindo aí a Igreja, poder público (local e estadual) e empresariado e os que vêem nele a oportunidade de ganhar dinheiro e muito – caso dele, sim, ele mesmo, o próprio, Paulo Coelho.

A começar pela rota, que a cada dia muda, com o surgimento de um novo negócio ou interesse, do empresário ou mesmo do poder público – como aliás me confidenciou um dono de restaurante em Carrión de Los Condes. Nessa que é uma das últimas cidades importantes da Província de Palencia, antes de o Caminho entrar em León, a rota original foi alterada para fazer com que os peregrinos passem por ruas onde funcionam negócios dos apadrinhados do poder...

Hoje, o Caminho de Santiago é importante para a própria sobrevivência da Espanha. Não somente como polo de difusão cultural, pelo rico patrimônio histórico, arquitetônico, arqueológico e o escambau, mas especialmente como atração turística.

Peregrinar o Caminho nos dias atuais, além das muitas motivações que o próprio peregrino enumera ao justificar sua presença na rota, virou turismo – e turismo barato, para a família inteira, de um dia, uma semana, ou uma quinzena, fácil de fazer, principalmente em meio à crise que se abateu nas principais economias do mundo, notadamente na Europa.

Peregrino virou turista!

Ou melhor:

Turista virou peregrino!

Ou seja, estabeleceu-se a maior confusão na terceira maior rota de caminhantes do mundo – depois da Palestina, a primeira, e do Vaticano, os chamados romeiros.

A questão, como demonstra o episódio dos peregrinos que mandaram as mochilas pelo taxista, já alcança a questão ética, e o turista não se faz de rogado (não no caso, cujos protagonistas preferiram o hotel...) em utilizar a estrutura mantida para atender o verdadeiro peregrino.

Ou isso é uma bobagem? Talvez seja, coisa de purista – e nesses tempos bicudos de crise, há de ser pragmático.

Afinal, turismo movimenta o comércio, o serviço, faz a riqueza circular! O próprio ayjuntamiento, o equivalente à municipalidade, não se preocupa em dar uma orientação clara no caso do atendimento prestado ao peregrino no albergue municipal – que geralmente é bem equipado, recebe recursos do governo da Província e mesmo assim ainda cobra.

Mas, enquanto um municipal cobra 4 euros, por exemplo, caso do albergue municipal Cluny, de Sahagún, um particular pode cobrar 10 euros, caso do El Pajar, de Agés.

Além de tudo, a solidariedade faz parte do Caminho, e mesmo que o hospitaleiro, ainda que de um albergue municipal, de associação ou da igreja, perceba que está diante de uma fraude, será improvável que não aceite o turista... digo, peregrino. Ainda mais se estiver portando uma credencial. E tem também aquela bula papal...

A situação vai recrudescer nessas férias de Verão, a primeira depois da crise, e que terá seu pico nos meses de julho e agosto. Por enquanto, os albergues estão vazios, ou com muito espaço vago. No domingo passado, 21 de junho, em Sahagún, por exemplo, das 64 camas disponíveis, somente 10 estavam ocupadas.

Apesar disso, enquanto degustava um menu peregrino, com direito a coelho no segundo prato!, chegaram uns 10 peregrinos (ou seriam turistas?, não importa!), que movimentaram o restaurante. Eles haviam caminhado cerca de 15 km e estavam sedentos e famintos. Falei com alguns deles e, para provocar, perguntei se eram turistas.

O líder não se ofendeu e corrigiu:

– Somos peregrinos de final de semana! – inovou.

Pois é, esse é espírito. Se fazem o Caminho, são peregrinos. No caso, o grupo se reúne uma vez por... mês, num domingo, e fazem um trecho. Assim, pretendem um dia chegar a Santiago de Compostela. Mas, pela condição, dormem de sábado para domingo num hotel e quando terminam a etapa se confraternizam e retornam numa van de apoio aos seus lares.

O que deve ser considerado, finalmente, é que essas adequações do Caminho de Santiago são sinais do tempo. Conversando com empresários do setor de serviços sobre o assunto, de modo geral, eles estão tranquilos. No fundo sabem que há mercado para as várias faixas de renda e, no caso de uma classe ser incrementada, naturalmente a outra terá benefícios.

César, de Calzadilla de la Cueza, está otimista com as perspectivas deste Verão. O pequeno povoado está estrategicamente localizado a 17,2 quilômetros de Carrión de Los Condes, após uma planície fatigante! Se quiser evitá-lo, o melhor é que durma em Carrión e o atravesse em direção a Lédigos (6,2 quilômetros após) ou Terradillos de Templarios (mais 3,3 quilômetros).

Agora, se você vem de Frómista, parar em Carrión, depois de 19,2 quilômetros é pouco; e inevitavelmente você terá que dormir em Calzadilla de la Cueza.

Lá, a única opção é o César. Ou você vai para o Hostal dele, o Camino Real, na faixa dos 20 euros em quarto individual, ou fica no albergue, também dele, a 6 euros – e terá como hospitaleiro o baiano Sidney, que veio para estudar na Espanha e foi ficando, ficando, ficando, e diz que nunca mais voltará ao Brasil...

Negócios do Caminho...

 

(*) Após 2010, os próximos anos jubilares são 2021, 2027, 2032, 2038, 2049, 2055, 2060, 2066, 2077, 2083, 2088, 2094…

 

A espanhola Inés: apenas um trecho do Caminho, até León

 

O casal de portugueses também faz um trecho a cada ano

 

Após a longa planície, o albergue que tem um baiano hospitaleiro

 

Advertência aos peregrinos: sem danos, especialmente ambientais



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 07h39
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PEDRAS DO CAMINHO

A Embaixada do Brasil em Castrojeriz

 

Bandeira brasileira na fachada do La Taberna

 

Com o casal Toño e Maria de Jesus: atrás, foto dele...

Notas de dinheiro brasileiro decoram a parede: 100 reais original

Já falei, e não foi uma vez, do amor dos espanhóis pelos brasileiros; mas assim é demais.

O casal José Antonio, ou simplesmente Toño, e Maria de Jesus, é fanático. Eles conhecem o Brasil mais do que muitos brasileiros. Já visitaram o país várias vezes e pretendem voltar qualquer hora dessas... No Sul, estiveram em Porto Alegre, cidades da Serra Gaúcha, como Gramado e Canela (“uma avenida de hortências...”, lembra Maria de Jesus), Foz de Iguaçu, conheceram Salvador (contam que estão até hoje esperam uma caipirinha, zombando da lerdeza do baiano...), Porto de Galinhas, Fortaleza, Natal...

Eles são donos do bar La Taberna, em Castrojeriz, e, você não vai acreditar: eles têm a bandeira do Brasil na fachada do estabelecimento!

O La Taberna funciona na rua principal da medieval Castrojeriz e é passagem obrigatória de todos os peregrinos do Caminho de Santiago. Não tem como não ver; não tem como não ter vontade de entrar e conhecer o que tem lá dentro.

E mais surpresas. O casal coleciona notas de dinheiro brasileiro, de várias épocas, que decoram a parede do bar, atrás do balcão – inclusive uma de 100 reais, que Tonho garante que é original.

Em outras paredes também têm bandeiras do Brasil, recortes de reportagens em publicações brasileiras que já focaram esse amor e fotos de brasileiros – o mais famoso, o hit do Caminho, ele mesmo, e quem mais?, Paulo Coelho! Que, aliás, já esteve lá mais de uma vez, a última delas com uma italiana..., confidenciou Maria de Jesus.

Uma história que sensibiliza o casal é o cachorro que tinham e faleceu há alguns anos. O pastor alemão Bernie tinha o espírito peregrino. Tonho conta as inúmeras vezes que o perro acompanhava os peregrinos até a cidade seguinte e depois retornava. Quando morreu foi tema de reportagem na imprensa espanhola, conforme atestam os recortes guardados. Até hoje o casal sente a falta do animal...

Foi no La Taberna que instalei o escritório peregrino da Titan Comunicação durante minha passagem em Castrojeriz. Afinal, é um dos poucos, senão o único lugar da cidade que possui wifi. Além disso, o menu peregrino oferece a opção de uma sopa de lentilhas com morcilla...

Tanta cordialidade, contratei o bocadilho de jamón e queijo para o dia seguinte. “Vais comer o melhor bocadilho da Espanha”, exagerava Toño enquanto derrubava a garrafa de azeite sobre o sanduíche.

O La Taberna já se intitula a Embaixada do Brasil em Castrojeriz. Mas Toño e Maria de Jesus querem o título oficial.

Eles têm o meu voto. Eles merecem!

 

Toño prepara o bocadilho: o melhor da Espanha



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h42
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PEDRAS DO CAMINHO

Sobre hospitaleiros

 

Jesus, de Sto. Domingo: muito bem no ranking dos hospitaleiros

 

Equipe de Roncesvalles

 

Hospitaleiros em Pamplona: atendendo peregrino suiço

 

Equipe do Albergue de Agrés: particular, e muito aconchegante

 

Sem considerar a infraestrutura do albergue, que é extremamente variável, especialmente se é mantido pela igreja, ou por alguma associação de amigos de peregrinos, comumente mediante parceria com o poder público, ou particular, uma figura fundamental no funcionamento do albergue é o hospitaleiro.

É ele, ou eles, dependendo do tamanho do albergue – enquanto o de Roncesvalles adota uma equipe de quatro por período o de Tardajos tem apenas um 24 horas! –, que marca o ritmo da, digamos assim, hospitalidade do local. Desde a recepção aos peregrinos, com a explicação das regras, especialmente para controlar os abusados, o carimbo na credencial, e o atendimento a qualquer necessidade.

E quando se diz qualquer necessidade é qualquer mesmo, pois será a ele que sempre o peregrino irá se dirigir.

Por isso não é fácil ser hospitaleiro. Para facilitar – e ser um facilitador faz parte da hospitalidade –, não basta que fale apenas o castelhano – embora a grande maioria dos peregrinos seja espanhol. Circulam pelo Caminho pessoas de diferentes nacionalidades, o que exige do hospitaleiro conhecimentos básicos de outras línguas, principalmente, francês, inglês, alemão, português – e não devido a brasileiros, cujo trânsito é incipiente –, mas dos irmãos de Portugal.

Por isso, entre as equipes de hospitaleiros que se revezam, no caso de serem voluntários (sim, porque no caso de serem empregados, serão sempre os mesmos...), há homens e mulheres de várias nacionalidades.

Mas, se além da língua pátria, arranha outra, ponto para o hospitaleiro! Será mais solicitado e terá a oportunidade de mais facilitar.

Somando um ponto aqui, descontando outro ali, é que, naturalmente, vai se formando um ranking entre os hospitaleiros do Caminho. Claro que neste momento, percorrido um terço do Caminho Francês, pode parecer prematuro arriscar um 10, por exemplo, numa classificação de 0 a 10 – faltando, como se deduz, dois terços do trajeto.

Mas Jesus, sim Jesus – o segundo que já encontrei no Caminho – está muito perto da nota máxima. Ele é hospitaleiro no Albergue mantido pela Confradia de Sto. Domingo de la Calzada, em Sto. Domingo de la Calzada, onde fiquei de 14 para 15 de junho, mediante a doação 3 euros.

Sempre bem disposto, me atendeu e acompanhei o atendimento a outros peregrinos com muita dedicação, dando quase sempre retorno às solicitações, sugerindo dicas e procurando colaborar. Foi ele que me recepcionou; e que se despediu de mim, às 6h30 da manhã, ainda com cara de sono...

Os outros da equipe também foram gentis, mas Jesus superou.

Claro que com a super infraestrutura existente no albergue – o que indica que é bem provável que seja funcionário... – fica tudo mais fácil. Talvez seja o único albergue dotado inclusive de elevador, com acesso para dois pisos. Tudo é novo, os estofados são de couro, o sistema hidráulico inteligente, muito limpo... Sua recente reforma foi inaugurada no início do ano e contou inclusive com a presença do governador da Província La Rioja.

Outros que estão com muitos pontos no meu ranking parcial são as equipes que me atenderam nos albergue de Pamplona e em Roscesvalles. Atenciosos, objetivos, prestativos... mas não um Jesus!

Na lanterna do ranking, pelo menos até agora, está o hospitaleiro do Albergue de Logroño. Comigo, de cara, foi duro quando pedi para substituir o número ímpar, que indica a cama de cima do beliche, por um par. “Peregrino não pede”, avisou. De cara, descontei alguns pontos. Como não protestei, minutos depois, talvez arrependido, me deu o número par.

Ficou com minha credencial. Avisou que só iria dar no dia seguinte, após às 6h30! Achei, como todos acharam, esquisito. A credencial é do peregrino, não tem essa de retê-la. Carimba, anota o que tiver que anotar no livro de registro, e devolve. Além disso, e seu quiser sair antes das 6h30 – o que muitos fazem para evitar o sol forte do dia...

Assim, em meio a regras arbitrárias, talvez nem culpa do hospitaleiro, mas da forma como ela as impõe – talvez culpa sim, como aceita tais regras?!?!?!? –, no dia seguinte pela manhã aconteceu a maior confusão exatamente por causa de um catalão (sempre eles...) que queria sua credencial para sair mais cedo. Houve troca de insultos (“ditadura, ditadura!”, dizia o catalão) e o clima quase esquentou. No final das contas, o catalão ficou de castigo e foi o último a receber a credencial...

 

Jorge, de Tardajos: vinho e gasosa, por ser brasileiro

 

Levanto minha própria suspeição, contudo, para falar de alguns hospitaleiros. Afinal, há algumas pessoas – e já comentei isso antes – que é só falar que é do Brasil que se derretem. Foi o caso do hospitaleiro voluntário Jorge, de Tardajos. O albergue é mantido por uma associação de amigos do Caminho, com sede em Madri. Adotou parceria com a Prefeitura local e instalou o albergue numa antiga casa de professores.

Como em Tardajos o único estabelecimento comercial próximo só abre às 17 horas, o que me impediu de fazer compras, estava eu no mesão em frente ao albergue, comendo frutas e o que restou do bocadilho da peregrinação, quando fui observado pelo Jorge. Bem humorado fui à sua sala e me trouxe uma garrafa de vinho e uma gasosa, sugerindo a mistura para acompanhar o meu bocadilho...

Sentou-se comigo e contou uma situação em que estava no Caminho, meio desolado, quando um religioso brasileiro se aproximou e disse palavras que levantaram seu astral. Um momento que mudou seu dia e nunca mais se esqueceu. Ajudar um brasileiro, pois, no caso eu, foi uma forma de retribuir. Só por ser brasileiro! Tomei quase tudo o que ele me deu – e, depois, quando abriu o comércio, comprei uma garrafa de vinho e o presenteei.

 

Pepe e Jesus: ceia com os hospitaleiros de Castrojeriz

 

Ah! E o que falar do terceiro Jesus do Caminho e seu amigo Pepe. Nesse caso, eu sou suspeitíssimo. No dia 18, os dois estavam como hospitaleiros voluntários do Refúgio de Castrojeriz, mantido pela Asociación de Amigos de los Refugios del Camino de Santiago.

Fui lá para conhecer o albergue onde o santista José Roberto Lisbôa Júnior, o Juca, é hospitaleiro diplomado – e em julho cumprirá sua escala anual. Ou seja, já estava super indicado!

A mordomia foi total. Primeiro, Jesus me levou para conhecer sala por sala do albergue e explicar o seu funcionamento. Ao mostrar o espaço dos hospitaleiros, fez questão de mostrar onde Juca dorme, onde Juca se senta – e até a janela onde Juca se pendura para fumar, após a ceia e do café...

Depois, ele recepcionou jovens da comunidade, para dar aulas de reforço em Matemática, Inglês e Francês, e aproveitei para conhecer um pouco a cidade.

Voltei por volta da 21h30 – o albergue fecha as portas às 22 horas – e cumprimentei Jesus e Pepe e fui me preparar para dormir. O dia havia sido duro, já havia feito minha refeição principal do dia, por volta das 15 horas, na La Taberna (depois eu explico o que é a La Taberna...) e ia dormir daquele jeito...

Ia, pois já estava deitado, quando Jesus veio me buscar: “Vamos, Luiz, vamos cear...”. O quê?!?!?! Subimos no refeitório e lá já estava Pepe, que havia preparado uma salada caprichada, com aspargos, azeitonas, atum, tomate, alface, que foi acompanhada de queijo, tortilla etc. e, claro, vinho, com iogurte de sobremesa.

Pois é, comi como um hospitaleiro! Fiz questão de lavar os pratos...



Escrito por Luiz Ferraz Cebola às 15h30
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